120 mil mortos: eles não falam, mas deixam lições

Cemitério de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro 20/08/2020
Cemitério de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro 20/08/2020 (Foto: REUTERS/Pilar Olivares)
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O que nos falam, na sua mudez, estes fatídicos números? Vidas se foram sem o último adeus dos entes queridos, sonhos e projetos se interromperam, prantos derramados na solitária via crucis da dor, sem, ao menos, o olhar de um ente amado. Em meio a rostos de palidez cadavérica e olhares angustiantes, ouviu-se, na solidão gélida de uma UTI, paciente a balbuciar palavras entrecortadas de lágrimas, num olhar nostálgico de quem antevia a eternidade: “Doutor, eu ainda vou ver a minha família?” Entubado, poucas horas depois, no indeterminismo do mistério da vida, pairou sobre ele o silêncio infinito. 

Tudo tragado na voragem pandêmica, menos a saudade infinda dos entes estimados, que continuam a caminhada na vida, este “vale de lágrimas”, palavras de um cântico de aleluia de Santo Agostinho.

Por que arrastar o ser humano a tamanho martirológio? Mentes distorcidas produziram excrescente e desumano protocolo (normas expedidas pela OMS para o atendimento de enfermos com COVID-19 nos hospitais), documento através do qual se preceitua arrancar do enfermo as suas mais puras ternuras, e o faz um animal lançado nas câmaras frigorificadas das UTIs.

Que sentimentos empedrados ditaram uma carta protocolar, verdadeira cartilha da dor, cujas regras transformam os hospitais em templos do horror, e, dos condenados pandêmicos, mártires de um calvário, até então desconhecido nos anais dos séculos. 

Diante deste drama existencial, no qual se entrechocam e se comungam dores, angústias e esperanças, sob o mesmo teto hospitalar, operadores da saúde e temerosos do juízo final, salta-me à memória esta passagem da obra, “Divina Comédia“, de Dante Alighieri, quando Virgílio, ao conduzir o poeta florentino pelos labirintos da eternidade, neste mundo de eterna escuridão, chega às portas do inferno, e, estarrecidos, param. No pórtico, se lê esta inscrição: “Aqui, todas as esperanças sucumbem”, não se ouve um único soluço dos entes amados, nem o olhar infinitamente puro de uma mãe, ou um abraço filial da despedida. 

Não há velório; lança-se o morto na vala comum de uma enorme sepultura, onde desaparece a identidade. Atemorizado, Dante perguntaria: Por que tanta desumanidade? E responderia o poeta da Eneida: São os condenados ao fogo eterno, os sentenciados pelas pragas pandêmicas. Atemorizados, abraçam-se, entre soluços e lágrimas. Petrificados pelo terror, olham, sob intenso êxtase, o infinito espaço sideral. Despedem-se, e no gesto do adeus, assim falaria Virgílio: A vida se realiza num constante entrelaçamento de fatos, seres pensantes e suas circunstâncias, numa imutável sucessão de gerações. Olhem sempre este circunstancial e o que ele oculta, sob pena de se perder a visão do mundo.

Setecentos anos nos distanciam dessa grandeza de ideias entre épicos da literatura universal e o Eterno, e, hoje, o que assistimos neste infortunado Brasil? A mediocridade, a boçalidade e um populismo balofo, transvestidos num presidente da República a se esparramar neste diálogo de compadrio, com o fanatismo cego, o militarismo caolho, o filhotismo cevado nas tetas do poder, e, finalmente, com delinquentes devastadores da Floresta Amazônica. 

Eis algumas peças deste besteirol: Indagado acerca de setenta mil mortes causadas pelo coronavírus, respondeu: “E, daí? Eu não sou coveiro“. Informado do aumento de oitenta por cento nas queimadas e desmatamento em relação ao ano anterior, esbravejou: “Isto é coisa de ONGs”. E demite o presidente do INPE.

Pressionado pelas mais de 118 mil mortes, furioso, disparou: “Eles se tivessem tomado hidroxicloroquina, como eu, não teriam morrido”. 

Paremos e reflitamos.

Pesa sobre este vulto, que tem em suas mãos o bastão de governar o país, o fardo de maior causador pela expansão pandêmica que recai sobre o povo brasileiro.

Por suas ações homicidas e políticas públicas de devastação das nossas reservas florestais e matança de indígenas, a justiça, decerto, arrastá-lo-á ao banco dos réus do Tribunal Penal Internacional e o condenará como um genocida. 

Como descrevê-lo? Exterminador de vidas, por suas decisões nefastas, olhar esquizofrênico, mente pervertida, inquietude de um sociopata, ele estarrece o mundo e o nosso país, com a enormidade da calamidade pandêmica, maior do que a última guerra no Vietnam. 

Neste caldeirão, como identificar os seus fanáticos seguidores? Idiotões da classe média, inebriados com os afortunados, sonâmbulos de um mundo em que aspiram o luxo, odeiam os que defendem os direitos humanos e sociais.

Paremos um pouco e reflitamos.

Milhares de vidas humanas que a tragédia pandêmica e a delinquência bolsonarista silenciaram, não falam, mas deixam estas lições às gerações de hoje e às do amanhã. Desventurada a nação cujo destino a lançou nas mãos de um destes desastrados tipos: Idi Amin Dada, Papa Doc, Mussolini, Bolsonaro, Franco, Alexander LuKashenko, Pinochet e Videla.

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