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Sergio Ferrari

Jornalista latino-americano radicado na Suíça. Autor e coautor de vários livros, entre eles: Semeando utopia; A aventura internacionalista; Nem loucos, nem mortos; esquecimentos e memórias dos ex-presos políticos de Coronda, Argentina; Leonardo Boff, advogado dos pobres etc.

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A agitação social que ganha as ruas e as urnas

Manifestantes se opõem à xenofobia e à cúpula do G7

Manifestantes protestam contra a cúpula do G7 de 2026 (Foto: Jean-Michel Etchemaite)
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Por Sergio Ferrari - Na véspera do conclave anual do G7 em Evian, França, de 15 a 17 de junho, milhares de manifestantes tomaram as ruas de Genebra, localizada a apenas 45 quilômetros de distância, mas já em território suíço, para protestar contra a cúpula.Convocado pela coalizão suíça de No G7 (Não ao Grupo das 7 potências capitalistas mais desenvolvidas), o protesto foi realizado sob o slogan "Vamos construir resistência internacionalista", reunindo forças de esquerda, sindicatos, coletivos feministas, organizações sociais muito diversas e representantes progressistas de países vizinhos (https://nog7ge.noblogs.org/).

Às ruas...

As vozes mais otimistas estimaram o número de participantes nas atividades de Genebra em 60.000. A movimentação começou no sábado com uma "contracúpula do G7". A polícia, por sua vez, falou de 20 mil. De qualquer forma, a manifestação de Genebra foi uma das manifestações de resistência mais coloridas, numerosas e multigeracionais dos últimos tempos nesse país de apenas 9 milhões de habitantes.

Por várias semanas, a convocação não pode ser confirmada porque não conseguia permissão oficial para ser realizada. Em alguns momentos, as autoridades do Cantão de Genebra estavam inclinadas a proibi-la. Pressões sociais crescentes e a decisão dos organizadores de manifestar-se a qualquer custo, finalmente, forçaram a sua autorização sob condições muito rígidas: rota claramente definida, horários fixos pré-determinados e uma redobrada presença policial fortemente militarizada.

Segundo o partido Solidarités, um dos organizadores, nas últimas semanas as autoridades de Genebra e da França tentaram "jogar a cartada do medo para desencorajar a população de se juntar à mobilização... e intimidar aqueles que se recusam a ser espectadores das políticas de guerra, austeridade e destruição ecológica promovidas pelas potências do G7". No entanto, sua declaração enfatiza que a estratégia autoritária e de segurança fracassou quando "dezenas de milhares de pessoas se reuniram em Genebra para afirmar que outro mundo não é apenas necessário, mas que é construído por meio de lutas sociais, ambientais, feministas, antirracistas e internacionalistas".

Essencialmente pacífico apesar de pequenos confrontos entre a polícia e um grupo minoritário de militantes radicais encapuzados, o protesto em Genebra pareceu ressuscitar a modalidade de protesto cidadão, com slogans de antipoder global, tão difundidos no início do século. Agora, também com bandeiras antifascistas para denunciar o avanço sustentado da extrema-direita no continente nos últimos anos. E também revelou novos métodos repressivos, como o de encerrar e manter sob cerco policial total por horas em um parque da cidade a quase 300 pessoas, muitas das quais nem sequer participaram do protesto. Isso gerou fortes críticas de observadores presentes no local que representavam renomados órgãos de direitos humanos, como a Anistia Internacional ou a Liga de Direitos Humanos.

Cúpula sem bússola

A poucos quilômetros dali, na cidade francesa de Evian, a cúpula das superpotências capitalistas terminou na última quarta-feira sem pena e sem glória. Os chefes de governo dos Estados Unidos, Canadá, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália (e convidados de países emergentes como Índia, Brasil, Quênia, Coreia do Sul, entre outros) chegaram à reunião na emuralhada Evian, mais divididos do que nunca. O país anfitrião teve que negociar uma agenda que contasse com a aprovação de Donald Trump, suprimindo questões essenciais, como a crise climática, que incomodam a Casa Branca. Nem mesmo o frágil acordo entre os Estados Unidos e o Irã para encerrar a guerra foi suficiente para trazer otimismo a um crescimento econômico mundial deprimido e em declínio.

Por fim, o conclave do G7 teve pouco progresso em estratégias para resolver a crise econômica sistêmica da qual é um dos principais responsáveis. O que ocupou um lugar central no debate foi a guerra no coração da Europa, a da Rússia vs. Ucrânia, da qual Trump há muito deseja se distanciar. Assim como a do Oriente Médio, onde a Europa desta vez não acompanhou o governo dos EUA, que sai perdedor em sua batalha contra o Irã. Em resumo: a atual desorientação geopolítica do Ocidente e de suas principais potências não encontrou em Evian nem um colete salva-vidas nem uma bússola orientadora.

Um destaque especial da mobilização contra o G7 foi a presença ativa de mulheres, feministas e das diversidades no contexto de uma data histórica, devido a que em 14 de junho se comemora anualmente a Greve Feminista Suíça de 1991. O protagonismo feminista é marcante em Genebra, mas com iniciativas semelhantes em outras regiões e cidades do país. Um dia antes, em Lausanne, essa mobilização reuniu mais de 15 mil manifestantes.

Conter a extrema direita

O segundo fim de semana de junho, um dos mais ativos dos últimos tempos em termos de mobilizações sociais no país alpino, também foi palco de uma votação com impacto nacional significativo, mas de transcendência europeia.

