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Elisabeth Lopes

Advogada, especializada em Direito do Trabalho, pedagoga e Doutora em Educação

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2026: quando a escolha deixa de ser difícil

Não se trata de uma disputa convencional, mas de uma escolha substantiva entre modelos distintos de país

Lula e Flávio Bolsonaro (Foto: Ricardo Stuckert/PR I Divulgação)

O cenário político brasileiro volta a se organizar sob tensões conhecidas, mas não menos decisivas, ao reeditar um ponto crítico de sua trajetória e recolocar em confronto projetos antagônicos de nação, em meio a interesses econômicos, disputas narrativas e estratégias díspares de poder.

Os números mais recentes das pesquisas de intenção de voto, divulgados por institutos, como o da Quaest, não apenas confirmam a polarização eleitoral, eles evidenciam a repetição de uma encruzilhada histórica para o Brasil, semelhante à de 2018, quando se confrontaram o ex ministro Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, então deputado federal.

Naquela disputa, de um lado, o então ex-ministro Fernando Haddad, cuja trajetória administrativa refletia experiência e formulação de políticas públicas estruturantes. À frente da Prefeitura de São Paulo (2013–2016), sua gestão foi reconhecida por iniciativas voltadas à mobilidade urbana, à segurança viária e à inclusão social. Durante seu mandato, foram implantadas extensas redes de ciclovias e faixas exclusivas de ônibus, o que contribuiu para melhorar o transporte público e incentivar meios de locomoção mais sustentáveis. Além disso, políticas de redução de velocidade ajudaram a diminuir significativamente o número de mortes no trânsito. Na área da educação, houve ampliação do acesso a creches e criação de iniciativas como a universidade municipal. Seu governo também ficou marcado pela aprovação de um novo Plano Diretor Estratégico, voltado ao desenvolvimento urbano mais equilibrado, e recebeu reconhecimento internacional por suas políticas inovadoras. Como ministro da Educação (2005 – 2012), Haddad liderou a expansão de universidades federais, institutos federais e programas de inclusão como o ProUni e o Fies, ampliando significativamente o acesso ao ensino superior no país.

Por outro lado, Jair Bolsonaro, parlamentar de longa trajetória no Congresso, teve sua carreira marcada por baixa produtividade legislativa, com a aprovação de apenas dois projetos. Sua atuação política frequentemente se associou a pautas corporativistas e a declarações polêmicas, sem a correspondente elaboração de políticas públicas consistentes. 

Nessa conjuntura, a eleição de 2018 não pode ser compreendida sem a consideração de um ambiente de intensa rejeição ao PT, amplificado pela ampla repercussão da controversa Operação Lava Jato, marcada por diversos questionamentos jurídicos e institucionais. Nessa dinâmica, a atuação do então juiz Sergio Moro, posteriormente declarado suspeito, em articulação com o ex-procurador Deltan Dallagnol, contribuiu para a condenação e prisão do presidente Lula, posteriormente anuladas por ausência de provas e irregularidades processuais. À luz desse quadro somou-se uma cobertura midiática frequentemente distorcida, aliada à disseminação de campanhas de desinformação, fatores que influenciaram de maneira decisiva a percepção pública naquele período.

No cenário que se desenha para 2026, voltam a se confrontar projetos antagônicos de país, a exemplo do que ocorreu em 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva teve como principal adversário Jair Bolsonaro. Nesse novo ciclo, a eventual candidatura de Flávio Bolsonaro se insere como continuidade direta desse campo político: a exemplo de seu pai, tem sido marcada por declarações alinhadas ao ideário da extrema direita, pela defesa de uma agenda econômica de viés ultraliberal e por uma trajetória indissociável do bolsonarismo. Trata-se de uma corrente que se notabilizou por ataques recorrentes às instituições, pelo tensionamento do Estado de Direito e por um alinhamento automático aos interesses dos Estados Unidos, em detrimento de uma política externa orientada pela soberania nacional. Esse posicionamento contrasta, ao menos no plano discursivo, com outras candidaturas da direita que procuram se apresentar como alternativas mais moderadas.

Nessa materialidade, diante da fragilidade de nomes de centro, parte das elites políticas e econômicas passa a considerar figuras da direita tradicional como alternativa ao bolsonarismo mais radical, ainda que compartilhem bases ideológicas semelhantes. É nesse movimento que se insere a indicação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, articulada por Gilberto Kassab no âmbito do PSD, em detrimento de nomes como Eduardo Leite e após a desistência de Ratinho Junior, anteriormente visto como opção mais próxima de uma terceira via.

A estratégia de Kassab, contudo, ultrapassa a disputa presidencial. Seu cálculo político está centrado na formação de uma bancada robusta no Congresso Nacional, ampliando o acesso ao fundo partidário e eleitoral e garantindo maior poder de barganha institucional. Trata-se de uma lógica de ocupação pragmática do poder, na qual, independentemente do vencedor, seja Lula ou um candidato da direita, o partido busca se consolidar como força decisiva na governabilidade. Nesse ambiente, Caiado adota um reposicionamento discursivo, procurando se apresentar como moderado e conciliador. No entanto, suas próprias declarações tensionam essa construção, ao assumir um tom de enfrentamento típico da retórica polarizada e ao acenar à base bolsonarista com a defesa de uma anistia ampla e irrestrita a Jair Bolsonaro e aos condenados por tentativa de ruptura do Estado de direito, revelando a proximidade ideológica com o núcleo duro da extrema direita.

