5 razões para a (des)politização do vírus chinês

Nós, que nos acreditávamos evoluídos, somos obrigados a sustentar que o mundo não é plano. Em um mundo em que a razão foi demitida, a mínima ponderação torna-se desconfortável e pedante

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“A China fabricou a COVID-19 em laboratório e soltou no mundo...”. Esse é o norte que consome as mentes e almas em meio a uma pandemia que ameaça a humanidade à nível global.  Talvez aí esteja a riqueza pedagógica do absurdo que ora vivemos: a evidência de que ideias como democracia, livre-mercado, liberalismo, cooperação internacional, e evolução humana são ideias falsas e instrumentalizadas políticamente. 

Mesmo assim, nós, que nos acreditávamos evoluídos, somos obrigados a sustentar que o mundo não é plano. Em um mundo em que a razão foi demitida, a mínima ponderação torna-se desconfortável e pedante. A produção dos discursos que determinam nosso mundo, como apontou Bourdieu, investe não sobre imposição de uma (falsa) verdade, mas sobre as condições em que as verdades são ditas. 

Mas a China fabricou o vírus ou não? Essa é uma pergunta que não se reponde com “sim” ou “não”. Essa é uma pergunta que se responde com outra pergunta. Ou seja, que exige a reconstrução das condições em que se fará a reflexão. Os 5 pontos erguidos adiante buscam levantar essas condições.

1. Qual seria o interesse da China em fabricar o vírus? 

A China vinha crescendo ininterruptamente nos últimos 10 anos em taxas médias de 7%, muito acima das de qualquer outro país. Já no último trimestre de 2019 os Estados Unidos haviam apresentado um crescimento igual a zero, enquanto a China crescia 6,0%. Será o país que mais crescerá esse ano e, ao que tudo indica, será um dos únicos. Ao seu lado estão Vietnã e Laos, o que nos incita a problematizar os motivos desse crescimento – na contramão de todo o resto do mundo.

2. Quem acusa quem?

Quem acusa a China de ter criado o vírus? Esse é o caso em que o enunciado diz mais a respeito de sua posição de origem do que de seu destinatário. Os EUA são de longe os promotores desse discurso – podemos dizer – antichina. Apenas entre os dias 16 e 30 de março desse ano o presidente Trump utilizou mais de vinte vezes a expressão “chinese virus”, e mais recentemente teria usado a expressão “kung-flu”.Em seu esforço, os Estados Unidos tentam arrastar aqueles países sobre os quais estende seus tentáculos. Alguns desses encontram aí uma oportunidade para negociar os prós e contras de engrossar o ataque de pedras contra a China. É o caso da União Europeia. Outros, como o Brasil, estão a tal ponto dominados que se prontificam voluntariamente aos caprichos do Tio Sam. Aqui, o então Secretário de Direitos Humanos da Procuradoria-Geral da República, Ailton Benedito, teria divulgado mensagens com “viés discriminatório e xenófobo” aos 173 mil seguidores na rede social Twitter. Segundo o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), o Procurador usou várias vezes a expressão “vírus chinês” entre os dias 22 e 26 de março.

Ao lado das acusações de contaminação deliberada da China, abrem-se ações de cunho claramente comercial: o problema do 5G, os carros elétricos e as novas energias limpas às quais o país parece estar avançado, a tonificação de sua estrutura militar, sua capacidade produtiva que se eleva para os níveis médium e hitech, o modo suave em responder aos EUA e solidificar seus vínculos comerciais com parceiros promissores (notadamente no ultimo congresso da ONU), a nova rota da seda, e finalmente, o destaque na própria produção das vacinas, ao lado de Rússia, Cuba, EUA e Inglaterra. 

O interesse dos EUA em endereçar o ônus do vírus à China é cada vez mais claro. Sua hegemonia vem sendo ameaçada há algumas décadas, e eis que visualizamos seu ápice. A pandemia torna-se também uma oportunidade, com tons de desespero, de refreamento do poderio chinês. É de se perguntar se a manobra terá êxito.

O desespero já estava explícito no acordo que ficou estabelecido entre China e EUA no começo desse ano: de um lado os EUA exigiram que a China se comprometesse a aumentar suas compras de bens e serviços dos Estados Unidos no valor de US$ 200 bilhões em dois anos. Em troca, os Estados Unidos se comprometeram a reduzir algumas das tarifas impostas à China. Ou seja, se a China comprasse mais dos EUA os EUA a deixaria comprar mais e de forma comercialmente justa. Uma exposição difícil do ponto de vista estratégico: se por um lado os EUA ganham folego com a entrada de capital chinês, por outro assumem sua face dependente da fortuna chinesa e de país ultraprotecionista.

