A caça a Lula virou campanha publicitária

Agora, se Lula não for condenado, alcançará uma vitória de efeitos eleitorais inevitáveis. A caça ao petista se transforma então num fenômeno essencialmente midiático, onde a falta de provas ocupará lugar secundário, mera demonstração de habilidade para o ardil criminoso



Causou ampla estranheza a maneira precipitada e ilegal com que o ataque a Lula foi executado. Por que encenar aquele ridículo teatro de guerra, escancarando as irregularidades da ação? Por que não prenderam o petista de uma vez, já que as suspeitas contra ele supostamente justificavam a própria iniciativa de acossá-lo?

Existiu um fator oportunista na origem do abuso. A Polícia Federal quis reagir à troca do ministro da Justiça. Os procuradores temiam o julgamento do STF sobre seus limites. A Rede Globo precisava de um factóide para reverter a desmoralização inédita, sintomaticamente agravada pela torcida corintiana. E todos estão unidos na propaganda das manifestações golpistas, que andaram meio desmoralizadas.

O fato é que Sérgio Moro, cedendo às urgências dos aliados, evidenciou a fragilidade dos elementos acusatórios contra Lula. Naquelas circunstâncias, o mais leve indício de culpa lhe teria rendido um mandado de prisão, no mínimo para salvar a imagem da pantomima policialesca. Um réu potencial jamais ganharia visibilidade gratuita na mídia e a chance de se apresentar como vítima de perseguição.

A repercussão negativa do episódio marca uma nova etapa do conluio institucional que se esconde sob o rótulo de "operação Lava Jato". Agora, se Lula não for condenado, alcançará uma vitória de efeitos eleitorais inevitáveis. A caça ao petista se transforma então num fenômeno essencialmente midiático, onde a falta de provas ocupará lugar secundário, mera demonstração de habilidade para o ardil criminoso.

Trata-se de minar a imagem do ex-presidente, convencendo a opinião pública, e as cortes em particular, de que puni-lo é um dever cívico e republicano. Uma questão de crença, portanto, e não de rigor técnico. Chamar os advogados de Lula de "a sua defesa", como se ele respondesse a algum processo, constitui exemplo trivial da artimanha no meio jornalístico, de resto escancarada pelo tom emotivo dos noticiários.

É fácil perceber a força dessa narrativa. Em diversas esferas de discussão equilibrada já aparecem lamentos sobre a índole corrupta de Lula, sem quaisquer dados factuais que a comprovem. Pedalinhos e palestras podem não colar, mas a aura delituosa permanece: "não sei por que Lula deve ser preso, mas ele certamente sabe".

Concentra-se aí o novo foco estratégico dos golpistas. Já indiferentes às paixões das ruas, eles precisam garantir apoio ao ritual sacrificatório de Lula, que virou uma questão de honra para os acusadores. O deslize afoito de Moro ecoou mal nos setores moderados do campo jurídico, sem afinidades com a esquerda mas sensíveis a infrações e hipocrisias. Esse é o público-alvo do massacre publicitário que se inicia.

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