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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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A China reescreve o jogo que os Estados Unidos tentam repetir desde o Japão

Decisões precipitadas ou personalistas hoje funcionam como gatilhos para crises amplificadas em uma economia interdependente

Bandeiras dos EUA e da China em foto de ilustração - 10/04/2025 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

A história econômica recente mostra que grandes inflexões raramente nascem do acaso ou de supostas fatalidades de mercado; elas são fruto de decisões políticas deliberadas, sustentadas por interesses estratégicos e executadas com precisão cirúrgica. Em 1985, o rearranjo imposto à economia japonesa não foi apenas um ajuste cambial negociado em Nova York, mas um movimento coordenado para redefinir a competitividade global.

Ao longo de décadas como professor universitário, examinando criticamente os movimentos da globalização e dissecando obras como O Horror Econômico, de Viviane Forrester, consolidou-se a percepção de que nenhuma nação sustenta prosperidade isolada e que a interdependência entre povos não é escolha, mas imposição histórica, estrutural e irreversível do sistema econômico contemporâneo, marcado por assimetrias profundas, choques recorrentes, dependências cruzadas e disputas permanentes por poder, tecnologia e recursos.

Nas últimas semanas, dediquei atenção rigorosa à comparação entre dois momentos que expõem a lógica do poder global: os Estados Unidos e o Japão de ontem, e os Estados Unidos e a China de hoje. A análise rejeitou paralelos simplistas e avançou sobre evidências concretas, tensões acumuladas e rupturas silenciosas, revelando que a ordem econômica internacional atravessa uma inflexão decisiva, onde antigos mecanismos de contenção já não garantem controle e podem, paradoxalmente, acelerar a redistribuição global de poder.

Quando o dólar cedeu sob pressão

O Acordo de Plaza foi firmado em 22 de setembro de 1985, no Hotel Plaza, em Nova York, reunindo Estados Unidos, Japão, Alemanha Ocidental, França e Reino Unido. Naquele momento, a Casa Branca era ocupada por Ronald Reagan, enquanto o Japão era governado pelo primeiro-ministro Yasuhiro Nakasone. Duas decisões centrais emergiram dali: a desvalorização coordenada do dólar frente ao iene e ao marco alemão, e a intervenção concertada dos bancos centrais para garantir essa reconfiguração cambial. O efeito foi imediato. O iene saltou de cerca de 240 por dólar para níveis próximos de 120 em menos de dois anos.

À época, o Japão respondia por cerca de 10% do PIB mundial e acumulava superávits comerciais robustos com os Estados Unidos, acima de US$ 40 bilhões anuais. A percepção de que Washington teria “liquidado” o Japão simplifica um processo mais complexo, embora capture a essência de um gesto de força: quando uma potência se vê ameaçada em sua posição, mobiliza instrumentos capazes de alterar o ambiente econômico global.

O império japonês bateu à porta

O Japão não avançava apenas nos automóveis. A Toyota refinava o sistema just-in-time e pressionava gigantes como General Motors e Ford. No setor de eletrônicos, Sony, Panasonic e Toshiba redefiniam padrões globais. Mas foi no audiovisual que o sinal de alerta soou mais alto. Em 1989, a Sony adquiriu a Columbia Pictures por US$ 3,4 bilhões. Pouco depois, a Matsushita compraria a MCA/Universal por cerca de US$ 6,6 bilhões. Hollywood, símbolo da hegemonia cultural americana, começava a ser parcialmente controlada por capital japonês.

Essa expansão não era apenas econômica; era simbólica. O Japão deixava de ser um exportador eficiente para se tornar um competidor sistêmico, capaz de adquirir ativos estratégicos dentro dos próprios Estados Unidos. O déficit comercial americano ultrapassava US$ 150 bilhões. O ambiente político tornou-se inflamado.

Pequim responde com silêncio calculado

O silêncio da China, observado hoje por analistas inquietos, precisa ser interpretado fora da lógica imediatista. Em política internacional, a ausência de resposta pública não implica passividade. Ao contrário, frequentemente indica uma fase de reorganização interna, revisão de rotas e acúmulo de margem de manobra.

Quando aliados são pressionados, cadeias energéticas sofrem interferências e tarifas se elevam — como ocorreu com tarifas sobre mais de US$ 360 bilhões em exportações chinesas desde 2018 — não se trata de eventos desconexos. Há coerência implícita. O foco recai sobre setores críticos como semicondutores, inteligência artificial e telecomunicações, onde empresas como Huawei e SMIC enfrentam restrições diretas.

O erro que custou décadas

Os efeitos do Plaza foram rápidos. A valorização do iene reduziu drasticamente a competitividade japonesa. O Banco do Japão respondeu com liquidez. Juros foram reduzidos de 5% para níveis próximos de zero ao longo dos anos seguintes. O crédito expandiu, mas não para a produção. Inflou ativos.

O índice Nikkei saltou até 39 mil pontos em 1989 antes de colapsar. Imóveis em Tóquio atingiram valores comparáveis a territórios inteiros dos Estados Unidos. Quando a bolha estourou, iniciou-se uma longa estagnação, marcada por deflação persistente.

Nesse ambiente surgiu o carry trade. O mecanismo é simples na aparência, mas profundo em suas consequências: investidores tomam empréstimos em moedas com juros baixos — como o iene — e aplicam em ativos com rendimentos mais altos, como títulos do Tesouro americano. A diferença entre o custo do empréstimo e o retorno do investimento gera lucro. Esse processo drenou capital japonês por décadas, financiando mercados externos enquanto fragilizava a economia doméstica.

