A atuação secreta dos militares na conspiração

"Passo a passo, tutelando e sincronizando os estamentos jurídicos, políticos e midiáticos com dispositivos da guerra híbrida, os militares foram alargando os limites da institucionalidade até instituírem como “novo normal” o regime de exceção", escreve o colunista Jeferson Miola

(Foto: Marcos Corrêa/PR)
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Dentro de poucos anos se conhecerá com riqueza de detalhes a atuação secreta dos militares; a “mão oculta” deles – principalmente de oficiais de alta patente da ativa e da reserva do Exército brasileiro – na produção do caos permanente que mergulhou o Brasil no precipício.

Juntando-se informações, dados e fatos pesquisados, já se consegue montar o mural sobre o papel central dos militares na conspiração que evoluiu para o que eles propagam ser o “retorno democrático” deles próprios ao poder.

Desta vez, diferente de 1964, por anos as Forças Armadas manejaram a quebra do Estado de Direito e a ruptura do ordenamento jurídico de modo suave, progressivo e constante, sem necessidade de colocar tanques nas ruas para violentar mortalmente a democracia.

Passo a passo, tutelando e sincronizando os estamentos jurídicos, políticos e midiáticos com dispositivos da guerra híbrida, os militares foram alargando os limites da institucionalidade até instituírem como “novo normal” o regime de exceção e seu equivalente direito penal do inimigo. Sem nenhum tiro de fuzil.

Com o tempo, vão se dissipando as dúvidas sobre o governo militar instalado com a eleição do Bolsonaro. Todos os dias surgem sinais e indícios que confirmam que Bolsonaro é uma peça encaixada sob medida na engrenagem planejada por conspiradores da caserna.

Com todos eventos já revelados, é possível inferir-se que Bolsonaro é uma peça que integra o plano de poder dos militares, e não o contrário.

De acordo com o jornalista argentino Marcelo Falak [2018], Bolsonaro é o “projeto secreto” da cúpula militar. O ex-capitão foi o “motor eleitoral” que viabilizou o plano acalentado na caserna ao longo das últimas décadas por setores golpistas das FFAA.

Ainda durante a transição, que foi tutelada pelas FFAA, os militares iniciaram o processo de recomposição do seu papel na política e no esquema de poder do país. E tiveram como grande trunfo a redação do artigo 142 da Constituição de 1988.

Desde meados dos anos 2000, numa interpretação delirante deste artigo 142, extremistas de direita alardeiam o caos social e político para pedirem a restauração da ordem por meio da intervenção militar já.

De 2013 em diante tornaram-se comuns faixas com tais dizeres nas manifestações de rua promovidas pelos golpistas incensados pela Globo. Mas, ainda pior, durante vários anos faixas defendendo o golpe militar ficaram permanentemente penduradas nos gramados em frente ao Planalto, STF, Congresso – a não mais que 300 metros do MPF e da PF!

Comenta-se que o trabalho da Comissão Nacional da Verdade/CNV, por revolver o passado, atiçou o sentimento “adormecido” de vingança dos nostálgicos dos porões da ditadura.

À luz das evidências atuais, entretanto, o peso desta questão no animus golpista dos militares fica bastante relativizado. Isso porque a reação à CNV parece ter servido apenas como pretexto para eles intensificarem o processo de doutrinação e politização das tropas. Politização, aliás, que nunca deixou de acontecer, mesmo com o fim do regime, em 1985.

Os conspiradores nunca abandonaram o proselitismo político com uma retórica reacionária, do inimigo interno, do anticomunismo/antipetismo nos quartéis e instalações militares. A candidatura de Bolsonaro à presidência, inclusive, foi lançada pela 1ª vez no longínquo 29 de novembro de 2014, no pátio da AMAN – Academia Militar das Agulhas Negras.

É dispensável relembrar episódios marcantes da atuação de comandantes militares na política, como os tuítes do Villas Bôas tutelando o STF para manter Lula em cárcere político, assim como a nomeação do general Fernando Azevedo e Silva [sucedido no cargo pelo general Ajax Porto Pinheiro] na assessoria especial do presidente da Suprema Corte, com o propósito evidente de tutelar Dias Toffoli e, em certo sentido, fechar o STF.

A confissão de Michel Temer/MDB sobre as articulações com o general Villas Bôas nos meses que antecederam o impeachment fraudulento da presidente Dilma é mais um elemento probatório da intromissão secreta, inconstitucional e ilegal dos militares na política nacional.

E prova, também, que durante todo este longo período de mais de uma década, os militares operam um plano estratégico, ajustado a cada conjuntura específica, mas sem se afastar do objetivo estabelecido de, mediante a instalação do caos por eles provocado, tomarem de assalto o poder.

Villas Bôas agiu como seu homólogo chileno Augusto Pinochet, o general que em 11 de setembro de 1973 traiu e derrubou o presidente Allende.

Assim como Dilma, Allende ingenuamente nomeou Comandante do Exército do país um general que, fingindo-se legalista, ao final revelou-se um abjeto traidor e conspirador.

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