A carta de Palocci

Uma epifania tomou de assalto Palocci e lhe permitiu compreender a essência das coisas. Esta revelação da verdade só veio depois de longo período na cadeia e sem qualquer perspectiva de um julgamento justo

Palocci é escoltado por policiais em Curitiba. 26/9/2016. REUTERS/Rodolfo Buhrer
Palocci é escoltado por policiais em Curitiba. 26/9/2016. REUTERS/Rodolfo Buhrer (Foto: Gerson Almeida)

Na história do movimento socialista, há incontáveis casos de delações feitas por militantes que não suportaram as mais diferentes formas de tortura física e/ou psicológica. Esses foram subjugados pelos carcereiros e passaram, depois de severamente fragilizados, a dizerem aquilo que fosse necessário para que sua aflição tivesse fim.

Antes de falar no Palocci, é esclarecedor comparar os casos de Vaccari e de José Dirceu, dois dirigentes que apesar de terem sido presos e submetidos a um processo cruel de tentativa de desmoralização, não se subjugaram aos seus algozes. Atitude política e moral que tem lhes custado caro. Vaccari continua preso, mesmo que já tenha sido absolvido em dois processos na segunda instância, por total ausência de provas; contra Dirceu, foi preciso realizar uma das maiores perversões jurídicas e, na falta de provas, apelar para a literatura para condená-lo.

Não fosse indignante, este episódio poderia ser visto como o momento em que o mundo jurídico foi dominado pelo universo do teatro. Dirceu e Vaccari estão sofrendo as consequências da irresignação que todos os torturadores têm da grandeza moral daqueles que, mesmo numa situação limite, não são por eles submetidos.

Palocci, por sua vez, não frustrou seus carcereiros e algozes. Inicialmente ainda parecia constrangido e comedido em satisfazer o desejo dos seus carcereiros, única maneira ao seu alcance capaz de lhe propiciar a saída da prisão e, ainda, lhe assegurar boas vantagens econômicas. Como a figura de uma pessoa constrangida não ajuda a dar credibilidade para ninguém, foi preciso escrever uma carta diretamente ao PT, na qual segue à risca o roteiro encomendado. Não falta, sequer, o tom professoral de bom garoto seduzido por pessoas más, que errou, mas quer reencontrar o caminho da verdade.

Uma epifania tomou de assalto Palocci e lhe permitiu compreender a essência das coisas. Esta revelação da verdade só veio depois de longo período na cadeia e sem qualquer perspectiva de um julgamento justo. Ingredientes que combinados são um poderoso "caldo de cultura" para que aconteçam revelações divinas e a sensação de que, agora, diante do juiz-algoz, ele finalmente foi capaz de compreender que só há um caminho para a salvação.

Como a salvação precisa de pureza, é preciso abdicar de tudo aquilo que disse antes, dos constrangimentos que ainda mostrou da primeira audiência e decidir "incendiar os navios" para demonstrar que este novo caminho não tem volta, pois já está completamente subjugado.

O gozo dos carcereiros não é dominar o corpo que já está sob o seu controle. Sua verdadeira conquista é subjugar a alma daqueles que pactuam com o diabo travestido de juiz. A alma do Palocci foi entregue na forma de uma carta.

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