A bobagem das novas zonas de influência
É urgente encontrar novas soluções de ação internacional, novos marcos analíticos que capturem as especificidades do poder no século XXI
Circula nas redes sociais um mapa-múndi com inscrições à mão, aparentemente satírico, que divide o planeta em três áreas de influência: "me" (Donald Trump) abarcando as Américas; "Putin" controlando Rússia e Europa; e "Xi" (Jinping) dominando África e Ásia. O que deveria permanecer como sátira ganhou endosso de diversos analistas internacionais que passaram a defender seriamente essa configuração como o futuro da ordem mundial. Trata-se de uma enorme bobagem analítica que revela profundo desconhecimento sobre a história dos sistemas internacionais e as transformações estruturais do século XXI.
A genealogia das zonas de influência
A noção de "zonas de influência" tem uma história específica que precisa ser compreendida antes de aplicá-la levianamente ao presente. Sua origem remonta ao Tratado da Paz de Augsburgo de 1555, que estabeleceu o princípio cuius regio, eius religio – "de quem é a região, dele é a religião". Esse arranjo não tinha ambições imperiais globais; era uma solução pragmática de sobrevivência para uma Europa dilacerada por guerras religiosas. O príncipe determinava a confissão de seu território, e quem discordasse que migrasse. Simples, territorial, limitado.
Essa lógica evoluiu nas disputas entre Bourbons e Habsburgos, mas permaneceu essencialmente europeia e dinástica. A transformação radical viria apenas no século XX, quando a industrialização redefiniu completamente o sentido de "influência". Não se tratava mais de religião ou dinastia, mas de controle sobre produção, fluxos financeiros, tecnologia, matérias-primas e população. O ápice dessa configuração foi a Guerra Fria, simbolizada perfeitamente no memorando da partilha entre Stalin e Churchill, onde literalmente dividiram o mundo em percentuais de influência. O princípio desse sistema era permitir o controle econômico-produtivo de regiões inteiras, e apenas como consequência desse controle estabelecia-se certa estabilidade – nunca paz propriamente dita.
Cinco razões pelas quais isso não funciona mais
Primeiro: esse tipo de controle totalizante sobre regiões inteiras é impossível na economia globalizada do século XXI. Sim, vivemos um recuo da globalização após a guerra da Ucrânia, com fragmentação de cadeias produtivas e realinhamentos geopolíticos. Mas essa fragmentação não recria as condições da Guerra Fria. As interdependências são de outra natureza: chips taiwaneses em sistemas militares americanos, terras raras chinesas em tecnologia europeia, capitais entrelaçados em paraísos fiscais, cadeias de valor que atravessam cinco continentes antes de um produto chegar ao consumidor. Não há mais como "fechar" uma zona de influência sem colapsar a própria economia do suposto controlador.
Segundo: no mundo digital, a própria ideia de "zonas de influência geográficas" se torna obsoleta. A influência hoje é algorítmica, não territorial. A fronteira que importa não é a linha no mapa, é o protocolo de internet, o sistema operacional, a plataforma de mídia social, o padrão de inteligência artificial. A China pode exercer influência sobre jovens americanos via TikTok de forma muito mais efetiva do que jamais conseguiu territorialmente. Os EUA moldam comportamentos no Irã através de VPNs e redes sociais de maneira que nenhum exército conseguiria. Quando a influência se dá por fluxos informacionais e não por controle territorial, o conceito de "zona" simplesmente deixa de fazer sentido. Você não estabelece um checkpoint na entrada do Instagram.
Terceiro: as assimetrias de interesse e poder não cabem nesse esquema simplista. A Venezuela significa para os Estados Unidos infinitamente mais do que a Ucrânia para a Rússia – é quintal geográfico, reservas petrolíferas gigantescas, questão de segurança hemisférica histórica. Por mais que Rússia e China tentem, na atual configuração geopolítica, eles jamais conseguiriam impedir que os EUA continuassem extraindo valor e exercendo pressão sobre territórios que os analistas pintaram alegremente como "zona russa" ou "zona chinesa". A América Latina pode estar próxima da China comercialmente, mas quando os EUA decidem agir – como vimos recentemente –, as margens de manobra chinesas são limitadíssimas. A ideia de que Xi Jinping "controlaria" a África inteira quando mal consegue garantir estabilidade no Mar do Sul da China beira o delírio analítico.
Quarto: atores médios e regionais não são peças passivas nesse tabuleiro imaginário. O Japão, com a terceira maior economia do mundo e tratado de segurança com os EUA, simplesmente não cabe numa "zona chinesa". A Austrália reforçou laços militares com Washington através do AUKUS. O Brasil e a América Latina desenvolvem estratégias de autonomia que desafiam qualquer noção de subordinação total. E mesmo numa análise geográfica básica, a ideia de que Alemanha e França – potências econômicas, nucleares no caso francês, com projetos próprios de autonomia estratégica – aceitariam fazer parte de uma "zona de influência russa" não resiste a cinco minutos de exame sério. A União Europeia, com todos os seus problemas, não é a Polônia de 1945.
Quinto, e talvez mais importante: o mundo do século XX morreu simbolicamente quando Trump atacou a Venezuela e Maduro apareceu vendado em Nova York. Aquilo não foi apenas uma operação policial espetacular – foi a demonstração de que as ferramentas tradicionais de ação internacional ficaram obsoletas. A diplomacia multilateral colapsou, o respeito às soberanias formais evaporou, os protocolos de ação entre potências deixaram de funcionar. Retirar do baú a empoeirada ideia de "zonas de influência" para aplicá-la num mundo digital do século XXI é desconhecer que todos os condicionantes estruturais para que ela funcionasse estão ausentes.
Não há mais controle efetivo sobre fronteiras quando a influência é digital. Não há mais controle sobre fluxos financeiros em tempo de criptomoedas e paraísos fiscais digitais. Não existe mais diplomacia ativa e atuante como construtora de ações internacionais quando líderes se comunicam por tweets e ameaças são feitas por redes sociais. E não há mais respeito automático ao sentido de potência de certos países quando potências médias têm capacidades assimétricas de causar danos desproporcionais.
Conclusão: pensamento novo para Mundo Novo
O sistema internacional do século XX foi enterrado – e não por acaso, mas por obsolescência estrutural. Continuar operando com suas categorias analíticas é como tentar entender a internet usando manuais de telefonia dos anos 1970. É tecnicamente possível encontrar algumas analogias, mas você perderá completamente o fenômeno.
É urgente encontrar novas soluções de ação internacional, novos marcos analíticos que capturem as especificidades do poder no século XXI: algorítmico, fluido, assimétrico, digital. Zonas de influência geográficas são relíquias de um mundo que não existe mais. E tratar sátira como análise séria é sintoma de uma crise mais profunda: a incapacidade de ler as transformações do presente sem as lentes empoeiradas do passado.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

