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Bebeti do Amaral Gurgel

Jornalista e escritora, com 19 livros publicados. Morou na Holanda, Alemanha e Inglaterra, onde foi correspondente. Abriu a primeira livraria feminista do Brasil, Lilith, em 1990. Escreve atualmente como colaboradora para vários jornais e blogs

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A bolha burguesa e o desprezo à multidão

Uma crítica à aversão das elites brasileiras às massas e ao papel transformador das multidões na história, na política e na cultura

Celebração do réveillon em Copacabana (Foto: Reuters)

“Você foi ao réveillon no Rio, em Copacabana?”“Não, porque odeio multidões”.

O que faz uma pessoa odiar a multidão? Existe multidão de pessoas ricas? A multidão é sempre de pessoas menos favorecidas?

Ao contrário de outros países, no Brasil, as multidões geralmente são formadas por pessoas menos favorecidas, seja em marchas políticas, carnavais de rua, shows gratuitos ou protestos em geral. Isso ocorre porque os valores burgueses brasileiros incluem o “ódio à multidão”. Obviamente, isso é uma clara manifestação da disparidade social e econômica no país, onde a classe dominante, a burguesia, frequentemente se retrai diante da visão das massas que clamam por justiça e igualdade, ou simplesmente por lazer.

Na mídia, vemos festas de réveillon sendo celebradas em Sidney, Dubai, Bangkok, Paris, Amsterdã, Buenos Aires, para citar apenas alguns exemplos, com multidões celebrando a chegada do ano novo. Na Holanda, todos os anos, uma multidão feliz celebra o aniversário do rei. Paradas do orgulho LGBTQIA+ ocorrem em inúmeros países ao redor do mundo, com multidões contentes levantando bandeiras do arco-íris. Uma multidão inglesa assiste ao enterro da rainha ou aos casamentos reais. Multidões marcham contra a guerra, a favor dos negros, a favor do aborto, pelo clima, pela religião, em diversos países.

Madonna, Lady Gaga e Beyoncé, as divas pop, são conhecidas por seus espetaculares shows ao vivo, que atraem multidões de fãs em todos os continentes. Seus concertos costumam lotar praias, estádios e arenas, com números que ultrapassam dezenas de milhares de espectadores. Justin Bieber, Rihanna, Taylor Swift, Foo Fighters, Imagine Dragons, Arctic Monkeys e centenas de outros artistas e bandas também costumam atrair multidões em cada show.

E por que, no Brasil, as pessoas ricas e burguesas não gostam de multidões, se é o povo brasileiro que vai às ruas? Será que é porque justamente é o povo brasileiro que vai às ruas?

Freud, em seus estudos sobre o comportamento de massas, dizia que, quando uma pessoa está no meio de uma multidão, sua mente inconsciente se liberta do sistema opressor. Segundo ele, isso acontece porque, no calor da multidão, as restrições do superego ficam relaxadas e enfraquecidas. Dessa forma, a pessoa tende a seguir a massa. Se todo mundo está cantando, a pessoa canta também. Se todo mundo dança, a pessoa dança também. Se todo mundo aplaude os fogos de artifício, a pessoa aplaude também. Essa pessoa está se permitindo entregar-se às emoções coletivas, compartilhando uma mesma ideia de transformação social.

Mas as elites brasileiras logo respondem: “E se eu estiver na multidão e alguém derrubar um copo de cerveja na minha roupa nova?”, “E se me empurrarem?”, “Prefiro ficar com pessoas perfumadas”. E o mais forte dos álibis: “E se me roubarem?”.

Steve Reicher, filósofo e especialista em comportamento coletivo, garante que multidões não necessariamente apresentam comportamentos baseados na falta de controle e na violência. Pelo contrário, em uma multidão, de maneira geral, as pessoas compartilham uma mesma ideia e estão ali justamente por essa ideia, seja ela política ou de entretenimento.

Historicamente, as multidões têm desempenhado um papel crucial na luta por justiça social e igualdade. Desde os primórdios das civilizações, multidões têm surgido em resposta a injustiças, desigualdades e opressões. Na Roma Antiga, por exemplo, as multidões se reuniam nos fóruns para exigir melhores condições de vida e participação política. Na Idade Média, as revoltas camponesas e urbanas sacudiram o continente europeu, desafiando o domínio feudal e buscando direitos básicos para os mais desfavorecidos.

