A arte nunca dorme, Bolsonaro. Nunca

"Jair Bolsonaro e o trio de filhos hidrófobos, os integrantes indecentes de um governo que é a mais pura indecência, todos eles passarão. E a arte saberá contar como foram esses tempos de asco e horror que vivemos hoje", escreve o o jornalista Eric Nepomuceno, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil; An)

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

O que acontece desde janeiro de 2019, com a chegada de Jair Bolsonaro na presidência, é assustador. E um setor especialmente atingido por sua sanha destruidora é exatamente o das artes e da cultura.  

Muito mais que como adversários, os que pertencem ou são diretamente vinculados – artistas, intelectuais, técnicos e profissionais dos diferentes segmentos – ao campo artístico e cultural são vistos como inimigos a serem abatidos de maneira implacável.  

É verdade que houve, desde o fim da ditadura militar que durou de 1964 a 1985 e até hoje desperta nostalgia no atual presidente brasileiro, dois presidentes que viam as artes e a cultura como algo a ser combatido com força. O primeiro foi Fernando Collor de Melo, que liquidou em abril de 1990 o ministério de Cultura, transformado em Secretaria Nacional diretamente vinculada à presidência. Escolheu, para o posto, uma figura nefasta, Ipojuca Pontes. Collor foi deposto graças à exagerada corrupção praticada, e seu vice e sucessor, Itamar Franco, recriou o ministério.

As artes foram duramente prejudicadas no tempo em que Collor exerceu a presidência. Foi especialmente perversa a maneira com que ele tratou de liquidar o cinema brasileiro.  

Terminado seu malogrado governo, custou tempo e trabalho, muito trabalho, para que o campo das artes e da cultura tornasse a florescer.  

O segundo a atentar foi Michel Temer. Assim que assumiu interinamente – o golpe institucional ainda estava em curso – ele tentou, no dia 12 de maio de 2016, fechar o ministério da Cultura. Uma espécie de vingança pessoal, já que a cleptocracia imposta por ele no lugar da democracia até então existente era duramente atacada pela imensa maioria dos trabalhadores das artes e da cultura. A resistência foi especialmente forte, e a vingança de Temer durou pouco: onze dias depois, reabriu o ministério.

E então chegaram Bolsonaro e sua matilha feroz com a obsessão de liquidar tudo, devorar tudo.

E, a bem da verdade, Bolsonaro e sua trupe estão se saindo muito, mas muito melhor que Collor e Temer: além de destroçar todas as estruturas erguidas ao longo do tempo, o atual governo inovou na guerra contra o campo cultural e artístico brasileiro.  

A cultura nunca foi tão sufocada – nem mesmo nos tempos da ditadura militar tão admirada pelo clã presidencial e todo o seu governo.

Na ditadura havia uma censura institucional. O que acontecia? Escritores escreviam livros, compositores compunham canções, cantoras e cantores gravavam discos, dramaturgos e diretores montavam peças de teatro, cineastas filmavam, enfim, não eram impedidos de trabalhar.

O que sim se impedia é que seu trabalho chegasse ao público. Discos gravados eram proibidos; depois de prontos, filmes eram proibidos; depois de ensaiadas, peças de teatro eram proibidas. Livros publicados eram recolhidos e atirados ao fogo.  

Foram tempos de breu, tempos tenebrosos, arrasadores. Mas há uma diferença fundamental entre aqueles tempos de horror e o horror de hoje: agora, impedem que filmes sejam filmados, que peças sejam montadas. É uma forma especialmente perversa de censura antecipada.

Basta ver a estrutura da secretaria Especial de Cultura. Cada um de seus integrantes é uma aberração maior que a outra. E à frente deles, um desvairado, um alucinado especialmente perigoso.

Já tivemos, é verdade, ministros medíocres, ministros ineficientes. Tivemos, sim, aberrações como o Ipojuca do Collor ou o Roberto Freire do Temer. Comparadas porém a Roberto Rego Pereira, que usa o pseudônimo de Roberto Alvim, essas aberrações do passado são nada.

Bolsonaro não vê na classe artística e cultura, vale repetir, um bloco de adversários: vê um bloco de inimigos a serem exterminados.  

Bolsonaro não despreza as artes e a cultura brasileira: não tem ideia da sua existência. Não é propriamente um ignorante: não chega nem a isso. É um boçal.

Só que ele e sua trupe esquecem pequenos detalhes. A arte resiste. A arte não morre. A cultura não morre.

Há muitos anos, depois de enfrentar o pior drama possível – a perda de um filho – o cineasta Francis Ford Coppola contou qual a última frase escrita pelo rapaz no computador antes de morrer de maneira trágica: ‘Art never sleep’.

A arte não dorme nunca. A arte vive em vigília permanente.

Bolsonaro e o trio de filhos hidrófobos, os integrantes indecentes de um governo que é a mais pura indecência, todos eles passarão.

E a arte saberá contar como foram esses tempos de asco e horror que vivemos hoje.

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