A Argentina se levanta em pé aos 75 anos do “Dia da Lealdade” peronista

Há 75 anos, o dia 17 de outubro de 1945 marcou-se como data comemorativa viva na história da Argentina: o “Dia da Lealdade” peronista

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Há 75 anos, o dia 17 de outubro de 1945 marcou-se como data comemorativa viva na história da Argentina: o “Dia da Lealdade” peronista, quando uma gigantesca mobilização popular ocupou as ruas de Buenos Aires, com trabalhadores vindos de todos lados, muitos a pé, alguns a nado (atravessando o rio Riachuelo) para exigir a libertação de Juan Domingo Peron, afastado do seu cargo de Secretário de Trabalho, por forças militares do governo conservador de Farrell, afins à oligarquia e aos EUA. Foi um dia histórico em que “o subsolo da Pátria se sublevou!”, e  que marcou o início do peronismo inapagável na memória e nas lutas do movimento operário e sindical argentino na defesa da soberania nacional e popular.

Hoje, passados 10 meses do início do novo governo peronista da Frente de Todos, empenhado a levantar o país de uma brutal crise econômica, herança maldita do macrismo (dívida externa impagável, desemprego brutal, milhares de empresas falidas), num contexto de crise capitalista mundial (pior aos 1930 e 2008), agudizada pela Pandemia, a direita (a oligarquia das corporações financeiras internacionais), mantenedora do poder midiático de facto (Clarin, La Nación e TN) e do sistema Judicial, decidiu lançar uma ofensiva desestabilizadora contra o funcionamento democrático das instituições: Executivo, Congresso e Judiciário.
Às várias manifestações da extrema-direita da oposição (PRO e JxC), convocadas abertamente por Macri e sua ex-ministra da segurança, Patrícia Bullrich, via trolls e fakenews das redes sociais, são minoritárias, mas inflamam, com o sopro da mídia hegemônica, o desconforto social causado pela Pandemia, com o ódio e a violência, o sentimento de perda de privilégios e da dita “liberdade” individual, embandeirados de anti-quarentena, para agitar o anti-governo peronista. As constantes ameaças ao normal funcionamento do Congresso, a defesa histérica de juízes cúmplices da ditadura e da corrupção (opondo-se à Reforma judicial), com a violência do escrache à residência presidencial de Olivos, e à casa da vice-presidenta Cristina Kirchner (cujo endereço foi divulgado no Clarin) estão passando dos limites democráticos e são uma ameaça às instituições.
Soma-se a essa ofensiva desestabilizadora, a ameaça física constante a jornalistas do Canal de TV-C5N; e a mais recente, uma infundada causa judicial apoiada pelo procurador processado, Stornelli, contra Roberto Navarro (que em 2018 entrevistou o Lula no Brasil) e jornalistas do Blog http://www.eldestapeweb.com, que contam com a solidariedade da mídia democrática, diante desta investida da direita contra a liberdade de expressão.  A judicialização da política continua em pé. Leia

Os fatores desestabilizantes incidem também através das fissuras da política exterior do governo da Frente de Todos, que expressou suas contradições em relação à sua votação frente à Comissão dos Direitos Humanos da ONU.  A contestada votação da Argentina contra a Venezuela junto ao Grupo de Lima, e a favor do infundado Relatório Bachelet sobre a questão dos Direitos Humanos naquele país, sem optar pela abstenção, resultou na renúncia de Alícia Castro, nomeada embaixadora do governo de Alberto Fernandez para a Rússia. Sua carta de renúncia gerou um debate interno na Frente de Todos a favor da ruptura com o Grupo de Lima; grupo este, congregado pelos EUA e governos reacionários da América Latina, cúmplices do novo Plano Condor. A tentativa Macri de penetrar na fissura expressa na política exterior foi evidente. Porém, dias após, a votação posterior sobre uma outra resolução do Grupo de Lima, respaldando o autoproclamado Juan Guaidó, contra o presidente legítimo, Nicolás Maduro, validando intervenções externas e ameaças à democracia, ao processo eleitoral e à integridade da Venezuela foi, desta vez, rechaçada pela Argentina. Tudo indica que o governo teve que ouvir a maioria dos que o votaram por um projeto de soberania e refazer-se do erro da votação anterior. A mudança das relações de forças na América Latina, com o triunfo do MAS na Bolívia, além de permitir Evo Moráles retornar a seu povo em braços peronistas poderá incidir na política exterior da argentina para recompor uma nova Unasul e abandonar o Grupo de Lima.