Com uma clara maioria, os cidadãos suíços interromperam a "Iniciativa de sustentabilidade", que propunha controlar drasticamente o número de imigrantes e de refugiados para garantir que a população do país não atingisse 10 milhões até 2050. Conhecida como "Não a uma Suíça de 10 milhões!", essa proposta promovida pelo Partido Popular Suíço, ou PPS (União Democrática do Centro, em francês), acaba de ser rejeitada por quase 55% dos eleitores. Hoje, o PPS é a principal formação de extrema-direita e a principal força eleitoral do país, com 30% do eleitorado e forte presença no poder legislativo, assim como no executivo colegiado, onde possui dois dos sete assentos, participando da chamada "fórmula mágica", pela qual quatro partidos compõem o governo suíço.

A iniciativa fracassada do PPS visou definir um teto máximo populacional até 2050 por meio da seguinte fórmula: se antes dessa data a população — atualmente 9,1 milhões — ultrapassasse 9,5 milhões, o Estado deveria tomar as medidas necessárias para conter o crescimento demográfico. A primeira dessas medidas foi uma restrição drástica aos novos ingressos por asilo e reunificação familiar. Se isso não bastasse, em uma segunda fase o Estado deveria renegociar os acordos europeus que facilitam a imigração de trabalho. No ponto extremo em que essa segunda medida também não fosse suficiente, o Estado seria forçado a encerrar seu acordo atual com a União Europeia (UE) sobre a livre circulação de pessoas. Mas, isso implicaria a rescisão de todos os outros tratados bilaterais que atualmente regem a cooperação estreita entre a Suíça e a UE, com consequências muito sérias para a Confederação Suíça, que ficaria seriamente isolada em nível europeu.

Hoje, a população suíça é quase dois milhões maior do que no início do século. Mais de um quarto deles é composto por estrangeiros, uma base essencial para o crescimento em um país onde a taxa de natalidade está em níveis historicamente baixos. Por outro lado, grandes setores-chave, como saúde, cuidados para idosos e pessoas com deficiência, a construção civil e o comércio, assim como o turismo e a hotelaria, entrariam em crise se a mão de obra estrangeira fosse drasticamente limitada.

Triunfo eleitoral, mas...

Embora os resultados da votação tenham esclarecido o que os cidadãos suíços desejam, um alerta que não pode ser ignorado ficou circulando no cenário político nacional. Especificamente, o fato de que o PPS, aproveitando a questão da imigração, conseguiu romper o teto histórico de seu próprio eleitorado ao conquistar o apoio de quase 45% dos eleitores suíços.

Como está acontecendo em toda a Europa e em muitas outras latitudes, também na Suíça, a dicotomia entre "o ser nacional" e o estrangeiro (seja um trabalhador regularizado, um trabalhador sazonal, um refugiado ou um requerente de asilo) confronta posições partidárias, polariza retóricas e alimenta o grande debate político-ideológico. O medo do "outro", da pessoa que é "diferente", funciona como uma válvula de escape em realidades onde certos problemas – em particular a escassez de moradia e a sobrecarga de certos serviços, como transporte e saúde pública – preocupam grande parte da população. Daí a importância continental desse processo eleitoral que acaba de ser concluído. No dia seguinte à eleição, o editorial do jornal progressista suíço Le Courrier analisou essa dicotomia, mas sem deixar de celebrar a vitória eleitoral inegável sobre a iniciativa do PPS, que descreveu como "enganosa, manipuladora e xenófoba".Enganosa, pois atribui à imigração uma série de problemas que não teriam encontrado solução se uma fórmula para a restringir tivesse sido imposta. Por exemplo, a falta de moradia, um dos "principais males" pelos quais os estrangeiros são culpados. Na realidade, os esforços para tirar a moradia da espiral especulativa são sistematicamente bloqueados pelos mesmos grandes grupos econômicos que usam esse problema como bandeira de denúncia contra o Estado.Manipuladora porque, embora chamada de "sustentabilidade", a proposta do PPS pretendia ser associada à defesa do meio ambiente mesmo quando esse partido e o restante da direita promovem o retorno à energia nuclear e defendem até a morte o uso do carro em detrimento do transporte público. Como a extrema-direita no restante do continente, mais de uma vez esse setor defende posições negacionistas sobre mudanças climáticas e aquecimento global.O tempero xenófobo da iniciativa freada nas urnas, segundo o Le Courrier, expressa-se uma vez mais em sua ofensiva contra imigrantes em geral e solicitantes de asilo em particular, embora este último grupo represente apenas 1,6% da população suíça.

O segundo fim de semana de junho causou alvoroço ao tirar de sua calma natural um país que prefere a rotina aos sobressaltos. Nas ruas, diferentes atores sociais, assim como feminismos e diversidades, foram protagonistas e já anteciparam uma grande greve feminista nacional com claras demandas sindicais e equidade para essa mesma data, em 2027. Nas urnas, a maioria do eleitorado suíço colocou um freio à extrema-direita e à sua iniciativa anti-imigração. Um resultado que pode ser visto como um termômetro, ainda que em pequena escala, do estado de ânimo de grande parte da população europeia, cansada como está da crescente desigualdade econômica, preocupada com o retrocesso/declínio do Estado Social e cansada dos postulados belicistas e violentos da extrema-direita global, incentivada e alimentada pelo trono imperial, em Washington.

Tradução: Rose Lima

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.