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João Ricardo Dornelles

(Professor de Direito da PUC-Rio; Coordenador do Núcleo de Direitos Humanos da PUC-Rio; membro do Instituto Joaquín Herrera Flores/América Latina; membro do Coletivo Fernando Santa Cruz)

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A barbárie fascista dos Estados Unidos ataca a América do Sul para roubar petróleo

Devemos estar atentos para os próximos acontecimentos na região. Serão momentos importantes, intensos e turbulentos na América Latina

Ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela (Foto: Reuters)

O ano de 2026 começou e no seu terceiro dia a cidade de Caracas foi bombardeada por forças dos Estados Unidos.

A América Latina está sob ataque da maior potência militar e econômica da história da humanidade.

O governo Trump nos seus onze meses e meio de existência já mostrou a sua virulência, com sanções e tarifas contra todo o mundo, ameaças contra o Canadá, Panamá, México, Cuba, Brasil, Venezuela, Colômbia. Simulou acordos de paz e cessar fogo na Palestina e Ucrânia, ameaçou a China e mostrou a agressividade de uma potência em profunda decadência.

A definição da América Latina como território a ser reconquistado foi anunciada pelo Secretário do Departamento de Guerra, Pete Hegseth, como também pela general Laura Richardson, Chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, ao afirmarem que era hora de retomar o “nosso quintal” e deixar bem explícito que não se tratava de luta pela democracia, mas sim o controle do petróleo, lítio, terras raras e diversos minerais.

Do ponto de vista geopolítico significa retomar o domínio imperial sobre a América Latina e afastar a influência da China na região.

No decorrer do ano tivemos o tarifaço contra os produtos brasileiros, a hostilidade contra o governo Lula, posteriormente amenizada, possivelmente tentando uma “neutralização” momentânea da posição do governo brasileiro por parte do governo Trump.

A escalada das agressões de Trump contra a América Latina foi se desenvolvendo no decorrer de 2025 com a definição da Venezuela, Colômbia e México como alvos iniciais com o pretexto da guerra contra o narcotráfico. Para levar adiante o seu propósito, o governo Trump inventou uma curiosa associação entre narcotráfico e terrorismo e passou a chamar diversos governos da América Latina de narco-terroristas ou narco-governos. Acusações diretas de serem chefes de cartéis de drogas foram feitas contra Nicolás Maduro, Gustavo Petro e Claudia Sheinbaum. Apenas por curiosidade, até as pessoas mais ignorantes do mundo sabem que as rotas de tráfico de drogas não passam pela Venezuela e que tal atividade não tem motivação política, mas sim de acumulação de capital.

A mesma tática de acusar governos progressistas, de esquerda ou centro-esquerda de narco-terroristas também é verbalizada pelas vozes de extrema-direita dos países latino-americanos. No Brasil, continuamente, os neofascistas dizem que o Partido dos Trabalhadores e o governo Lula são ligados ao crime organizado, quando é clara a relação das diferentes facções criminosas com as forças políticas do bolsonarismo e do chamado centrão, de direita e extrema-direita.

A trama contra a Venezuela continuou quando uma fascista terrorista, María Corina Machado, foi premiada com o Nobel da Paz. Sobre isso, na época, eu publiquei no Brasil 247 um artigo que mostrava a vergonhosa decadência moral do Ocidente.

(https://www.brasil247.com/blog/a-baixeza-moral-do-ocidente-genocidio-nobel-da-paz-e-o-elogio-abarbarie )

Posteriormente, Trump ordenou o deslocamento de parte da frota naval para a costa caribenha da Venezuela. Foram meses de ataques contra pequenas embarcações de pescadores venezuelanos e colombianos, somando até o momento mais de cem mortes sem acusação formal e em ações completamente à margem de todas as leis internacionais.

Por fim, apareceu o motivo real, o roubo do petróleo, e as forças dos Estados Unidos passaram a, literalmente, roubar grandes navios petroleiros em pleno Mar do Caribe, em águas internacionais. Verdadeiros piratas do Caribe com ações de delinquência explícita. Ao mesmo tempo, Trump diariamente dizia que os Estados Unidos deveriam recuperar as riquezas que a Venezuela tinha roubado (???). Qual riqueza, o petróleo do território venezuelano? Vale lembrar que no meio do ano passado, Trump chegou a dizer que o Brasil estava em dívida com os Estados Unidos, pois durante a 2ª. Guerra Mundial, os norte-americanos ocuparam uma base em Natal. Temos que ficar ligados, né?

