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Francisco Calmon

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Membro da Frente Brasil Popular do ES

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2026: democracia e capitalismo

Uma reflexão crítica sobre a incompatibilidade estrutural entre democracia e capitalismo e a necessidade de organização popular para enfrentar o sistema

2026: democracia e capitalismo (Foto: Reprodução)

A democracia contemporânea não atravessa uma simples crise conjuntural. Sua instabilidade recorrente não deriva de falhas ocasionais de funcionamento, mas de uma contradição estrutural mais profunda: a incompatibilidade entre democracia e capitalismo. Trata-se de projetos antagônicos, sustentados por fundamentos distintos e, em última instância, inconciliáveis; capitalismo e democracia constituem uma contradição epistemológica, conceitual e prática.

O capitalismo se organiza a partir da expropriação sistemática do trabalho. Sua dinâmica central repousa na extração da mais-valia, na concentração de riqueza e poder em poucas mãos e na subordinação da vida social à lógica do lucro e de sua maximização.

Essa dinâmica assemelha-se à alegoria de um burro perseguindo uma cenoura inalcançável: a busca pela cenourinha prostra o animal; a perseguição pelo lucro máximo exaure o sistema até o seu colapso, resultando nas crises cíclicas em que o capital se prostra por exaustão.

Esse sistema não nasce do consenso, mas da violência. Sua origem está associada a processos históricos de pilhagem, espoliação de terras, destruição de formas comunitárias de vida e separação dos trabalhadores, inicialmente da terra e depois dos meios de produção. A chamada acumulação primitiva não foi um momento pacífico do passado, mas um processo violento que funda e reorganiza as relações sociais, criando classes, produzindo mais desigualdades e transformando a força de trabalho em mercadoria enquanto útil.

O capitalismo se atualiza, mas preserva suas propriedades fundamentais: a expropriação, a concentração de renda e a violência estrutural. Por isso, mesmo quando assume formas aparentemente reguladas ou mitigadas, mantém-se incompatível com qualquer projeto de democracia plena.

A democracia, por sua vez, pressupõe ampliação de direitos, participação política ativa, distribuição de renda e reconhecimento da pluralidade social.

Enquanto o capitalismo é excludente, a democracia é includente. Enquanto o capitalismo concentra riqueza, a democracia preconiza sua redistribuição. Enquanto a democracia se sustenta na dialógica e na mediação entre os diferentes, o capitalismo recorre à coerção — econômica, política ou simbólica — para garantir a dominação de uma classe sobre as demais.

Não é casual, portanto, que as democracias subordinadas ao capital entrem em crise a cada abalo econômico.

Democracia a serviço do capitalismo vive sob instabilidade permanente: ora comprimida, ora suspensa, ora esvaziada. Democracia sem povo é democracia sem legitimidade; é uma democracia oca, formal, incapaz de enfrentar as desigualdades que ela mesma deveria combater. É como um templo sem fiéis.

Em qualquer sociedade capitalista, o Estado burguês cumpre a função de garantir os interesses da classe proprietária dos meios de produção. Ainda que revestido de linguagem institucional e legalidade, trata-se de um Estado orientado pela lógica da plutocracia.

Nesse sentido, o Estado capitalista opera como um mecanismo de contenção das demandas populares, enquanto o Estado democrático, em sua concepção substantiva, deveria ser instrumento de emancipação, participação e empoderamento dos trabalhadores por meio da luta política e social.

A experiência das democracias centrais do capitalismo evidencia esses limites. O sistema político da Inglaterra, berço do capitalismo e do imperialismo, pode ser definido como uma monarquia democrática, plena ou apenas relativa? Os Estados Unidos, com apenas dois partidos se revezando no poder, realmente espelham a diversidade político-ideológica da sociedade ou expressam uma democracia restrita, funcional à reprodução do capital? Essas experiências indicam que, sob o capitalismo, a democracia tende a ser parcial, condicionada e limitada.

Mesmo as experiências de capitalismo de bem-estar social não escapam a essa tensão. Elas pressupõem um Estado robusto e não autoritário para regular a economia e promover alguma redistribuição de renda. Já o capitalismo selvagem, de feição fascista, exige ditaduras ferozes para intensificar a concentração de riqueza e maximizar os lucros, independentemente das consequências sociais. Em ambos os casos, a democracia permanece subordinada aos limites e oscilações do capital.

