8 de janeiro ainda carece lições
As lideranças vão orientar e fomentar a criação de muitos comitês de resistência e defesa da democracia e da soberania brasileira? Quando?
Em 8 de janeiro de 2026, o Brasil completou três anos do atentado bolsonarista ao Estado Democrático de Direito.
Estive, certamente como outros militantes estiveram em seus municípios, presente à manifestação que ocorreu em Vitória (ES), onde estou residindo. Assisti também a vídeos de manifestações em outros lugares.
O que mais me chamou a atenção foi a quantidade de manifestantes aquém da minha expectativa, pelo significado que teve aquela intentona terrorista à democracia. Outrossim, porque os discursos, em sua maioria, versaram sobre palavras de ordem tais como: “Vitória da democracia”; “a importância das eleições este ano para derrotar a extrema-direita”; “Sem anistia para golpistas”; “Pelo fim da escala 6x1”; “Abaixo a dosimetria”; e outras
semelhantes.
Neste ato que compareci, senti forte ausência da juventude estudantil e de operários, o local não contribuiu e o comando deixou a desejar, inclusive com o apagamento da história da geração 68 - aquela que enfrentou com as armas da crítica e com a crítica das armas à ditadura militar.
O que, ao meu juízo, faltou nas falas foi apresentar o como foi o plano do golpe, que seguiu o roteiro: criar o caos através do lumpem baderneiro invadindo as sedes dos Poderes da República e instar um presidente a decretar a GLO. Uma vez decretada, os militares estariam nas ruas colocando ordem, o Governo seria acusado de ser incapaz de manter o controle social, e a extrema-direita iria fazer a máxima agitação, no Brasil e fora dele, para que as Forças Armadas assumissem temporariamente e fossem anuladas as eleições e convocadas novas.
Só o presidente pode decretar a GLO; portanto, para que o plano se concretizasse, era preciso que Lula o fizesse.
E a sugestão foi feita. E quem a fez? Foi o seu Ministro da Defesa, José Múcio, a quem qualifiquei, desde a sua nomeação, como um representante dos militares no Governo, e não um representante do Governo junto às Forças Armadas.
Embora os comandantes do Exército e da Aeronáutica não tenham aderido ao plano “Punhal Verde e Amarelo”, não se pode duvidar de que, uma vez nas ruas e com toda a agitação que a extrema-direita faria (vale lembrar dos acampamentos em frente aos quartéis com toda a permissividade de seus comandantes), o presidente se sentiria sob forte pressão do Ministro da Defesa e, talvez, de outros adeptos do pragmatismo conciliatório, bem como a má fumaça da interpretação do famigerado artigo 142 da Constituição Federal, ainda em vigor.
O fatídico domingo de 2023 começou com a conivência e a falha drástica de um aparato de segurança que permitiu que cerca de quatro mil pessoas — mobilizadas por redes sociais e transportadas em mais de cem ônibus (dos quais, entre os financiadores identificados pela ABIN, se tem o Movimento Verde e Amarelo, um dos principais articuladores dos atos intervencionistas e em apoio ao ex-presidente da República Jair Bolsonaro, e que financiou também os acampamentos golpistas em frente ao Quartel-General do Exército em Brasília e os bloqueios de rodovias após a derrota de Jair Bolsonaro — marchassem da Praça dos Cristais até o coração da República sem resistência real.
Por volta das catorze horas, o que se viu foi a barbárie se iniciando: as barreiras da Polícia Militar foram suplantadas com facilidade, dando início a uma invasão sequencial que vandalizou os plenários do Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto, onde documentos foram rasgados, obras de arte perfuradas e até focos de incêndio foram registrados em gabinetes de autoridades. Naquele momento de caos e vandalismo, a ordem só começou a ser retomada quando Ricardo Capelli, braço direito de Flávio Dino e designado interventor federal, assumiu o comando operacional da segurança pública para coordenar os contingentes e expulsar os invasores dos prédios públicos.
A resposta política ao atentado foi imediata, com a decretação da intervenção no Distrito Federal e o afastamento judicial do governador Ibaneis Rocha, enquanto as prisões em flagrante já somavam centenas de indivíduos ainda no percurso daquele domingo.
Nos meses seguintes, a tentativa de ruptura institucional foi esmiuçada por uma CPMI que, apesar das liminares de silêncio concedidas pelo Judiciário, aprovou um relatório de três mil páginas pedindo o indiciamento de dezenas de envolvidos, entre civis e militares, por crimes como associação criminosa armada e golpe de Estado.
O que podemos visualizar desta narrativa acima é que existia um plano adredemente preparado; não foi algo de impulso, nem “porra-louca”. Ficamos sob o fio da decisão do Presidente, ouvindo seus assessores mais chegados, entre eles a primeira-dama e sua companheira de vida, Janja, que, incontinente ao ouvir a proposta de GLO, retrucou: “GLO é golpe!”.
Reparem que o Estado Democrático de Direito ficou por um fio, e a reação que veio após foi um tanto improvisada, porque coube ao número 2 de Flávio Dino, Ministro da Justiça da época, assumir a responsabilidade e botar ordem nos contingentes em armas.
Posteriormente, a reação institucional veio com muita força simbólica: o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; a presidenta do STF, Rosa Weber; o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira; o presidente do Senado em exercício, Vital do Rêgo; os governadores Tarcísio de Freitas, Cláudio Castro, Romeu Zema, Eduardo Leite, Jerônimo Rodrigues, Helder Barbalho, Raquel Lyra, Ratinho Jr., Elmano de Freitas, Renato Casagrande e mais outros 10 representantes de demais estados; o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira; e os ministros do STF Ricardo Lewandowski, Luís Roberto Barroso e Dias Toffoli desceram a rampa em conjunto, dando uma demonstração de unidade da força institucional.
Se, por um lado, a democracia ficou em situação vulnerável, por outro, graças a essa unidade institucional, saiu fortalecida.
Contudo, é importante assinalar: a intentona bolsonarista contou com parcelas lumpem da sociedade, e a reação não contou efetivamente com os movimentos democráticos organizados, sejam as militâncias partidárias, sindicais ou as militâncias dos direitos humanos et caterva.
Essa tentativa terrorista de golpe, que chegou próximo a colocar a democracia à beira de um precipício, reforça o diagnóstico já repetido como mantra: a sociedade civil não está organizada para defender a democracia, que tanto custou a toda uma geração de brasileiros patriotas e democratas.
Ficou para a história e servirá para as próximas gerações proagirem, no entanto, para as gerações atuais, fica a indagação: as lideranças vão orientar e fomentar a criação de muitos comitês de resistência e defesa da democracia e da soberania brasileira? Quando?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