Infraestrutura é poder bruto

Diante desse histórico, olhar para a China exige precisão analítica. A Iniciativa Cinturão e Rota, frequentemente chamada de nova Rota da Seda, é um projeto geoeconômico lançado em 2013 que busca recriar e expandir antigas rotas comerciais que ligavam a Ásia à Europa. O “cinturão” refere-se às rotas terrestres, conectando a China à Europa por ferrovias e corredores logísticos; a “rota” marítima envolve portos e vias oceânicas que passam pelo sudeste asiático, África e Mediterrâneo.

Esse projeto já mobilizou mais de US$ 1 trilhão em investimentos, envolvendo mais de 140 países. Não se trata apenas de comércio, mas de integração física e financeira. Ferrovias no Quênia, portos no Paquistão, corredores logísticos na Ásia Central. É uma arquitetura de influência.

Nos últimos vinte anos, a economia chinesa saltou de US$ 2,3 trilhões para mais de US$ 17 trilhões. Shenzhen tornou-se um polo tecnológico com mais de 17 milhões de habitantes. Xangai consolidou-se como centro financeiro global. Hangzhou abriga a Alibaba e ecossistemas digitais avançados. Chongqing transformou-se em um dos maiores centros industriais do mundo.

Essa urbanização se apoia em obras de escala inédita. A rede de trens de alta velocidade ultrapassa 40 mil quilômetros. A Ponte Hong Kong–Zhuhai–Macau conecta regiões estratégicas com 55 km de extensão. Para efeito de comparação, a segunda maior ponte do mundo em extensão contínua sobre água, a Danyang–Kunshan Grand Bridge — também na China — possui cerca de 164 km, mas inclui longos trechos ferroviários elevados sobre terra firme; já em travessia marítima direta, a Jiaozhou Bay Bridge, com aproximadamente 42 km, é a que mais se aproxima da escala marítima da Hong Kong–Zhuhai–Macau. O custo total desta última superou US$ 18 bilhões, envolvendo túneis submersos, ilhas artificiais e engenharia de precisão para suportar ventos, correntes e intenso tráfego marítimo.

A Usina de Três Gargantas gera mais de 22.500 megawatts de capacidade instalada, número que, por si só, exige tradução concreta: trata-se de energia suficiente para abastecer dezenas de milhões de residências, equivalente a mais de 15 usinas nucleares de porte médio operando simultaneamente. A usina hidrelétrica de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai, com cerca de 14.000 megawatts, é a que mais se aproxima em escala, mas ainda significativamente inferior. O custo total das Três Gargantas ultrapassou US$ 30 bilhões, com impacto direto no controle de enchentes, navegação fluvial e geração de energia em larga escala.

Já o sistema BeiDou, muitas vezes pouco compreendido fora dos círculos técnicos, é a resposta chinesa ao GPS americano. Trata-se de uma constelação de mais de 30 satélites que oferecem posicionamento global, navegação e sincronização de dados com alta precisão. Seu desenvolvimento custou dezenas de bilhões de dólares e garante à China autonomia estratégica em setores críticos como defesa, logística e telecomunicações, reduzindo dependências externas em um ambiente de crescente rivalidade tecnológica.

Fibra óptica virou campo de guerra

Em 1985, a China praticamente não figurava no mapa da fibra óptica. A tecnologia estava concentrada nas mãos de gigantes americanos e japoneses — AT&T Bell Labs, Corning, Fujitsu, Sumitomo Electric e Furukawa Electric (atual Lightera) — que controlavam pesquisa, produção e os próprios padrões globais da fibra óptica. O país importava equipamentos e possuía infraestrutura limitada. Quatro décadas depois, o cenário é radicalmente distinto.

A China lidera hoje a implantação global de redes de fibra óptica, com mais de 60% das conexões domésticas baseadas nessa tecnologia, segundo a União Internacional de Telecomunicações. Empresas como Huawei, ZTE e FiberHome tornaram-se protagonistas globais. O país construiu a maior rede de banda larga do mundo, conectando centenas de milhões de residências e sustentando o avanço do 5G e da computação em nuvem.

Esse domínio não é apenas tecnológico; é estratégico. Infraestrutura de dados tornou-se tão relevante quanto energia ou transporte.

O G7 perde terreno visível

Enquanto isso, o peso relativo do G7 diminuiu. Nos anos 1990, representava mais de 60% do PIB global. Hoje gira em torno de 40%. Em contraste, os BRICS ampliados já superam 30% do PIB global em paridade de poder de compra e concentram cerca de 45% da população mundial.

A ampliação do bloco com países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos reforça sua capacidade energética e financeira. Sistemas alternativos ao SWIFT, acordos em moedas locais e compras de ouro indicam uma tentativa de diversificação da arquitetura financeira global.

O erro de leitura pode custar caro

A comparação com 1985 exige cuidado. O Japão era aliado. A China não é. O Japão dependia da proteção americana. A China construiu autonomia militar, tecnológica e financeira. O mundo daquela década era mais previsível, menos fragmentado, com cadeias produtivas mais concentradas.

O desfecho desse processo não será determinado por um único acordo ou evento, mas por uma sequência de decisões que se acumulam ao longo do tempo. A diferença central está no fato de que a China dispõe hoje de instrumentos que o Japão não possuía: escala, autonomia política e capacidade de diversificação estratégica.

A história não se repete como roteiro fechado, mas como campo de disputa. Em 1985, uma decisão reconfigurou décadas. Em 2026, insistir na mesma lógica diante de um adversário estruturalmente distinto pode não conter seu avanço — pode, ao contrário, acelerar uma redistribuição de poder que escapa ao controle de quem acredita ainda operar sob as mesmas condições de temperatura e pressão de quarenta anos atrás.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.