2019 – Os Direitos Humanos e o Medo da Morte

Recebi muito mais do que dei, essa é a certeza, que chego, nesses últimos respiros de 2019, espero que 2020 seja ainda melhor, mais lutas e mais união

Manifestação de centrais sindicais contra mudança do sistema de Previdência na Av. Paulista.
Manifestação de centrais sindicais contra mudança do sistema de Previdência na Av. Paulista. (Foto: Ricardo Stuckert)
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Amanhã, mesmo que uns não queiram

Será de outros que esperam 

Ver o dia raiar 

Amanhã ódios aplacados

Temores abrandados 

Será pleno, será pleno 

(Amanhã – Guilherme Arantes)

2019 – Pode ser resumido em mim no seguinte: O ano que perdi o medo da Morte.

Minha filha, Letícia, tinha pavor de conversas em que se falava sobre morte, fim do mundo, era um medo genuíno sobre o fim, de certa forma, parecia-se comigo, em tantas coisas.

Ora, em 18 novembro de 2018, não apenas ela se foi, como também meu medo da Morte, esse receio tolo de que ficaremos para sempre aqui, ou que o tema nos pressiona a nos provocar aflições.

Dias antes, o Brasil tinha descido ao inferno, as eleições de 2018, colocaram o país no abismo total, eleito o que havia de pior, o pior dos piores, muitas vezes penso como fomos capazes de sermos tão cruéis e vis.

Tudo o que poderia ser mais desumano, contra a humanidade, se fez governo, não apenas mediocridade individual de Bolsonaro, mas o conjunto de bizarrices que trouxe consigo, de Moro à Damares, passando por Araújo e tantos outros, como toda a primeira família.

Contraditoriamente, dias depois da partida da Letícia, vencemos as eleições da OAB/SP, o que abriu uma possibilidade de atuação política, frente ao caos que se avizinhava, não era uma fuga da realidade cruel em que me encontrava, mas uma forma de sobreviver e fazer alguma coisa em nome da vida, dos direitos humanos e valores que ainda carregava desde muito jovem.

A ida para Comissão de Direitos Humanos parecia uma questão natural, pois ali, pensava, se concentraria o embate fundamental entre Civilização x Barbárie.

É fato que a Comissão de Direito Humanos da OAB/SP estava completamente destruída, sem ação alguma por vários anos, o que transformava o desafio maior, ao mesmo tempo que, qualquer ação, já seria um ganho, diante da terra arrasada. O cenário nacional era propício à atuação séria e militante, pois dos Direitos Humanos são um dos pontos de ódio do presidente e sua turma.

A minha disposição pessoal era ajudar no que fosse preciso, nenhuma experiência anterior de atuação na OAB, nem diretamente com Direitos Humanos, o que fosse fazer, tinha que ser algo novo para mim, tudo era começo, mesmo com as urgências que se avizinhavam, de cara uma responsabilidade ser um dos coordenadores do Núcleo de Ações Emergenciais e de Defesa dos Direitos Ameaçados, seja lá o que isso significasse.

Desde a primeira reunião geral, fomos nos organizando, e buscando atuar, nos inserir nessas realidades. O acompanhamento de manifestações, os crachás de Direitos Humanos, refrear o pendor militante e entender o papel de observadores institucionais, não podendo ser confundidos com as pautas e as reivindicações, justas, como educação, por exemplo.

Essa era uma parte mais simples para mim, o que passou a ser novo e efetivamente diferente para minha vida foi ir às comunidades, Heliópolis, Paraisópolis, Cracolândia, Cidade Ademar, Suzano, Peruíbe, Santo André, Favela do Cimento, Delegacias, tantos DPs, os sem tetos na Sé, vida real, gente que realmente sofre e morre, por nenhuma razão, os “riscos” que tanto tememos na segurança de nossas casas e apartamentos de classe média.

Bem direto, tudo que fiz, que ajudei a construir nesse abo, fez um bem danado para minha vida, nenhum desejo pessoal de protagonismo, holofotes, apenas o desejo de viver, de retribuir à vida o que recebi, sem medo de locais ou de pessoas, situações, bombas de gás lacrimogêneo, nada. As amizades, o carinho mútuo, o crescimento coletivo de uma ideia.

Recebi muito mais do que dei, essa é a certeza, que chego, nesses últimos respiros de 2019, espero que 2020 seja ainda melhor, mais lutas e mais união, divisão de tarefas e alternativas de sobrevivências de cada um, inclusive, financeira.

Há Braços.

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