A antiga tese da união

Esta será a eleição do Golpe. Tentarão passar a imagem golpista e manipulada de que a "festa da democracia" é a prova cabal de que não houve golpe no Brasil, pois as instituições continuam funcionando normalmente, a voz do povo foi ouvida e todos os candidatos e partidos de todas as tendências participaram democraticamente

amizade, aperto de mãos
amizade, aperto de mãos (Foto: Heraldo Tovani)

Espanta o quanto somos antigos.

Espanta, mais ainda, a força que despendemos para nos manter antigos.

Antigo não é, em si, um adjetivo de conotação negativa. Pode ser, ao contrário, uma definição de algo que preservamos para nos fortalecer enquanto indivíduos ou enquanto povo, como, por exemplo, a tradição popular – que nos dá identidade; o saber ancestral – que nos dá cultura ou um direito conquistado e preservado por gerações – que nos garante cidadania.

Mas aqui, ao usar o adjetivo "antigo" falamos de algo, sim, pejorativo, pois ele se refere a permanências espúrias que já deveríamos ter superado há gerações.

Nosso discurso é antigo. Ainda hoje acompanhamos os discursos do PT, PSol, PCB, Ciro Gomes, Lula, Roberto Requião, que, em linhas gerais, poderiam ser resumidos neste:

"Este banqueirismo governativo não passa de uma aristocracia do dinheiro, de um patricialismo do capital" que é "a mais viciada e bastarda de todas as aristocracias".¹

Ou neste:
"Ignorância, pauperismo, miséria, opressão reinam por todas as partes" – no Brasil – "Temos sido apenas joguete do capital estrangeiro" – com a conivência- "de certas corporações ou indivíduos postos por eles a seu serviço".²

Esses discursos, tão contemporâneos, poderiam ter sido proferidos agora a pouco, ontem, por qualquer um de nós que nos colocamos à esquerda do espectro político do Brasil. Mas, na verdade, esse discurso é de Silvio Romero (1851-1914), poeta, crítico literário e político brasileiro, e foi proferido há 125 anos, sobre a recém-nascida República brasileira.

Nada mudou em nosso discurso em quase um século e meio.

Hoje, nossas mais potentes energias são gastas em teses e debates para provarmos que em 2016 houve um Golpe de Estado, no Brasil.

Vamos falar de golpes?

1.822 – Golpe da Independência.
1.831 – Golpe da Abdicação de D.Pedro I.
1.840 – Golpe da maioridade de D. Pedro II.
1.888 – Golpe da abolição (Lei áurea).
1.889 – Golpe da proclamação da República.
1.930 – Golpe de Getúlio Vargas.
1.937 – Golpe do Estado Novo
1.964 – Golpe militar.

O golpe de 2016 é, assim, a mais moderna, refinada e aperfeiçoada tecnologia de uma longa tradição golpista. O golpismo é a forma de fazer política das elites brasileiras.

Mas, parece que ainda não aprendemos essa lição básica, esse princípio elementar da ciência política brasileira.
Lula e Dilma, assim como João Goulart e JK pensaram que seria possível fazer democratas àqueles que nasceram golpistas.

Foram todos golpeados.

Nossa imprensa golpeia e manipula cotidianamente.

O governo Temer implementa e aprofunda o golpismo em cada ato de desmonte do Estado ou de sua política classista de condenar toda a população para o benefício de uma ínfima e poderosa elite transnacional.

Ciro Gomes, agora, como a bola da vez desse loop infinito da história política do Brasil, começa um cortejo antigo e anacrônico e mil vezes fracassado com a elite nacional... até quando, meu Deus, essa espiral infernal persistirá?

O palco golpista brasileiro é maior que as instituições nacionais, e a própria eleição que se aproxima não conseguirá alcançar um território que se estenda para além desse palco golpista. Primeiramente porque os membros da elite poderão gastar dinheiro do próprio bolso para se financiarem ao cargo disputado. Isso, sem dúvida, garantirá as cadeiras dos ricos nos legislativos de todo o país. Assim, a continuidade da forma tradicional de fazer política das elites será preservada, ou mesmo expandida. O TSE é o órgão encarregado de julgar o pleito. O TSE é confiável? E a mídia será isenta? A imprensa, imparcial? Sabemos que não! A tendência mais realista é que nada sairá para além da ordem golpista.

Rimos, hoje, da fragmentação do campo da direita, que não consegue emplacar um nome forte que represente seus interesses e ao mesmo tempo tenha peso eleitoral. Risos de hiena. Nós também não temos esse nome. Lula provavelmente não conseguirá romper as grades que o impedem de disputar as eleições. Os sucessivos golpes jurídicos o provam. A capacidade de transferência de votos de Lula a um indicado qualquer é um dado estatístico. Seríamos muito ingênuos se acreditássemos em estatísticas como verdades dadas. Nenhum dos candidatos que se põem do lado oposto ao neoliberalismo e ao mercado conseguem algo acima dos 5% das intenções de voto.

A bancada evangélica, com sua ampla rede de fieis espalhada pelos quatro cantos do país pode ter como certa sua manutenção para a próxima legislatura. A bancada da bala, com votos puxados por Bolsonaro, também não sofrerá perdas. Os ruralistas têm, talvez, a maior unanimidade entre os meios de comunicação e não veem ameaças no horizonte. Os militares, também na onda bolsonarista, organizam-se para lançar um número significativo de candidatos em todos os níveis.

Na verdade não temos razão nenhuma para risos. São risos antigos que já deveríamos ter aprendido a controla-los. Em 1964, aos risos de felicidade, Carlos Prestes, ao lado de João Goulart dizia: "Não somos o poder, mas estamos no poder". Poucas horas depois Jango era deposto, Prestes era foragido e os militares mostravam de fato quem era o poder. Lição que deveria ter sido já aprendida em 1937, com o Estado Novo de Getúlio Vargas, quando rapidamente os comunistas passaram de aliados a presos políticos e clandestinos.

Antigo, muito antigo é o nosso atual posicionamento político frente a uma realidade tão desfavorável.

Estamos fragmentados em várias partes.

Apostamos em uma possível união somente no segundo turno das eleições.

Seríamos assim tão hipócritas?

Esta será a eleição do Golpe. Tentarão passar a imagem golpista e manipulada de que a "festa da democracia" é a prova cabal de que não houve golpe no Brasil, pois as instituições continuam funcionando normalmente, a voz do povo foi ouvida e todos os candidatos e partidos de todas as tendências participaram democraticamente e deram seu aval ao processo.

Pronto, fomos assimilados pelo golpe.

Já é antiga essa nossa postura fragmentária. Dizia-se, em tom satírico, no período militar, que a esquerda só se unia na cadeia.

A única coisa nova possível na atualidade seria o velho sonho da união do campo da esquerda. Não no segundo turno das eleições, pois dessa forma seria uma união eleitoral, não a necessária união programática, com um projeto popular de governo.

(...)

Percebo agora que esse é -também- um discurso antigo.

Blá, blá, blá... muitos, muitas vezes já disseram e defenderam essa tese...

Talvez esse meu discurso seja tão antigo quanto as antiguidades que estou criticando. Talvez!

Talvez esteja falando às moscas.

Mosquitos de todo o mundo, uni-vos. Porque nós, da esquerda, ainda estamos naquele antigo cada um por si.

[1] ROMERO, Sílvio. “Parlamentarismo e presidencialismo na República brasileira”. Rio de Janeiro, 1893, pg 56 in COSTA, Emília Viotti. Da Monarquia à República: Momentos decisivos. UNESP, São Paulo, 2010. Pg. 18.

[2] IDEM. Pg. 18

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