Neste denominado 75 Octubres o peronismo vivo demarca limites ao golpismo

Numa mobilização surpreendente, neste 17 de outubro, o peronismo que se reavivou através da década ganha durante os governos de Nestor e Cristina Kirchner, demonstrou que mais que um Partido Justicialista é um movimento social profundamente arraigado no povo argentino, e está disposto a ocupar as ruas como em 1945 para defender as ideias e o projeto de Perón, apoiando a unidade em torno a Alberto e Cristina Fernandez.

Os sindicatos, trabalhadores, movimentos sociais, convocados pela Frente Sindical por um Modelo Nacional realizaram uma gigantesca caravana de 2 mil camionistas, 4 mil taxistas, motoristas de ônibus da UTA (dissidente) e mais 500 ônibus na Avenida 9 de Julho, em homenagem e defesa do peronismo, brindando um forte apoio ao governo de Alberto e Cristina Fernández.  À raiz desse exemplo e do incompleto zoom multitudinário 75Octubres.ar organizado pela CGT peronista, deflagrou-se uma monumental carreata pelas ruas da capital rumo à Praça de Maio. Devido a um ataque de hackers de 40 servidores do mundo, milhares de peronistas-kirchneristas e cidadãos decidiram sair em uma kilométrica carreata. Através das redes, facebook, twitter e instagram, o ato virtual continuou no salão Felipe Vallese da CGT com a participação de dirigentes sindicais da CTA e a presença de parlamentares, prefeitos e governadores peronistas, com o desfecho do discurso de Alberto Fernandez. A vice-presidenta Cristina Kirchner publicou no seu twitter: “Que a lealdade às convicções, ao povo e à Pátria, continuem inalteráveis em tempos de pandemia. Com a mesma paixão e o amor de sempre”.  Publicou também sua foto junto a Nestor Kirchner saudando a multidão.

À plena cobertura midiática do canal C5N recolhendo depoimentos de alto conteúdo político de uma classe média peronista-kirchnerista animada em caravana de carros, somou-se a TV Pública diretamente do salão da CGT; e para surpresa, lançou-se um novo Canal de TV de notícias no sinal do Grupo Outubro, chamado IP destinado à informação verdadeira.

Enfim, foi um 17 de Outubro, onde o peronismo, que não é só um Partido Justicialista, mas é um movimento histórico, se reavivou, mediu suas forças, e ocupou as ruas, não a chamado do governo, mas para apoiá-lo, centralizado nos cuidados frente à Pandemia, exalando ar de solidariedade aos excluídos, não às grandes fortunas; a unidade e combatividade marcaram presença, e um alto lá às intensões da direita golpista. Um recado, um alerta do povo peronista de que na Argentina: “Nunca mais!”. O povo deu o sinal de que fará pelos Fernandez um novo 17 de outubro como fizeram por Peron e Evita, Néstor e Cristina. O 17 de outubro de 1945, com Perón, marcou uma era, um nacionalismo baseado nos sindicatos. Ninguém se esquece de que Peron e Evita criaram o Estatuto do Peão, o aguinaldo (13º salário) generalizado, a indenização por demissão, o convênio coletivo de trabalho, a aposentadoria, férias, sindicatos, lei de acidente de trabalho operário e artesão, o voto feminino. Tudo isso, sem contar as estatizações das riquezas do país e a soberania nacional; mas no tangível da vida diária do trabalhador, ninguém se esquece de Perón; assim como não se esquece da sua própria capacidade de mobilização como povo. Alberto Fernandez disse no seu discurso: “Uma vez e mil vezes fizeram o necessário para que o peronismo desaparecesse da Terra e não puderam porque o peronismo chegou até as entranhas do povo e lhe deu direitos”.

Este 17 de outubro foi um sinal vermelho aos opositores, mas também um acelerador ao governo para avançar mais rápido. Este recebeu um voto de confiança, mas a carência econômica e social com a pandemia é gigantesca; a pressão desestabilizadora dos grupos de poder oligárquicos sobre uma economia dolarizada é brutal; decisões contundentes e muito Estado continuam sendo o antídoto. O povo não está adormecido; vivo como nunca para apoiar e empurrar. 

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