A pandemia escancarou, de maneira brutal, outro limite incontornável do capitalismo: ele não garante a vida. Ainda assim, parte significativa da esquerda insiste na ilusão de um capitalismo humanizado, atribuindo suas falhas apenas à correlação de forças e recusando enfrentar a necessidade histórica da transformação estrutural e, para tanto, travando a luta ideológica.

A contradição entre democracia e capitalismo pode coexistir por um longo tempo, mas não indefinidamente. Em determinado estágio, torna-se antagonismo aberto.

O dia em que a democracia for universal, substantiva e plena será o dia em que o capitalismo terá deixado de existir.

Até lá, a defesa da democracia exige mais do que resistência institucional: exige organização popular, consciência de classe e disposição para enfrentar os limites estruturais do sistema.

Isso não deve ser ocasional nem darmos por satisfeito quando parcelas da sociedade vão às ruas manifestar suas demandas; temos que alcançar o modo protagonista de ser continuamente, sem nos deixar usar pelos que estão nos poderes institucionais.

Recentemente, a sociedade organizada foi às ruas contra o Congresso inimigo do povo, contra a dosimetria e a anistia. Entretanto, em vez de suas vozes servirem para empoderar o governo e os políticos contrários a esta pauta da extrema-direita, o que ocorreu foi uma negociação estranha, e a dosimetria passou e ainda servirá, ao que parece, para que, demagogicamente, o presidente vete, sem consequência de reversão. Ou não?

Democracia e capitalismo são projetos opostos. Reconhecer esta incompatibilidade não é exercício teórico, abstrato, mas condição político-ideológica para o exercício da luta dos contrários.

Não existe democracia plena em um sistema fundado na desigualdade, na expropriação e na violência. Defender a democracia, em seu sentido radical, implica atingir o problema na raiz e enfrentar o capitalismo de forma direta.

Não serão as crises cíclicas do capitalismo que o levarão à própria superação. Em muitas crises, analistas afoitos previram o seu fim; porém, não só isso não ocorreu como se demonstrou que ele tem mais vidas do que as sete do gato.

A resiliência e a capacidade de se reorganizar evidenciam que não será pela via econômica a sua superação; não será pelas revoluções sociais desconectadas do eixo da revolução política.

As revoluções sociais podem até levar a um capitalismo de bem-estar social; contudo, sem correspondente empoderamento popular do Estado, viverão debaixo de um fio de alta tensão e altamente dependentes de uma burguesia com consciência de que mais vale ceder os anéis do que ceder as mãos que seguram as rédeas do poder estatal.

No Brasil, a burguesia não tem nem consciência social nem nacional, não tem projeto; segue as ondas que surgem por fatores exógenos e, algumas vezes, por movimentos internos de alcance estratégico, como foi na época anterior ao golpe de 64 e, de maneira mais tática, no governo Dilma, com a incipiente justiça de transição e o passo ousado da Comissão Nacional da Verdade, ainda que muito limitada.

Com Lula 1, 2 ou 3, não houve projeto de nação!

O reformismo prega a revolução social divorciada da revolução política, no fundo um discurso pelego. Atualmente, muitos outrora revolucionários são pelegos institucionais.

O dever do revolucionário, em qualquer época, é pregar a revolução. O como produzir as condições favoráveis é o trabalho sistemático de FORMAÇÃO, ORGANIZAÇÃO E PARTICIPAÇÃO — FOP.

Travar a luta ideológica denunciando o capitalismo e indicando o socialismo como alternativa é tarefa contínua e requer meios de comunicação basilares.

Pregar a necessidade histórica da revolução não é para quando as condições objetivas e subjetivas forem favoráveis, mas para criar essas condições por meio da sistemática da FOP.

Podemos estar vivendo o limiar de uma alteração estrutural do sistema internacional dominante, com a experiência do socialismo transicional chinês e a decadência do imperialismo estadunidense; todavia, ainda é cedo para confirmar isso como expectativa alvissareira deste século XXI.

O ano de 2026 deveria ser um ano internacional como foi 1968; porém, não será: não há juventude rebelde, não há líderes revolucionários, o socialismo não está no horizonte, nem mesmo nos programas dos partidos que carregam o nome socialismo.

A contradição principal na atualidade é a defesa da democracia ocidental versus o neonazifascismo, aqui e alhures.

Ter a consciência do nós contra eles, o sentimento patriótico da defesa da soberania, são as diretivas de ordem para a instável conjuntura.

Votos de renovadas energias para que o ano de 2026 seja o da ousadia para vencer.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.