2013 está Maduro
"Dizer aos eleitores da oposição que não têm direito de questionar é coisa de ditadura", escreve Eduardo Guimarães
Como dizia o poeta Cazuza, estou sempre "nadando contra corrente só pra exercitar" a lucidez, que o conforto de se deixar levar pela correnteza costuma afogar. Não é que eu não tenha medo do linchamento digital que se tornou regra contra quem discorda das teses "sagradas" das ideologias, é que não consigo me submeter quando o maldito cérebro teima em dizer "NÃO SE SUBMETA SÓ PRA NÃO SER LINCHADO".
Fiz isso nos primeiros dias de junho de 2013, quando vi um inexplicável quebra-quebra na avenida Paulista.Eram manifestantes de esquerda quebrando tudo porque o então recém-empossado prefeito de São Paulo, Fernando haddad, aumentara em 20 centavos o preço da passagem de ônibus que o agora ex-prefeito Gilberto Kassab deixara congelada no ano eleitoral de 2012, quando São Paulo lhe deu um belo chute no traseiro.
Vivíamos regime de pleno emprego, inflação baixa, crescimento alto, grau de investimento das agências de classificação de risco, desigualdade e pobreza derretendo... Pra que quebrar a cidade se o aumento da tarifa não afetaria mais as pessoas do que afetavam aumentos impostos pela prefeitura quando o país ia mal e ninguém protestava daquele jeito?
Não tive dúvida: critiquei duramente. Até porque, via o MPL e os grupos aliados detonando a Dilma, além do Haddad, apesar de que o governo Alckmin também aumentara o preço da passagem de Metrô.
O inferno desabou sobre a minha cabeça: "neoliberal", "reacionário", "tucano", "traíra" e até "cadelinha do Haddad". Gente dizendo ser do "Anonymous" promoveu ataques de demanda contra o Blog da Cidadania, sobrou até pra minha família.
Alguns dias depois, escrevi texto vaticinando: "Isso vai terminar em golpe". Três anos depois, Dilma Rousseff foi derrubada por um golpe parlamentar baseado em uma mentira tosca sobre uma operação contábil do governo feita à revelia da presidente da República.
Há exatos sete dias, gravei o vídeo abaixo e postei no X-Twitter quando começou o rame-rame habitual contra eleições na Venezuela - praga que combato desde que fiquei preso naquele país nos idos de abril de 2002 porque os aeroportos foram fechados pela intentona golpista da Fiesp venezuelana, a Fedecámaras.
Eis o vídeo: https://x.com/eduguim/status/1817708338378895629
María Corina Machado foi cúmplice de Pedro Carmona Estanga, o breve, autoproclamado presidente da Venezuela para um mandato de malditos TRÊS DIAS. Ela era, é e continuará sendo golpista. E essa oposição venezuelana é cem por cento golpista.
A lástima é que o povo venezuelano, em parcela aparentemente enorme, caiu na lábia dessa gente. Talvez porque a obra social e econômica de Hugo Chávez esteja virando poeira junto com o espírito heróico e humanista da corajosa revolução boliviariana...
Chávez foi um herói. Assim mesmo: o povo o considerava herói. Porque tentou salvar o povo venezuelano após o "Caracazo", de novembro de 1989. Cháves reagiu com indignação dos heróis contra o massacre operado pelas forças do exército venezuelano, chamando aquilo de a "obra sangrenta do presidente Carlos Andrés Perez". E tentou um golpe. Que fracassou. E Hugo Chávez Frias foi preso. Mas, do cárcere, alçou voo para a Presidência.
Era meu herói. Chorei quando faleceu. E choro até hoje.
O presidente da Venezuela deveria ter sido Diosdado Cabello, político, militar e engenheiro venezuelano. Foi governador do estado de Miranda, presidente interino da República após o golpe contra Chávez ter sido debelado, entre 13 e 14 de abril de 2002. Era um homem culto, sereno, corajoso. Um sucessor à altura...
Mas foi derrotado pela grandiloquência de Maduro.
Eu estava lá. Vi a história acontecer. Vi como aquele povo chorava pelas ruas pelo sequestro de seu presidente. Até que o mesmíssimo povo começou a se revoltar. Eles desceram dos "cerros" rumo ao Palácio de Miraflores, onde os golpistas estavam encastelados. Vieram a pé, de bicicleta, de cadeira-de-rodas. Vieram com o livreto portátil da constituição na mão. Cercaram Miraflores e os golpistas, apavorados, renderam-se de forma patética e humilhante.
María Corina Machado estava entre eles.
Mas Maduro deu um golpe. O povo foi engabelado pela oposição golpista e pelo péssimo governo atual, conduzido por um truculento que está levando a Venezuela à ruína, e votou na oposição.
Se Diosdado Cabello fosse o presidente, nada disso estaria acontecendo.
Seja como for, equivoca-se quem acha que Maduro venceu e, portanto, não tem que dar satisfação a ninguém. Isso só acontece em ditaduras. Nas democracias, todos os candidatos derrotados têm direito a exigir a recontagem dos votos.
Foi assim em 2014, no Brasil. Aécio Neves perdeu de Dilma Rousseff por muito pouco, pediu anulação da eleição, o TSE recontou cada voto e ele teve que se resignar. Anos mais tarde, reconheceu que denunciou a vitória da adversária só pra "encher o saco".
Não importa. Os venezuelanos inocentes ou estúpidos ou vis que votaram no fantoche de María Corina Machado têm tantos direitos quanto os convictos eleitores bolivarianos que permanecem ao lado de maduro. Dizer aos eleitores da oposição que não têm direito de questionar e prender os que agem mal e os que não agem indiscriminadamente é coisa de ditadura.
Sei que expor minha opinião, que reputo fortemente fundamentada, pode me acarretar muitos ataques, mas não posso engolir uma verdade que sei que se não for dita poderá gerar efeitos análogos aos de junho de 2013, lá na frente. Então, pelo meu país, pelas minhas cinco netas, exijo que Nicolás Maduro entregue as drogas dos boletins de urna da eleição que alega ter vencido.
¡ Viva la revolución bolivariana!
¡ Viva la democracia venezolana"
¡Viva Chávez!
PS: em 2013, além do Blog da Cidadania só Leonardo Attuch e o Brasil 247 me deram espaço para tentar alertar o país do que sobreviria.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