Alguns historiadores dizem que a multidão surgiu durante a Revolução Inglesa, quando revolucionários se manifestaram contra a propriedade privada e contra os partidários do exército republicano. Portanto, de um lado, os revolucionários representavam a “multidão” dos que não tinham propriedade e, do outro lado, pessoas representavam o “povo”, aqueles que queriam ter propriedade. Como sabemos, a revolução, claro, decidiu-se a favor dos que tinham propriedade. O lado dos sem propriedade, que era o proletariado, converteu-se em classe operária. Os protestos continuaram, e a multidão passou a ser a “multidão dos pobres”.

O brasileiro Alberto Santos-Dumont é considerado a primeira pessoa famosa no mundo a provocar multidões. Nunca antes dele tantas pessoas se aglomeraram para ver uma única pessoa. No dia 19 de julho de 1906, uma multidão nunca antes vista na história estava no centro de Paris para ver o primeiro voo do 14-Bis. O número de pessoas que se aglomerava para ver o brasileiro era algo inédito na história. Uma pessoa com aquela notoriedade era algo nunca visto antes em nenhum lugar do mundo. Santos-Dumont era a única pessoa do mundo capaz de atrair multidões, formadas por nobres, plebeus, miseráveis, trabalhadores, desempregados, mendigos, reis e rainhas. Isso configurou-se como uma grande novidade, uma grande notícia.

No entanto, as multidões podem, sim, ser esmagadoras e causar sentimentos de ansiedade e estresse, porque estar perto de muitas pessoas desconhecidas pode ser intimidante. O medo de ser julgado ou de não se encaixar pode também ser um fator que explica por que uma pessoa pode não gostar de multidões.

A literatura também reflete a complexidade das multidões. Edgar Allan Poe, em sua obra O homem da multidão, aborda a experiência alienante de se perder em meio a uma massa anônima. Sentado em um dos cafés de Londres, o personagem de Poe fica atônito com a multidão que vê passar. Assim, ele reflete o quão isoladas as pessoas estão, apesar da quantidade de pessoas à sua volta. A multidão de Poe é descrita como confusa, agitada e efervescente. Para ele, a multidão é um ente sombrio e misterioso, capaz de engolir a individualidade dos que nela se encontram.

Em um trecho marcante, ele escreve:

“Que vasta multidão! Que mar de olhos! Que onda de cabeças! Onde está o mar? Os navios espreitam para fora dos confins de um horizonte estreito; mas a multitudinária maré de vida humana que se agita e se debate nas ruas estreitas e tortuosas, como uma vaga de mar em um redemoinho”.

Por fim, vale lembrar que a multidão é uma legítima manifestação pública, que pode, sim, engolir a individualidade dos que nela se encontram. Na multidão, as pessoas, protegidas pelo anonimato, abandonam suas responsabilidades individuais e cedem às emoções contagiosas do povo. Está provado que as elites não gostam de emoções coletivas e, se por acaso até forem a algum protesto, será em alguma praça pública que não frequentam, onde ficarão contidas e dentro da bolha. Não perderão suas individualidades e irão manter o que nelas é privado, particular. Na volta, irão para suas casas, de preferência em condomínios fechados, com muros ao redor.

A mentalidade da burguesia brasileira, classe média ou classe alta, não esconde sua desconexão e desdém pela voz das massas. Sendo assim, que fiquem em casa, dentro da bolha, assistindo à vida pela TV ou pela internet. E, se viajarem para fora do Brasil, podem aprender que multidões são mais do que simples aglomerações de pessoas: são um reflexo da busca coletiva por justiça, igualdade, dignidade e lazer. É hora de romper com a mentalidade elitista e reconhecer o poder transformador das multidões. É na união do povo e na solidariedade que reside a verdadeira força para construir um mundo melhor para todos e todas. E cuidado com as manifestações europeias, porque elas estão cheias de imigrantes, negros, gays, pobres, ricos, turistas, negros e pessoas trans. A elite pode gostar da troca de energia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.