7 de Setembro: a República prostrada

"O jogo de Bolsonaro é um só: ou põe fogo no Brasil ou imola-se ateando fogo nas próprias vestes. O problema é que o golpismo de Bolsonaro não é levado a sério", avalia o cistista político Aldo Fornazieri

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(Foto: Alan Santos/PR)
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Por Aldo Fornazieri 

Bolsonaro deixou claro mais uma vez que não irá se deter. Ele não tem saída: ou o golpe ou a prisão.  A eleição já está praticamente perdida. Dificilmente irá para o segundo turno. Ele não tem saída política, eleitoral, econômica e social. Seu único trunfo consiste em radicalizar, incitar a desobediência e a violência, caminhar para o golpe. O golpe será tentado sem as Forças Armadas, mas com policiais, militares da reserva, milicianos, setores do agronegócio, do comércio etc. As Forças Armadas ficarão neutras. Obedecerão a quem vencer.  

Aliás, o recomendável é que as Forças Armadas fiquem de fora desse conflito todo. Não devem ser chamadas para proteger prédios. Deve-se exigir a neutralidade das mesmas. Elas não são juiz do conflito entre os poderes. Conflitos políticos devem ser resolvidos pelo Legislativo, pelo Executivo, pelo Judiciário e pelas ruas. Não cabe às Forças Armadas serem guardiãs da democracia e da Constituição. A democracia brasileira precisa dissipar a neblina e a ameaça das Forças Armadas que pairam sobre ela. Isto implica numa coisa só: o afastamento das Forças Armadas de qualquer conflito político e da participação política dos militares e o cumprimento de suas funções constitucionais.  

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Neste 7 de Setembro, Bolsonaro, com uma apoio social em declínio, mobilizou mais gente do que as esquerdas. Menos do que a expectativa criada, é verdade. Mas as mobilizações golpistas não foram desprezíveis. As esquerdas continuam mostrando que têm baixa capacidade de convocação. Não têm força organizada para resistir a um golpe de grupos bolsonaristas violentos e armados. As esquerdas continuam jogando quase paradas... esperando as eleições de 2022. Este caminho pode ser trágico.  

Muitos ativistas e simpatizantes das esquerdas não foram para os atos por medo. Não é para menos: políticos dos partidos de esquerda, analistas e sites passaram esses dois anos e meio do governo Bolsonaro exercendo a pedagogia do medo. Medo dos militares, do golpe etc. Mas golpe se enfrenta com força organizada, mobilização e coragem, e não com a disseminação do medo.

É preciso perceber que Bolsonaro conseguiu colocar a República de joelhos, paralisá-la e prostrá-la. Na atual correlação de forças, a crise política não tem saídas. Ou as esquerdas e os democratas redefinem suas táticas ou o desfecho dessa crise será imprevisível. É necessário um acordo entre as esquerdas e a centro-direita para remover Bolsonaro e, depois, que cada um siga seu caminho. O povo, a democracia e o Brasil estão acima dos cálculos eleitorais.  

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O beco sem saída para a crise política se resume nos seguintes pontos. Primeiro: a oposição de esquerda não tem força institucional e/ou de mobilização para provocar um desequilíbrio em favor do impeachment. Seria necessário dobrar Arthur Lira e reduzir o apoio de Bolsonaro na Câmara para menos de 172 deputados. Isto requer uma imensa capacidade de mobilização, uma pressão insuportável das ruas, e uma redução ainda maior do apoio a Bolsonaro. Lira tem a chave do cofre do Orçamento secreto e busca agregar ativos políticos e eleitorais com o mesmo.

Segundo: O STF continuará sendo atacado de forma violenta por Bolsonaro. Sua única capacidade de reação consiste nas prisões de bolsonaristas golpistas por Alexandre de Moraes. Para processar criminalmente Bolsonaro, o STF depende de superar duas barreiras: uma denúncia da PGR, que dificilmente ocorrerá e uma autorização de 2/3 da Câmara dos Deputados, que também dificilmente ocorrerá.  

Bolsonaro sabe disso e se sente livre para promover a incitação golpista e atacar o STF. As ações de Bolsonaro não podem ser calculadas e projetadas a partir da lógica normal e institucional do jogo político. Ele não considera a Constituição, as leis, as instituições, o jogo partidário e o sistema de mediações políticas e legais. A lógica dele é a lógica do crime contra a democracia. Quem pensar que Bolsonaro pode ter algum gesto de moderação ou negociação engana-se. Até pode fazer algum aceno, mas será para ganhar fôlego visando atacar novamente. Qualquer condescendência ou concessão a Bolsonaro favorecerá o caminho do golpe.

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O jogo de Bolsonaro é um só: ou põe fogo no Brasil ou imola-se ateando fogo nas próprias vestes. O problema é que o golpismo de Bolsonaro não é levado a sério. Os políticos não acreditam nos seus arroubos, esquecendo que os alucinados, os desequilibrados, os psicopatas são capazes de cometer os atos mais temerários possíveis. Em toda sua vida, Bolsonaro deixou claro sua vocação golpista. Não abandonará este desatino no momento em que ele e sua família correm perigo. Não abandonará esta vontade de violência e de morte agora quando ele controla o governo.  

 Bolsonaro não mede e não baliza suas ações pelo metro da democracia e da Constituição. Não calcula se uma ação ou discurso pode provocar um pedido de impeachment ou não. Afinal de contas, já são mais de cem pedidos. Ficar insistindo em que essa ou aquela ação pode provocar um pedido de impeachment é enxugar gelo. Pensar em manter Bolsonaro em banho-maria até o final de 2022, com desemprego, fome, inflação, crise hídrica, ameaça de recessão, degradação da democracia e das instituições consiste em deixar que o país mergulhe no caos e na desordem, ambiente que favorece o golpismo.  

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