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Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

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A “ameaça vermelha” foi pretexto para duas ditaduras

Colunista Alex Solnik lembra, após discurso de Bolsonaro que declarou que sua bandeira "nunca será vermelha", que "a 'bandeira vermelha' nunca chegou perto de existir no Brasil. Nunca houve ameaça 'vermelha', muito menos hoje. O problema é que a ameaça vermelha já foi usada duas vezes como pretexto para dois golpes de Estado, em 1937 e em 1964"; nas falas do novo presidente na cerimônia de posse, o jornalista declara ainda que "todas as frases são autoritárias, ameaçadoras e hostis à democracia"

A “ameaça vermelha” foi pretexto para duas ditaduras (Foto: Agência Brasil)

Bolsonaro não perdeu tempo. Logo no primeiro discurso disse a que veio. "Nossa bandeira nunca será vermelha", gritou para aplausos delirantes dos seus seguidores reunidos em frente ao Palácio do Planalto. "Se for preciso, daremos o nosso sangue para ela permanecer verde-amarela", disse ainda, conseguindo mais aplausos.

A "bandeira vermelha" nunca chegou perto de existir no Brasil. Nunca houve ameaça "vermelha", muito menos hoje. O problema é que a ameaça vermelha já foi usada duas vezes como pretexto para dois golpes de Estado, em 1937 e em 1964.

Não havia ninguém criando ou imprimindo bandeira vermelha. Em 1937, o setor integralista do governo Getúlio produziu um "documento" apócrifo, com o consentimento do Alto Comando das Forças Armadas que conteria instruções do Komintern para os comunistas brasileiros tomarem o poder.

Ninguém viu esse documento, mais tarde denominado "Plano Cohen", porque ele nunca existiu. Mas foi tomado por verdadeiro porque os chefes militares mandaram colocar o caso nas manchetes dos jornais. E Getúlio instalou a ditadura para evitar a ameaça vermelha. A ameaça era ele, como logo os brasileiros veriam.

Em 1964, os generais repetiram a dose. Dessa vez não forjaram documentos falsos, mas acusaram o presidente João Goulart, um rico fazendeiro, de preparar um golpe comunista. Não havia indícios, provas, documentos. Nada. Nem fake News. Mas criou-se essa narrativa na imprensa, de que ele era o inimigo número da pátria e que a vendeu aos soviéticos. Deveria ser derrubado, portanto. E foi.

Hoje em seu discurso Bolsonaro disse absurdos tais como "no Brasil não haverá mais socialismo" (como se alguma vez tivesse havido), "vamos afastar ideologias nefastas", "acabar com a ideologização das crianças " (onde? Ele acha que está na Coréia do Norte???), "acabar com a ideologia que defende bandidos" (que ideologia é essa?), "acabar com o politicamente correto" e finalmente "vamos restabelecer a ordem" (há alguma desordem por aí?).

Todas as frases são autoritárias, ameaçadoras e hostis à democracia. E tentam criar uma assombração que não existe.

Não é bom sinal começar o governo com discurso que repete o de duas ditaduras.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.