5 de Outubro: 120 anos entre Canudos e a Rocinha

O arraial de Canudos foi descrito no início da "república brasileira" como a Vendéia nacional em alusão aos resistentes franceses contra a revolução francesa. O arraial na realidade contrariava os interesses do clero, dos latifundiários da região na experiência "republicana brasileira" que historicamente anda longe da cidadania e da democracia

O arraial de Canudos foi descrito no início da "república brasileira" como a Vendéia nacional em alusão aos resistentes franceses contra a revolução francesa. O arraial na realidade contrariava os interesses do clero, dos latifundiários da região na experiência "republicana brasileira" que historicamente anda longe da cidadania e da democracia
O arraial de Canudos foi descrito no início da "república brasileira" como a Vendéia nacional em alusão aos resistentes franceses contra a revolução francesa. O arraial na realidade contrariava os interesses do clero, dos latifundiários da região na experiência "republicana brasileira" que historicamente anda longe da cidadania e da democracia (Foto: Epaminondas Bittencourt)

No entardecer do dia 5 de Outubro de 1897, cento e vinte anos atrás, finalmente caiu o arraial de Canudos no sertão baiano perante as tropas da "república brasileira" instalada oito anos antes na simbólica "ordem e progresso". No clássico da literatura brasileira e mundial Os Sertões Euclides da Cunha relatou os acontecimentos naqueles últimos dias: "[...] A noite do dia 2 entrou sulcada de tiroteios de tiroteios vivos. A luta que viera perdendo dia a dia o caráter militar, degenerou ao cabo inteiramente. Foram os últimos traços de um formalismo inútil... Os mesmos toques de cornetas e por fim a própria hierarquia já materialmente extinta num exército sem distintivos e sem fardas... Canudos não se rendeu, exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo. Expurgado palmo a palmo, na precisão do termo, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados... Ademais não desafiará a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares abraçadas aos filhos pequeninos? E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã do dia 3 os prisioneiros válidos colhidos na véspera"?

Era a quarta expedição "do exército e das tropas republicanas" com oito mil homens recrutados em todo o território nacional em um país mobilizado para derrotar um arraial com cinco mil casebres miseráveis, vinte mil homens, mulheres e crianças que tinham derrotado o exército brasileiro nas três expedições anteriores na caatinga do sertão. O jornal Estado de São Paulo inovou ao enviar o engenheiro, militar, republicano Euclides da Cunha como correspondente do jornal na zona de conflito. A ida de Euclides resultou na aclamada obra Os Sertões. A última expedição necessitava recuperar ainda o abalado prestígio do exército brasileiro derrotado em três expedições nas quais morreram vários oficiais, militares dentre os quais o coronel Moreira César que era um símbolo da instituição militar. A quarta expedição, comandada pelo ministro da Guerra marechal Bittencourt e pelo general Arthur Oscar, com toda a estrutura composta por canhões, dinamites, armamentos como Mauser, Mannlicher, Comblain que os sertanejos comandados por Antônio Conselheiro e os jagunços João Macambira, João Abade e Norberto nunca tinham visto. À parte o armamento o "diferencial republicano" foi a logística, com a compra de milhares de mulas por todo o território baiano para levar os suprimentos e o armamento pesado das tropas ao arraial de Canudos. O próprio Euclides destacou a estratégia do ministro da guerra: "mil burros mansos valiam mais na emergência que dez mil heróis na campanha dramática". Destaque também do húngaro Sandor Marai posteriormente: "enquanto o marechal vitorioso em um cortejo repleto de militares recebia e distribuía patentes no terreno da vitória os asnos e as mulas começaram a zurrar enfurecidos, já que esses animais irracionais eram os heróis da vitória". Seguindo a trilha de Euclides que publicou Os Sertões em 1902 afirmando que "o sertanejo é um forte" e que "toda aquela campanha precisava ser denunciada ao mundo" o escritor Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura, publicou A Guerra do Fim do Mundo para que o mundo tomasse conhecimento do inusitado primeiro conflito da "república brasileira", onde foi vendida para todo o país a ideia do "arraial insurgente de inspiração monarquista contra a república".

A postura de Euclides por intermédio de sua obra sobre o massacre significou uma ruptura com seu próprio posicionamento inicial sobre o conflito. Como positivista Euclides compreendia que os conflitos sociais deveriam ser resolvidos pela ciência, que, aliás, foi a justificativa para o envio da cabeça de Antônio Conselheiro para o médico Nina Rodrigues estudar, ancorado na frenologia e na craniologia, compreender "o desvio de um agitador mestiço contra a ordem social" ao final do conflito, já que a mestiçagem era o caminho para a degenerescência. Euclides terminou desencantado com "os rumos da república" depois de caracterizar a polarização entre a "civilização" e a "barbárie" na realidade nacional, preocupado com a difusão da violência no morro da Favela em Canudos onde imperava a degola e o fuzilamento para todo o país.

O progressivo convívio entre a "civilização" e a "barbárie" por todo o transcorrer da "república brasileira", como imaginava Euclides da Cunha, levanta algumas questões importantes: onde estão situadas a "civilização" e a "barbárie" cento e vinte anos depois? A "barbárie" está situada na Rocinha e nas diversas favelas espalhadas pelo país em grandes conflitos como os ocorridos no morro da Favela em Canudos? As duas estão situadas nas esquinas em uma convivência onde a "civilização" alimenta a "barbárie" no cotidiano em um dos países mais violentos do mundo? O Atlas da Violência, há pouco publicado, é um bom indicador ao demonstrar o crescimento da violência contra jovens negros, de baixa escolaridade e moradores da periferia em 17,2% durante dez anos, índios atacados a machadadas, turistas estrangeiros fuzilados e grandes prejuízos financeiros em decorrência da violência, US$ 76 bilhões em 2014, para repensar as políticas de segurança em direção as causas reais da violência crescente? Qual o destino de toda uma geração de jovens sem quaisquer perspectivas quanto ao presente e ao futuro situados notavelmente na periferia da sociedade brasileira?

O arraial de Canudos foi descrito no início da "república brasileira" como a Vendéia nacional em alusão aos resistentes franceses contra a revolução francesa. O arraial na realidade contrariava os interesses do clero, dos latifundiários da região na experiência "republicana brasileira" que historicamente anda longe da cidadania e da democracia. Canudos é hoje um pequeno local na caatinga na miséria absoluta em um país com uma enorme concentração de renda, sistema tributário que privilegia os impostos indiretos que penalizam os mais pobres, país no qual os direitos conquistados pela maioria da população nacional, a duras penas, são transformados em "muros erguidos contra o Estado". Canudos é um "crime imprescritível" pelo qual deve ser responsabilizado o Estado brasileiro pelo massacre lá cometido pelas "tropas republicanas". Qual é a Vendéia atual? É a Rocinha? Na atual mortandade em território nacional voltaremos a entregar as cabeças dos ditos agitadores, delinquentes sociais para serem estudadas no paradigma do evolucionismo para compreender seus comportamentos associados às suas origens?

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