Não se trata, portanto, de uma disputa convencional, mas de uma escolha substantiva entre modelos distintos de país. De um lado, um projeto orientado à inclusão social, à autonomia nacional e à estabilidade institucional, de outro, uma proposta que naturaliza práticas de submissão externa, tensionamento democrático e aprofundamento das desigualdades.

Em artigo anterior, destaquei o papel recorrente da mídia corporativa com ênfase no Grupo Globo, na construção de narrativas que historicamente tendem a favorecer interesses das elites econômicas. Essa dinâmica permanece ativa diante da perspectiva de reeleição do governo Lula. À vista desse quadro, setores do mercado financeiro, especialmente vinculados à Faria Lima, reiteram resistência a políticas de redistribuição de renda, valorização do salário mínimo e fortalecimento do papel do Estado, medidas que, segundo dados amplamente divulgados, vêm contribuindo para a redução das desigualdades e para a retomada do crescimento econômico. Essa convergência de interesses ajuda a explicar a persistência de narrativas que tensionam ou relativizam tais avanços no debate público.

Simultaneamente, a mídia tradicional passou a recalibrar sua abordagem ao se deparar com a exposição mais explícita das posições de Flávio Bolsonaro durante a Conservative Political Action Conference, realizada no Texas em 28 de março, passou a recalibrar sua narrativa, ainda que sem conferir ao episódio o devido destaque em seus programas jornalísticos. Na ocasião, o senador apelou abertamente para que governos estrangeiros acompanhem e exerçam pressão sobre o processo eleitoral brasileiro, uma declaração de elevada gravidade sob a ótica da soberania nacional. No mesmo discurso, reiterou acusações infundadas sobre interferência externa nas eleições de 2022 e insinuou, sem qualquer comprovação, vínculos do atual governo com organizações criminosas. Reportagem do The New York Times revelou, ainda, articulações de aliados bolsonaristas junto a setores políticos dos Estados Unidos para classificar facções brasileiras como organizações terroristas, evidenciando um movimento de internacionalização da pauta de segurança pública. Adiciona-se a isso o aceno do senador à possibilidade de alinhar riquezas estratégicas brasileiras, como minerais críticos e terras raras a interesses de potências estrangeiras, especialmente dos Estados Unidos, em um eventual governo bolsonarista, o que explicita um projeto de inserção internacional subordinada. Apesar da relevância desses elementos, sua cobertura nos grandes veículos foi, em grande medida, tímida ou marginal, contrastando com a ampla repercussão nas redes e na imprensa internacional.

Até então, parte da mídia ensaiava apresentá-lo como uma alternativa mais moderada no interior do bolsonarismo. No entanto, o teor de suas declarações gerou forte repercussão negativa e expôs a fragilidade dessa construção. Diante disso, segmentos da mídia passaram a buscar, ainda que de forma difusa, alternativas eleitorais consideradas mais palatáveis, em uma tentativa de reorganizar o campo da direita e conter tanto o radicalismo bolsonarista quanto a consolidação do projeto liderado por Lula.

Evidencia-se, assim, o caráter seletivo da cobertura midiática. Enquanto episódios sensíveis envolvendo a oposição recebem tratamento discreto, intensificam-se críticas ao atual governo, frequentemente dissociadas de indicadores econômicos e sociais positivos recentes. Análises invertidas sobre a realidade, como de “cansaço” ou “falta de inovação” ao referir a trajetória do terceiro mandato do presidente Lula, emitidas em alto e bom som nos programas da Globo News, coexistem com esforços para suavizar vínculos políticos e reconfigurar percepções públicas.

Nesse horizonte, a eleição que se aproxima vai além da escolha de lideranças e assume o caráter de decisão histórica sobre os rumos do país. Num polo, afirma-se um projeto que busca combinar crescimento econômico com inclusão social e fortalecimento institucional, em outro, rearticulam-se forças comprometidas com a preservação de estruturas desiguais e com uma inserção internacional subordinada. Entre planos de governo díspares em disputa e reposicionamentos estratégicos, caberá à sociedade brasileira não apenas votar, mas interpretar criticamente os interesses em jogo e os caminhos que deles decorrem.

Dessa vez, contudo, a encruzilhada não se apresenta como uma escolha difícil, como maliciosamente já sugeriu o jornal de linha editorial alinhada à direita liberal, O Estado de São Paulo (Estadão), ao classificar as eleições de 2018 como “uma escolha muito difícil”, mesmo diante de um cenário em que se confrontavam, de um lado, um candidato de trajetória golpista e apologista da ditadura militar e, de outro, um professor progressista, democrata, de conduta ilibada e reconhecida capacidade de articulação política, como Fernando Haddad. O que agora se coloca é algo mais nítido: de um lado, um projeto orientado a tudo para o povo, de outro, o neoliberalismo na veia, estruturalmente voltado contra o povo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.