Qualquer pessoa com meio neurônio sabe que a motivação de Trump e do seu governo não é “restaurar a democracia” (?) ou lutar contra o narcotráfico, mas sim o petróleo, as riquezas minerais e energéticas.

A escalada continuou e, finalmente, na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, forças norte-americanas bombardearam a cidade de Caracas e sequestraram o Presidente Maduro e a sua mulher, levando-os para Nova Iorque, onde, segundo as últimas notícias, deverão ser julgados por narcotráfico. Vamos aguardar o que vai acontecer nas próximas horas e dias.

O ataque à Venezuela acende o sinal vermelho para toda a América Latina. Logo após o ataque, o ditador norte-americano disse que “é necessário fazer algo com o México”, país dominado pelos cartéis.

Os Estados Unidos retomaram a velha Doutrina Monroe com o novo Corolário Trump para “recuperar o seu quintal” entendendo a América Latina como a extensão do seu território nacional. Para submeter os países da América Latina, Trump promete reviver a ideia de “América para os americanos” em combinação com o Big Stick, a política do porrete de Theodor Roosevelt.

Na América Latina estamos vivendo um cerco do imperialismo neofascista neoliberal que avança. Já estão sob controle do imperialismo com governos de extrema-direita e neoliberais, a Argentina, Bolívia, Paraguai, Equador, Perú, Chile e El Salvador. Honduras sofreu intervenção direta do governo Trump na fraude eleitoral que levou à vitória de um candidato neofascista.

Após a Venezuela, o Brasil e a Colômbia serão a bola da vez do imperialismo. Em 2026 teremos, nos meses de maio e junho, eleições para a sucessão do Presidente Gustavo Petro e em outubro as eleições brasileiras. O governo Trump promete, com o apoio das elites locais, criar o clima mais turbulento possível para que o candidato de Petro na Colômbia, Senador Ivan Cepeda, e Lula sejam derrotados pelos neofascistas.

As táticas de atuação são diferentes de acordo com cada país. No caso da Venezuela, existe uma Revolução em curso desde 1999, onde as estruturas do Estado e as suas instituições não estão mais sob o controle da burguesia local, como também foi se constituindo uma poderosa estrutura social de poder popular. Exatamente por isso, na Venezuela o imperialismo é obrigado a lançar mão, não apenas dos mecanismos das guerras híbridas e propaganda com apoio da burguesia local, mas de intervenção militar direta. 

No caso do Brasil, o governo Lula não apenas é cercado por fora, mas também minado por dentro por poderosas forças locais das diferentes frações da burguesia brasileira atrelada aos interesses do capital internacional, do agronegócio, do rentismo da Faria Lima, dos grandes meios de comunicação, dos militares, igrejas evangélicas e setores ultra-reacionários da Igreja Católica, dos bolsonaristas, lavajatistas e amplos segmentos das classes médias colonizadas e que adoram desfraldar a bandeira listrada dos imperialistas do Norte. No Brasil, o ataque articula cercar por fora e boicotar por dentro através da guerra híbrida, combinando diferentes práticas assimétricas que podem usar as técnicas do lawfare - como no golpe contra Dilma Rousseff e na prisão de Lula -, revolução colorida e desgaste através dos meios de comunicação hegemônicos, indústria das fakenews, mobilização da chamada “geração Z”.

Devemos estar atentos para os próximos acontecimentos na região. Serão momentos importantes, intensos e turbulentos na América Latina.

Nesse momento é fundamental a solidariedade internacionalista, cabendo ao povo brasileiro, aos povos da América Latina e aos povos do mundo se organizarem e se levantarem contra o fascismo, contra o capitalismo neoliberal, contra o militarismo, contra o sionismo, contra o genocídio na Palestina, contra a guerra na Ucrânia, contra o neocolonialismo na África e contra as agressões atuais na Venezuela em todas as partes do mundo. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.