A abóbora e a carruagem. A farsa social do carnaval

Já perceberam como as chamadas "minorias" são sempre os maiores destaques do carnaval? Negros, mulheres, pobres e gays são os símbolos da festa. Nunca se dá tanta oportunidade para o pobre falar sobre os seus sonhos

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Já perceberam como as chamadas "minorias" são sempre os maiores destaques do carnaval? Negros, mulheres, pobres e gays são os símbolos da festa. Nunca se dá tanta oportunidade para o pobre falar sobre os seus sonhos (Foto: Nêggo Tom)


Como em todos os anos na época do carnaval, as chaves das cidades são entregues nas mãos de Momo, e como todo rei benevolente, ele abre as portas do castelo da sua folia para todos os povos. Realeza e vassalagem se divertem juntos, no mesmo espaço e num só grito, compartilhando momentos de felicidade e harmonia. Provando assim que é possível socializar com o diferente sem sentir-se incomodado com a sua presença. Não sei como o rei momo ainda não foi taxado de esquerdista ou comunista por permitir que todos frequentem a sua festa.

Mas a verdade é que momo nunca será taxado como socialista ou como um demagogo esquerdista. Isso porque a sua festa para todas as tribos é uma farsa social e a realeza sabe bem disso. Só a vassalagem é que parece que ainda não se deu conta. Já perceberam como as chamadas "minorias" são sempre os maiores destaques do carnaval? Negros, mulheres, pobres e gays são os símbolos da festa. Eu nunca vi aparecer tanto preto na televisão como em época de carnaval. Nunca me sinto tão representado assim no restante do ano. Nunca se dá tanta oportunidade para o pobre falar sobre os seus sonhos. Em especial de suas lutas para conseguir juntar dinheiro para pagar a fantasia que o fará se sentir realizado por desfilar na sua escola de coração.

As mulheres mandam na folia e colocam os homens aos seus pés. Mesmo trajando apenas um tapa-sexo, elas conseguem ser respeitadas e chamadas de musas e rainhas, até mesmo por aqueles que costumam justificar os estupros por elas sofridos, usando como argumento as roupas excessivamente sensuais que elas usam. No carnaval elas não são vadias, são princesas despidas de qualquer pudor em nome da arte. Os gays talvez sejam os mais endeusados. Travestis são retratados com todo glamour, exibindo suas fantasias exóticas. Chega a ser incrível como eles são aceitos com naturalidade no reinado de momo. Até homens que se dizem héteros costumam se vestir de mulher e saem pelas ruas apalpando genitálias do mesmo sexo sob o pretexto de que tudo não passa de uma inocente brincadeira de carnaval. Sei. Eu acredito.

Essas e outras particularidades me fazem pensar como o carnaval é democrático e socialista, não é mesmo? Ele consegue unir, no mesmo bloco, pobres e ricos. Tucanos e petralhas se harmonizam para dar voz ao mesmo samba. Na mesma comissão de frente se destacam pretos e brancos. No mesmo carro alegórico se abraçam gays e héteros. Na mesma ala desfilam de mãos dadas Montecchios e Capuletos. E tudo em nome da felicidade coletiva. Quem diria? Coxinhas, elitistas, reacionários, racistas, homofóbicos e outros grupos que normalmente são avessos a uma convivência democrática com o que lhes parece diferente, dispensam suas tradicionais carruagens e embarcam numa abóbora popular lotada de gente diversificada.

Gente essa que eles voltarão a discriminar e a segregar na quarta-feira de cinzas, quando o efeito da fantasia de abóbora passar e a carruagem voltar a transportar o ser humano que eles são de verdade. Daí então não se verá mais tantos pretos em destaque na televisão, não será mais permitido que o pobre fale dos seus sonhos, as mulheres com pouca roupa novamente serão apenas vadias a procura de machos e os gays voltaram a ser a escória da humanidade. Alguém um dia disse que o carnaval poderia ser 365 dias no ano. Estou quase concordando com esse enredo. Se for para que todos se sintam iguais e vivam em conjunto, como ocorre nesses cinco dias de folia, acho válido. Mesmo sabendo que a bandeira da hipocrisia poderia rasgar-se a qualquer momento nas mãos do mestre-sala e assim comprometer a tão sonhada evolução dessa humanidade, que vive atravessando o samba dos outros na avenida por não saber viver em harmonia.

Oremos, para que a quarta-feira de cinzas nunca chegue. E viva a carnavalcracia!

Ala la ô!

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