A carnavalização da política

"O carnaval voltou para onde nasceu para desespero dos governantes, cantando novamente as agruras políticas do país e na Avenida, se não acompanhar essa tendência, acaba virando mesmo um show para gringo ver", diz o colunista Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia

Charge de Miguel Paiva
Charge de Miguel Paiva (Foto: 247)
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Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia - Marchinhas de carnaval sempre revelaram seu lado crítico às instituições e aos costumes. "Me dá um dinheiro aí", "Cabeleira do Zezé" e outras, em tempos de politicamente incorreto, eram cantadas e nos sentíamos de uma certa forma participando do momento histórico dando voltas no salão.

Todos os governantes foram retratados por estes sucessos, para o bem ou para o mal e o país continuou sua vida tendo no Carnaval o momento onde a história do país era criticada de maneira bem humorada. Eram outros tempos em tudo. Durante um bom período, já na parte final do século passado, o carnaval de rua do Rio foi um pouco abandonado. Havia o desfile das Escolas de Samba e o carnaval de rua, na Av. Rio Branco, era quase que uma manifestação proforma pra se dizer popular. O povo não conseguia nem ir na Sapucaí, e na Rio Branco, o que sobrava era pouco. Tanto é que se dizia, nessa época, que carnaval mesmo era na Bahia. Hoje continua sendo na Bahia, nas ruas do Rio, de BH e sobretudo de São Paulo. 

O carnaval voltou para onde nasceu para desespero dos governantes, cantando novamente as agruras políticas do país e na Avenida, se não acompanhar essa tendência, acaba virando mesmo um show para gringo ver. Mas as escolas de samba são populares. Conseguem ainda em tempo reverter essa história e continuar representando o que o povo pensa. Algumas pensam até mais para o lado de lá, mas a maioria, desde Joãozinho Trinta, Fernando Pamplona e mesmo Paulo Barros se mantém ligadas ao que o povo verdadeiramente quer dizer.

Hoje o país está totalmente carnavalizado na política. São eles, os governantes que estabelecem a comissão de frente, o samba enredo, as alegorias e a desarmonia das alas. É um desfile maluco que nem Stanislaw Ponte Preta conseguiria decifrar. A ala das milícias, das fake news, da mamata que continua, das goiabeiras, das mamadeiras de pirocas toma conta da avenida e o povo ao invés de cantar, vaia inconscientemente enquanto repassa na cabeça o que diz o samba da Mangueira.

O momento que vivemos é o exemplo de como o povo é mais sábio do que os tiranos. Essa sabedoria vem da luta e da opressão que eles exercem sobre nós. A ditadura não traz sabedoria para quem a exerce e sim para quem a sofre. Vamos continuar desfilando apesar das máscaras de carnaval caindo, das evoluções destrambelhadas, da voz desafinada e dissonante que a Escola de Samba Unidos ao Bolsonaro traz para o desfile. 

Poderemos um dia, quem sabe, contar através de um enredo esse momento triste que vivemos. Na nossa memória terá servido como exemplo para não mais permitirmos que se repita e na avenida será cantado por quem sofreu seus descaminhos. Teremos a ala dos LGBTs, a bateria formada por negros e índios, a ala das baianas, sempre baianas como manda a tradição, os carros alegóricos empurrados por trabalhadores felizes e ilustrando com cores, flores e efeitos o que hoje os carros armados tentam impor como padrão para nossas alegorias. Não vamos deixar. O samba enredo vai ser alegre, com final feliz apesar das passagens tristes que desde os nossos ancestrais não vivíamos. 

Lembraremos com emoção o que não devemos esquecer. Cantaremos bem alto para que nossa voz não se cale nunca mais e dançaremos muito, todos os dias exercendo nosso direito de ir, vir, pular, gritar, mudar de ideia, trocar de par, trocar de sexo, trocar de partido para não termos que morrer, tristes, na quarta-feira de cinzas.

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