A coerência do general

Preocupante, além do tratamento dado à língua pátria, é o conceito que tem de "ética" e do "interesse público". O que não surpreende, porém, é o fecho dado ao seu comentário: "Expresso o respeito e a confiança no ministro Sérgio Moro". Aguardemos as próximas matérias de "The Intercept", escreve Denise Assis, Jornalista pela Democracia

A coerência do general

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

No dia 3 de abril de 2018, quando os ânimos no país o assemelhavam a um caldeirão fervente, o então chefe do Comando Maior do Exército, general Villas Boas, saiu de seus cuidados para jogar álcool na churrasqueira. Primeiro, servindo-se do Twitter, fez um comentário que poderíamos chamar ou de "genérico", ou de "comedido". Usando algo em torno de 25 palavras, postou um texto sobre as suas preocupações com o futuro da pátria que jurou defender, ao entrar para as Forças Armadas.

"Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?"

Dado o sucesso da postagem, 45 minutos depois assanhou-se e resolveu mandar um recado ao Supremo Tribunal Federal, prestes a julgar um habeas corpus que poderia beneficiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e colocá-lo no páreo de uma eleição em que liderava as pesquisas para retornar ao cargo de presidente. Quando avistou a possibilidade no horizonte, Villas Boas não conversou. Amparado nas curtidas ao seu Twitter anterior, e no "perigo" que se avizinhava, de ver de volta Lula em Brasília, foi mais direto. Redigiu nova mensagem.

(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)

Desta vez, verdadeira ameaça ao STF e aos brasileiros de maneira geral. Nela não havia meias palavras. Ou se mandava Lula para a prisão, tirando-o do páreo ou, assegurava ele à Nação: "o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais."

Havia no ar mais que aviões de carreira. E tanto foi assim que a TV, na torcida pelo "Brasil que a gente quer", tratou de reproduzir na íntegra e em destaque, em seu principal noticiário, o texto do comandante.

O resultado, todos nós sabemos qual foi e não são poucos os que estão sentindo na pele suas consequências. Basta lembrar os 13,1% de desempregados país afora e o crescimento previsto por economistas das instituições financeiras, em vergonhoso índice de 1%.

No dia 7 de novembro de 2018, logo após o segundo turno da eleição, o general Villas Boas concedeu entrevista a um jornalista da Folha de São Paulo. Sem demonstrar nenhum arrependimento sobre sua atitude, e até mesmo considerando que "salvou" o país, daquilo que sempre alegam (e de tão cansativo nem vou repetir), confessou:

"Eu reconheço que houve um episódio em que nós estivemos realmente no limite, que foi aquele tuíte da véspera da votação no Supremo da questão do Lula." E prosseguiu, sem ser questionado sobre que "limite" foi este.

(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)

Jamais teremos, também, a explicação sobre o que quis dizer com "a coisa" que poderia "fugir" ao controle do Exército, se ele se "expressasse" ... "Ali, nós conscientemente trabalhamos sabendo que estávamos no limite. Mas sentimos que a coisa poderia fugir ao nosso controle se eu não me expressasse. Porque outras pessoas, militares da reserva e civis identificados conosco, estavam se pronunciando de maneira mais enfática. Me lembro, a gente soltou [o post no Twitter] 20h20, no fim do Jornal Nacional, o William Bonner leu a nossa nota", comemorou o general, naquele 7 de novembro, à Folha...

Eis que, tempos depois, Villas Boas, O ex-comandante do Exército, hoje na condição de assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), nesta terça-feira (11), pôde dizer mais à vontade ainda, o que pensa, (mais uma vez, pelo Twitter). Ao fazê-lo, comentou o óbvio, que o país vive um "momento preocupante". E alertou para o perigo de que "a insensatez e o oportunismo tentem esvaziar a "operação lava a jato" (sic), "que é a esperança para que a dinâmica das relações institucionais em nosso país venham (sic) transcorrer no ambiente marcado pela ética e pelo respeito ao interesse público." Preocupante, além do tratamento dado à língua pátria, é o conceito que tem de "ética" e do "interesse público". O que não surpreende, porém, é o fecho dado ao seu comentário: "Expresso o respeito e a confiança no ministro Sérgio Moro". Aguardemos as próximas matérias de "The Intercept".

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

247 faz apelo por debate responsável na internet

Conheça a TV 247

Mais de Blog

Ao vivo na TV 247 Youtube 247