3 dias de uma experiência fracassada!

Nos últimos tempos muito se ouviu falar sobre a volta às aulas de forma presencial. “Sim, é possível, basta seguirmos todos os protocolos”, dizem os governantes. Então, resolvi escrever sobre uma experiência feita em um município da região que vislumbrou uma tentativa de retorno presencial.

(Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)
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Nos últimos tempos muito se ouviu falar sobre a volta às aulas de forma presencial. “Sim, é possível, basta seguirmos todos os protocolos”, dizem os governantes. Então, resolvi escrever sobre uma experiência feita em um município da região que vislumbrou uma tentativa de retorno presencial. 

Comecemos pelos alunos mais “velhos”, os que estudam nos anos finais do Ensino Fundamental (vale também para o Ensino Médio). Eles chegam até a frente da escola em “bando”, reunidos em grupos de não menos que 5 pessoas, alguns abraçados, outros de mãos dadas, uns com as mochilas dos outros, e por aí vai. Todos sem máscara (afinal para eles a máscara deve ser usada na escola, no caminho até a escola “somos livres”, pensam eles). 

Ao chegar na escola, recebidos pelos professores e professoras que exigem que as máscaras sejam colocadas corretamente, começa o embate. “Cadê a minha máscara? Eu te mostrei ela, onde tu colocou?” “Bah, não sei cara! Ah, está aqui!” –  retira-a do bolso e entrega para o colega, verdadeiro dono da dita máscara. 

Vinte minutos depois o nariz está de fora da máscara, a máscara está no queixo ou em cima da mesa. Lá vai o professor e a professora pedirem para que a máscara volte ao seu lugar correto. 

Distanciamento de um metro e meio (imaginem vocês se funciona!). E quando funciona, é apenas dentro da sala de aula, passou do portão para fora recomeça a aglomeração tal qual no caminho de vinda para a escola.

Passemos aos pequenos, das séries iniciais. Esses costumam ser trazidos até a escola pelos pais. Chegam de máscaras. Três minutos depois a máscara, literalmente, foi mascada até encharcar de saliva. O professor ou a professora dão ao aluno uma nova máscara. Quinze minutos depois a máscara atual está mais cheia de baba que a anterior.

Distanciamento entre alunos e entre professores. Me digam se vocês acreditam que alunos e alunas das séries iniciais, que passaram praticamente um ano sem ver seus professores e professoras, não correrão igual malucos para lhes dar um abraço? Todos, mesmo os que não tem filhos, conhecem alguma criança e sabem que criança parada é criança doente. Então, questiono mais uma vez: Vocês acreditam que crianças saudáveis e cheias de vida e energia permanecerão horas dentro de um quadrado delimitado como seu espaço? Que não dividirão brinquedos? Que não tocarão em nada que os demais colegas tocaram? Que não se aproximarão da professora ou do professor para retirar uma dúvida sobre a atividade que estão realizando?

Então, grandes ou pequenos, as experiências mostram que os “protocolos” não funcionam na prática. 

E aí eu ouço uma reportagem da TV aberta falando sobre a necessidade do retorno às aulas presenciais, pois os pais e responsáveis não estão tendo com quem deixar as crianças e adolescentes. 

Gostaria de refletir sobre “de quem é a responsabilidade pelos filhos e filhas que temos?” 

Nossa! Sim, nossa. E só nossa! Não dos professores e professoras! E nem de mais ninguém. 

Acho que isso todos já sabem, mas me parece importante ressaltar; me parece importante que repitamos pela milésima vez que a responsabilidade pelas crianças e adolescentes é dos pais e responsáveis. Que a escola não é feita de babás e não é um depósito para os filhos serem deixados enquanto vamos ao trabalho. 

Escola é lugar de construir conhecimento e os professores e professoras são os mediadores nesse percurso, mas não são, e nem serão, responsáveis por cuidar dos filhos e filhas alheios. Parece duro, entretanto, é preciso relembrar isso aos pais e responsáveis que pedem a volta às aulas de forma presencial usando esta justificativa. Saibam que seus filhos e filhas não seguem protocolos!

Certamente muitas vezes o único contato verdadeiramente humano e afetivo que os estudantes têm em sua infância e juventude são os que eles têm com os professores e professoras. Me arrisco a dizer que, muitas vezes, o único abraço que recebem é do professor ou da professora. Às vezes, o único momento em que se encontram em um ambiente sem violência e agressividade é o momento em que estão na escola. Não raras vezes, a escola se torna o local onde os estudantes se sentem amados. 

Os professores e professoras têm consciência dessa realidade (que não está vinculada à classe social dos estudantes, ou seja, não importa a renda familiar, há casos desses na periferia e nos condomínios de luxo, na escola pública e na escola particular). 

E porque estou falando dessas várias coisas ao mesmo tempo?

Para que se entenda que há sim muita amorosidade no trabalho docente e que a escola é realmente um local de trocas afetivas, entretanto, uma coisa não justifica a outra. Não é porque o professor e a professora tratam os filhos e filhas alheios como se fossem seus, que sejam responsáveis por eles. Não é porque a escola é um espaço de amorosidade que deva ser o único espaço para tal. Professores e professoras certamente amam e querem bem seus estudantes, mas não são seus pais, nem babás, e nem devem assumir essa responsabilidade. Porque essa responsabilidade é da família. Não são poucos os professores e professoras que além de estarem dando aulas remotas, estão com seus filhos e filhas em casa estudando online. Os professores e professoras também não tem com quem deixar seus filhos e filhas. 

Mas aí, para fugir de uma responsabilidade que é dos pais, querer colocar as vidas de seus filhos e filhas, professores e professoras, funcionários de escolas em risco? Pressão por vacinação para os trabalhadores e trabalhadoras em educação e segurança sanitária podem ter mais efeito. Porque vidas perdidas não voltam. Nem as dos trabalhadores e trabalhadoras da educação, nem a dos filhos e filhas, e nem a dos pais que podem ser contaminados através destes. 

É preciso repensar com realismo, porque a experiência já mostrou que a prática difere em muito da teoria!

#VacinaJá 

#EscolasFechadasVidasPreservadas

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