A pergunta é: e se fosse em outro país, inexpressivo ou não-ameaçador do ponto de vista geopolítico, haveria o mesmo interesse em investir nessa culpabilização? Ou se procederia como das outras vezes, no projeto de contenção reunida do avanço da doença?

3. Essa é a primeira pandemia? 

Uma rápida passada de olho pela cronologia das pandemias, assim como sobre as previsões mais rasteiras da comunidade científica, mostra que surtos pandêmicos sempre ameaçaram a comunidade humana e sempre ameaçarão. Como atestou um epidemiologista Nobel da medicina, a humanidade se originou de vírus e sucumbirá a eles. A afirmação ganha força profética.

Acusa-se a China de ter criado o vírus em laboratório e o soltado mundo afora. Uma gama de evidências demonstra que o vírus tem origem animal, assim como as dezenas de pandemias anteriores. Se a Covid atual surgiu na China, a “gripe espanhola” ou H1N1 surgiu nos Estados Unidos (1918-1919), a Ebola seria alemã, a Zica surgiu no Brasil, e a Influenza AH1N1 surgiu em 2009 nos Estados Unidos e foi responsável pela contaminação de 1,5 bilhao de pessoas e 150-500 mil mortes. Também chamada “gripe suína” devido a sua origem animal, a mudança de nome somente ocorreu porque houve uma enorme mobilização de produtores de carne suína – principalmente do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa – diante da queda vertiginosa do consumo daquela carne e de seus derivados que resultou do avanço mundial da doença.

Sabe-se que uma série de relatórios foram produzidos sobretudo a partir da experiência da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em 2002. Não foram poucos os alertas de que a doença voltaria. Planos pandêmicos ressaltando o caráter de urgência de preparo dos sistemas de saúde foram escritos e reescritos pela OMS desde então. Na Itália, por exemplo, foi elaborado um relatório em 2006 por especialistas com o nome de “Plano Nacional de Preparação e Resposta a uma Pandemia de Influenza”, com 75 paginas listando detalhadamente as ações-chave a serem executadas nas diferentes fases  da pandemia. O plano acabou na gaveta.

De todo modo, já em 5 de janeiro de 2020 a OMS difundiu seu primeiro boletim de alerta sobre uma pneumonia de “origem desconhecida”, identificada pela China em 31 de dezembro de 2019! A essa época a doença contava 44 casos, sendo 11 deles graves, todos detectados na cidade de Wuhan, na província de Hubei, envolvendo comerciantes de um mercado de animais vivos que já teria sido fechado.O que se passa, como bem afirmou Frank Snowden, epidemiologista de Yale, é que “a prevenção das pandemias não faz dinheiro; é por isso que ninguém a leva a sério”. Nesse mundo de cá onde o econômico tem a primazia sobre absolutamente tudo, o controle e antecipação à doença tem um custo, daí os programas de prevenção terem sido engavetados. Basta ver a quantia do PIB mundial é endereçado à maior agencia responsável pela gestão da saúde munidal, a OMS: são 0,003% do total de 85 trilhões de dólares do PIB mundial.

Portanto não é a primeira nem a última vez que teremos uma epidemia. O que a COVID-19 desvela não é a fragilidade humana frente a qualquer ameaça epidêmica que se sabe frequente e regular, mas a contradição desse sistema social com a resolução de problemas de saúde que exigem esforços monumentais, exatamente do mesmo porte daquele que fez do humano algo mais que um animal na luta de todos contra todos. 

No conflito entre o econômico e a saúde, a pergunta é sempre: quanto custa salvar as vidas? Vale a pena do ponto de vista econômico? Ou os custos de salvar é maior do que o benefício de deixar morrer, como bem resumiu um deputado na questão das barragens de brumandinho?

Em seus relatos, Bartolomé de Las Casas teria visto os “índios” dançando em torno de um montante de ouro. Inquieto, perguntou o que era: “o ouro é o deus dos brancos. Dançamos pra ele pra ver se acaba o nosso sofrimento”, responderam os nativos assustados na América recém invadida pelos europeus escorrendo sífilis, varíola e sarampo. 

