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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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A cada 8 de março, volta a pergunta: onde está a justiça para as mulheres?

Mulheres continuam expostas à violência, à desigualdade salarial e à exclusão do poder, e a justiça proclamada pelos Estados não passa de retórica

A cada 8 de março, volta a pergunta: onde está a justiça para as mulheres? (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Imagine uma ponte construída para atravessar um abismo profundo. Metade das vigas é sólida, calculada, cuidadosamente posicionada. A outra metade foi negligenciada durante séculos. Quem atravessa essa ponte caminha sobre uma promessa incompleta. Em algum ponto do percurso, a estrutura começa a ranger. Não por acaso. Uma ponte nunca se sustenta quando apenas metade dela foi levada a sério. Assim também funcionam as sociedades que proclamam justiça enquanto toleram desigualdades estruturais entre homens e mulheres.

A palavra justiça atravessa séculos de pensamento político, religioso e filosófico com peso quase absoluto. Ainda assim, raramente é examinada com a profundidade que merece. Em muitos países, tornou-se um ornamento retórico: aparece em discursos oficiais, relatórios institucionais e tratados internacionais, mas permanece distante da experiência cotidiana de milhões de pessoas.

Os escritos sagrados bahá’ís oferecem uma advertência direta: nenhuma luz se compara à luz da justiça, pois dela dependem a ordem do mundo e a tranquilidade das nações. A frase não pertence ao território da abstração moral. Ela descreve um mecanismo social concreto. Quando a percepção de justiça desaparece, a confiança coletiva começa a se dissolver.

A irritação crescente que atravessa diversas sociedades nasce exatamente desse ponto. Regras aplicadas de forma seletiva, privilégios herdados e instituições incapazes de corrigir distorções alimentam uma sensação difusa de fraude sistêmica. O contrato social passa a parecer manipulado. Quando essa percepção se instala, a estabilidade institucional começa a se erodir.

Nesse cenário, a desigualdade de gênero surge como uma das evidências mais persistentes de injustiça estrutural. Durante gerações, mulheres foram empurradas para a periferia da vida econômica, política e social. Discriminação salarial, violência doméstica, exploração laboral e exclusão das esferas de decisão formam um padrão histórico difícil de contestar.

A 70ª sessão da Commission on the Status of Women das Nações Unidas colocou esse problema no centro do debate internacional ao priorizar o fortalecimento do acesso à justiça para mulheres e meninas. O objetivo parece evidente: sem mecanismos reais de proteção jurídica, a igualdade de direitos permanece uma promessa formal.

Nos últimos anos, alguns avanços foram registrados. Diversos países endureceram leis contra a violência doméstica, ampliaram políticas de proteção às vítimas e começaram a revisar normas discriminatórias relacionadas ao trabalho, à herança e à propriedade da terra. Tribunais nacionais e cortes internacionais também passaram a incorporar maior presença feminina.

Ainda assim, a distância entre legislação e realidade continua gritante. Normas podem ser aprovadas com relativa rapidez; mentalidades levam décadas para mudar. Em muitas regiões, o arcabouço jurídico avança enquanto práticas sociais permanecem presas a padrões antigos de poder e hierarquia.

Essa discrepância revela um equívoco recorrente: acreditar que a justiça se esgota no funcionamento de tribunais. Leis são instrumentos necessários, mas insuficientes. Quando indivíduos não internalizam os princípios que essas leis pretendem proteger, as normas tornam-se frágeis diante da cultura dominante.

Por essa razão, cresce entre pesquisadores e organizações sociais a percepção de que a própria ideia de justiça precisa ser ampliada. Mais do que um sistema de punições e reparações, ela deve ser entendida como um princípio estruturante das relações humanas.

Essa abordagem mais ampla inclui dimensões frequentemente ignoradas. A justiça também envolve a busca honesta pela verdade em contextos complexos, a capacidade de comunidades definirem seus próprios caminhos de desenvolvimento e a reconstrução de vínculos sociais danificados por longos períodos de desigualdade.

Experiências recentes oferecem pistas concretas sobre esse processo. No Brasil, uma iniciativa inspirada nos princípios bahá’ís reuniu centenas de participantes de universidades, governos municipais, organizações sociais e comunidades religiosas para discutir os fundamentos culturais da justiça.

Organizados em encontros contínuos sob o tema “Construindo uma perspectiva para uma sociedade mais justa”, esses fóruns buscaram algo incomum: examinar valores culturais que alimentam desigualdades persistentes. Entre eles, o culto ao consumo ilimitado, a competição permanente e a glorificação do sucesso individual a qualquer custo.

Ao confrontar esses padrões, muitos participantes reformularam a própria compreensão de dignidade humana. Direitos individuais continuam essenciais, mas passaram a ser vistos como parte de um quadro mais amplo de responsabilidades coletivas. A dignidade floresce quando indivíduos participam de comunidades que valorizam a contribuição mútua e o bem-estar compartilhado.

Outro aspecto importante dessas discussões foi romper com um hábito institucional comum: organizações sociais frequentemente competem entre si por visibilidade e financiamento. Os encontros procuraram substituir essa lógica por cooperação deliberada.

Os resultados foram perceptíveis. Participantes relataram maior clareza estratégica e novos canais de colaboração entre iniciativas antes isoladas. O debate sobre justiça deixou de ser apenas teórico e começou a influenciar práticas concretas.

Esse tipo de experiência sugere caminhos para a própria arquitetura da governança internacional. Em vez de se limitarem à produção periódica de resoluções, fóruns multilaterais poderiam estimular processos contínuos de reflexão sobre os fundamentos éticos da justiça.

A urgência desse movimento torna-se evidente diante das correntes políticas que hoje ganham força em diversas partes do mundo. Discursos que relativizam a igualdade de gênero, a verdade factual e a integridade institucional reaparecem com intensidade crescente.

A história mostra que sociedades que abandonam esses princípios acabam pagando um preço elevado. A curto prazo, podem produzir estabilidade aparente. A médio prazo, produzem tensão acumulada.

Reimaginar a justiça tornou-se, portanto, tarefa estratégica. Não apenas para proteger mulheres e meninas, mas para restaurar a própria credibilidade das instituições públicas.

Porque, no fim das contas, a metáfora inicial permanece inevitável. Uma sociedade que constrói sua justiça ignorando metade da humanidade continua caminhando sobre uma ponte incompleta — e estruturas incompletas, cedo ou tarde, cedem sobre o abismo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.