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Ronaldo Lima Lins

Escritor e professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ

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A comissão da (falta de) ética

Lá estamos diante de uma espécie de confraria que reúne gente de baixo nível e políticos que se esmeram em demonstrar comportamentos condenáveis

Carla Zambelli (Foto: Lula Marques/EBC)

Não resta dúvida. Só pode haver qualquer coisa de podre no reino da Dinamarca da Praça dos Poderes em Brasília. A quebradeira do patrimônio público já parecia ter atingido o limite dos limites. No entanto, não atingiu. Como se imagina, há o pior do pior. E, de repente, na Comissão de Ética e Decoro Parlamentar, parece que nos excedemos. Note-se que lá estamos diante de uma espécie de confraria que reúne a um só tempo gente de baixo nível e políticos que se esmeram em demonstrar comportamentos condenáveis. Primeiro, demorou-se a instalar a tal da Comissão. Finalmente, com seus quadros já definidos e candidatos na fila para pesadas punições, eis que, numa assembleia de compaixão, o plenário se uniu entre seguidores de São Francisco e perdoou os infratores numa só penada.

Discursos a favor de uns e de outros se revelaram notáveis. A jovem Julia Zanatta gritava segurando uma foto com a aparente prova do suposto assediador, sem sensibilizar ninguém. Mas com certeza o impressionante, com o aspecto de serena e racional saída, foi o voto do deputado Washington Quaquá. Ele defendia a profilaxia do perdão. Alegava que, daquela vez, todos deveriam escapar das condenações, comprometendo-se, como bons alunos, a um comportamento impecável daí por diante. Carla Zambelli que se pendurava por um fio, depois de haver ofendido o deputado Duarte, louca para se ajoelhar e se penitenciar, estremeceu de alegria. O mesmo acontecia com o outro que, em tribuna, escandalizara com uma peruca autodenominando-se de “Nicole”, para ferir de morte gays e transexuais. Aliás, sequer se desculpou. Amparando-se em sua pouca idade, dava-se ao luxo de ostentar arrogância. Achava-se certo de que não perderia o mandato.

Com larga experiência no Congresso, Chico Alencar não derramou uma lágrima, apesar de constatar que presenciara uma sessão de horrores. Desperdiçava-se a chance de tomar atitudes que dignificassem em vez de desmoralizar o parlamento, ainda por cima com sinais de um cristianismo cínico. Um observador rigoroso confirmaria ser este o resultado de um estranho fenômeno eleitoral que escolhera gente selecionada nas categorias do escândalo.

Como dirigente de um partido alvo de campanhas sucessivas por parte de uma das arroladas nos processos, não se imaginava que o Quaquá viesse a utilizar aqueles argumentos. Além dos palavrões costumeiros, ela perseguira armada nas ruas de São Paulo um jornalista por causa de frívolas discussões políticas. Seria a primeira vez na história do sistema penal que uma “medida profilática” daquela envergadura viria a resultar no esvaziamento de infratores nos recintos que os reunissem. Não será necessário para o país aguardar que quadros políticos da estirpe reincidam nas suas faltas dentro de um rápido lapso de tempo. Trata-se de uma tragédia anunciada.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.