4. Há diferença na gestão da crise?

A prova de que a China teria criado o vírus é o balanço positivo que o país terá esse ano. Seu crescimento seria a prova de que ela arquitetou esse contexto. Aqui se confunde a coisa da lógica com a lógica da coisa: a vantagem chinesa só se faz na comparação com outros países. Um olhar rápido e superficial sobre as medidas socioeconômicas da China em comparação com outros países serviria para o esclarecimento.

De saída, a China vive uma economia planificada (isso é assumido mesmo pelas instituições ocidentais), de alocação de recursos e contenção do livre delírio das classes financeiras. Lá é o Estado que toca a música pro mercado dançar (nos EUA isso também é verdade, com a diferença de que até pouco tempo era dissimulado pela propaganda esquizóide do neoliberalismo). Assim, já em dezembro, na iminência da deflagração da pandemia, Wuhan foi isolada e toda a China viveu um confinamento que aqui, no livre e pródigo ocidente, era acusado de totalitário ou coisa similar. Circulavam nas redes sociais imagens de drones identificando pessoas nas ruas e as mandando voltar pra casa. O governo chinês buscou compensar as principais atividades afetadas, e deslocar a energia produtiva para os menos afetados. Alguns meses depois a China parecia ter controlado a difusão do vírus. Deu-se início a partir de então a um programa de incentivo ao retorno da economia. 71 milhões de dólares foram emitidos e distribuídos em cupons de para os habitantes de Wuhan, por meio do WeChat e Alipay. Os cupons ficaram disponíveis por uma semana e persuadiram os residentes a voltar para a rua e gastá-los. O objetivo era produzir uma atmosfera de confiança e ensejar o aquecimento das atividades produtivas.  O êxito da medida pode ser visto na atual dinâmica de Wuhan.No Vietnã, país que cresce a taxas invejáveis de 6% de 2012, e com estrutura produtiva semelhante à do Brasil (também depende de exportações e produção agrícola), as medidas foram tão firmes quanto na China. Desde 1º de fevereiro suspendeu-se as atividades escolares e os voos, imputou-se a quarentena imediata e rigorosa, incrementou-se o número de médicos com a convocação dos profissionais aposentados, e intensificaram a produção de máscaras. Segundo a OMS, o governo do Vietnã, sem os meios necessários para realizar testes em massa, aplicou uma estratégia de “low cost” (baixo custo), isto é, priorizou o isolamento dos doentes e a localização das pessoas com as quais os infectados entraram em contato, direta ou indiretamente. Não à toa, o primeiro ministro Nguyn Xuân Phúc, qualificou os esforços do Vietnã como "ofensiva geral", referindo-se à ofensiva de Têt em 1968, em referência à campanha militar conjunta das Frente Nacional de Liberação do sul do Vietnã e do Exército Popular vietnamita durante a Guerra do Vietnã. Resultado: o Vietnã não contou nem uma morte relacionada ao Coronavírus e atualmente retoma suas atividades normais.

O que se viu na Europa e nos EUA (praticamente as únicas regiões noticiadas na grande imprensa), foi no máximo esboços desses movimentos, de qualquer modo sempre desmotivados desde a classe média - dependente do turismo e do setor de serviços -, até os grandes grupos financeiros que viam no confinamento a desaceleração da economia. Nos EUA, Trump assinou, com muita má vontade, um pacote de auxílios e estímulos ao à população: foram 1.200 dólares por adulto e 500 dólares por criança. No entanto, devido à fraqueza das demais medidas e do próprio retardo no reconhecimento da pandemia, não conseguiu cumprir com os demais benefícios.

O Brasil, com uma das maiores atividades agrícolas do mundo, setor pouco atingido pelo vírus devido a sua característica intrínseca de distanciamento, nem mesmo esse esboço de alocação de recursos e energia chegou a realizar. 

5. Negacionismo e delírio

Por fim, e de forma contundente, mesmo com os repetidos alertas da OMS e demais instituições, de dezembro a março, tanto os EUA como seus súditos, continuaram a ter uma posição de negação do vírus, ou quando muito de aceitação de uma “gripezinha” mediante a distorção lunática de sua profilaxia (Trump chegou a receitar a aplicação ou ingestão de desinfetante. Bolsonaro ergue uma caixa de cloroquina aos seus seguidores). Isso, por si só, bastaria para a compreender os diferenciais de resultados em meio à crise.

Trump arrisca tudo na loucura de sua retórica para emplacar sua reeleição. A manobra é velha e já devia ser conhecida, reaparece a cada eleição norte-americana: é preciso eleger um inimigo – seja “terroristas” ou “comunistas” -  para se autopropor como aquele que o derrotará. Restemos em guarda para ver o que se passa.

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