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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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A arte está de moda

"A afirmação é da grande pensadora argentina Beatriz Sarlo"

Beatriz Sarlo (Foto: Reprodução TV Cultura)

A afirmação é da grande pensadora argentina Beatriz Sarlo. Investir na arte, segundo ela, é menos arriscado do que na Bolsa, dizia, e os museus são bons negócios para as cidades.

Ainda que o adjetivo tenha perdido algo da eletricidade que transmitia nas duas últimas décadas do século XX, o que até faz pouco foi chamado de “pós-moderno” caracteriza um campo estético em que distintas frações selaram um tratado de paz para remeter a competição entre artistas ao mercado e a este outro espaço ligado intrinsecamente ao mercado, que são os museus.

Por sua vez, na academia e no mundo elegante, a sociologia da cultura e os estudos culturais difundiram a tese de que é inválida, quando não reacionária, a separação entre arte de elite e arte popular ou arte industrial. O pior de tudo é que essa separação também seria arcaica e incompetente para entender o que acontece.

O museu atual tem a jovialidade de um parque temático. Os especialistas organizam o museu como uma viagem pedagógica e turística: uma excursão educativa. Estabelecem relações entre obras por oposição, por analogia, inclusive por capricho.

A arte se desmaterializou. Mas não simplesmente porque existe a arte digital, mas porque os materiais artísticos se tornaram indiferentes. A outra face da desmaterialização é a hegemonia do conceitual e do programa. Cada obra vem com sua explicação discursiva. As intervenções urbanas, tão frequentes, costumam ser conceituais e devem ser explicadas.

O mercado de livros, ainda que muito concentrado, tampouco pode impedir que, em suas margens, apareçam pequenas editoras dirigidas por editores vocacionais e por escritores. Por isso, a produção se mantém altamente diferenciada: publicam-se best sellers, mainstream, literatura de qualidade, experimentação, literatura popular, vanguarda, poesia e ensaio; descobrem-se autores que não seriam publicados pelas grandes editoras comerciais. Surgem, ao lado das cadeias de venda, livrarias médias e pequenas. Há revistas independentes, centenas de páginas de escritores na internet e blogs que marcam tendência.

Essas diferenciações tornam quase impossível a hegemonia de uma dezena de autores, porque só um setor do público e da crítica lhes reconhece primazia. A lista dos mais vendidos não significa qualidade; o mercado não assina o prestígio, ainda que distribua a visibilidade mediática; uma pequena editora pode publicar o que depois pode ser considerado o melhor livro do ano.

Tudo está fragmentado. Os livros se dispersam de distinto tamanho e poder, o público está estratificado e não existe nada que possa denominar-se uma esfera literária única. Há romancistas cujo prestígio se constrói sobre a venda de menos de mil exemplares. E dezenas de milhares de exemplares não garantem nada, salvo os direitos de autor.

Ler literatura implica a realização de operações muito complicadas. Quem quer que faça as duas coisas sabe que é mais difícil ler literatura do que navegar na internet. Daí para frente, as diferenças estéticas entre os livros traçam linhas de fratura. Somente em alguns momentos privilegiados algumas obras literárias cruzam o limite que separa os públicos. A literatura estratifica de uma forma implacável, ainda que não necessariamente ao longo de divisões de classe.

Beatriz Sarlo é uma das minhas leituras preferidas. Entre a esquerda argentina há um preconceito contra ela, pelas críticas que fez ao peronismo. O que não impede que ela seja a melhor analista da cidade de Buenos Aires. Reconhecem-se os méritos de Jorge Luis Borges que, no entanto, chegou a elogiar a ditadura militar argentina, no mesmo momento em que ela assassinava e fazia desaparecer milhares de pessoas.

Este texto está no livro As duas torres – Pode a cultura contemporânea pensar em algo novo? Eu infelizmente não consegui conhecê-la. Quando li suas obras e a busquei em Buenos Aires, ela recém havia ficado doente e morrido. Mas sigo lendo e relendo suas obras.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.