A bunda rica

Diante dos acontecimentos que nem a ficção daria conta, uma dúvida pungente aflorou: Onde se encontram os fundamentalistas do governo que fiscalizam o rabo alheio? Como deixaram passar esse prazer anal capitalista? Ah entendi...por dinheiro, pode. A única certeza que tenho é a de que essa presepada indecorosa ficará, literalmente, nos Anais da História do Brasil

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Sou de um tempo em que “bunda rica” era o nome que se dava àquelas calcinhas infantis em que a parte traseira era ornamentada por rendas e bordados, quanto mais bordados e adereços na calcinha, mais bonita e valorizada era a peça. Tive o privilégio de ter várias e lembro-me como se fosse hoje, que passava as mãozinhas nas rendas e nas continhas, vidrilhos e pérolas que ornamentavam as minhas calcinhas. 

Minha mãe comprava várias quando íamos de férias ao Ceará, numa época em que apenas “turistávamos’ no estado; mais de uma década depois, chegamos de mala e cuia em Fortaleza. Eram macias, de algodão, com rendas de bilro, típicas das rendeiras cearenses. Os bordados eram tão pequeninos e delicados, quanto lindos! Eu amava os enfeites, e vez por outra arrancava algum para insatisfação da minha mãe. 

Uma “bunda rica”, em especial, que eu adorava, era uma vermelha, a mais enfeitada de todas. Os cuidados maternos escolhiam as rendas que fossem de algodão, para que eu não tivesse mais uma alergia, dentre tantas; o que me custou muitas idas aos médicos enquanto criança. As meias também eram enriquecidas com os mesmos ornamentos e não raro, eram vendidas junto à calcinha. 

Minha filha também teve várias. Quando soube que teria uma menina, há 14 anos, segui o mesmo ritual familiar à procura das “bundas ricas” nas bordadeiras da região, para comprar o enxoval da pequena e as calcinhas bordadas. Até hoje guardo algumas como lembrança da sua primeira infância. 

Todavia, desde ontem, na mídia e em redes sociais, uma outra “bunda rica” foi um dos assuntos mais comentados. Não se trata mais da peça íntima infantil que cobre aquele pedaço de carne redondinho, enfeitado de celulite, das bebês. Trato do derrière de um velho corrupto, recheado de dinheiro; o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), vice líder do governo Bolsonaro. O presidente genocida, num passado recentíssimo, declarou em vídeo que tinha “quase união estável” com o senador. Agora, após o evento vexatório, quer se descolar do bundudo. E não duvidem, antes que eu acabe de escrever esse texto, o vídeo será negado e depois apagado pelo governo federal.

Quando soube da história ri, de ódio e de troça, como todo brasileiro comum. Fiquei imaginando os glúteos avantajados e rijos do velhaco; afinal como seria possível guardar R$ 30.000, 00 no traseiro? Mesmo em notas de R$ 200,00, são 150 cédulas, o que não é pouco! Haja bunda! Carla Perez e Gretchen foram humilhadas indiretamente pelo ancião bolsonarista. 

Os jornais do mundo inteiro não perdoaram e mais uma vez, “a nossa pátria mãe tão distraída”, transforma-se em piada mundial. O The Guardian, nos informa que além de absurda a situação, algumas notas estavam emporcalhadas de fezes. O dinheiro, sem metáforas, era sujo ao quadrado. Desculpe-me o mau gosto, mas essa é a energia do país, da mais profunda bazófia. 

Diante dos acontecimentos que nem a ficção daria conta, uma dúvida pungente aflorou: Onde se encontram os fundamentalistas do governo que fiscalizam o rabo alheio? Como deixaram passar esse prazer anal capitalista?  Ah entendi...por dinheiro, pode. Hoje, a única certeza que tenho é a de que essa presepada indecorosa ficará, literalmente, nos Anais da História do Brasil.

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