A comunista e o banqueiro

A candidata comunista Manuela D'Ávila apareceu na sondagem do fim de semana na média dos 2%, emparelhada, à esquerda, com pesos pesados como Fernando Haddad e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, à direita. Se eles são considerados com chance, por que não a candidata do Partido Comunista?

11/12/2015 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista exclusiva com a deputada estadual Manuela D'ávila. Foto: Caroline Ferraz/Sul21
11/12/2015 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista exclusiva com a deputada estadual Manuela D'ávila. Foto: Caroline Ferraz/Sul21 (Foto: Leopoldo Vieira)

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, em entrevista à Folha de SP, foi curto e grosso: Geraldo Alckmin não será o candidato da centro-direita porque, para isso, precisa defender o conjunto da obra governista.

Muitos podem vê-lo defendendo a própria candidatura. Meirelles pontua nas pesquisas, como a última do Datafolha, na margem do 1%. No entanto, acredita que os resultados graduais da economia poderão alavancar um herdeiro de Temer, furando a polarização, que vende como extremista, entre Lula e Bolsonaro.

Se isso pode ser verdade, então é útil olhar para o lado reverso. A candidata comunista Manuela D'Ávila apareceu na sondagem do fim de semana na média dos 2%, emparelhada, à esquerda, com pesos pesados como Fernando Haddad e o próprio Meirelles, à direita.

Se eles são considerados com chance, por que não a candidata do Partido Comunista?

A diferença é que ela não possui nenhum recall como os dois e, jovem demais em relação aos outros postulantes até agora, é recém-lançada. E melhor: não tem passado. O que, sem dúvida, é um ativo quando há um percentual grande de eleitores clamando por um nome novo ou indeciso se Lula for tirado da disputa.

Se considerado apenas formalmente, um outsider tem que ser alguém que saiu de casa direto para a política. Porém, se for alguém que não era um player do establishment e desenvolveu sua trajetória por fora do sistema político, Manuela pode ser incluída entre os outsiders.

No Chile, uma candidatura com este perfil surpreendentemente cresceu a ponto de derrotar a pretensão da direita de vencer no primeiro turno e, tudo indica, aliada à centro-esquerda no segundo, deixará o pinochetismo no quase. Santiago provou que esse fenômeno não se circunscreve à direita, com seus Trumps e Le Pens, sobretudo na América Latina de tanta desigualdade e reversão efêmera e recente da pobreza.

Se os 20% de Jair Bolsonaro são, em grande parte, de crentes em que o comunismo é sinônimo de tudo que balance a bandeira da justiça social e dos direitos humanos, logo a margem de crescimento de Manuela, também por isso, é elástica.

Sem verborizar contra Lula e sendo de um partido que compõe o legado do ex-presidente, além dos atributos supracitados, a gaúcha tem plenas condições de deixar para trás nomes do PSOL e até mesmo superar Ciro Gomes, que é mais recall do que viabilidade. Aliás, esta pode ser uma grande meta a ser alcançada até março/abril.

Basta combinar com uma boa capacidade propositiva, isto é, conseguir apresentar não mais slogans e símbolos, mas algumas propostas concretas, realistas e exequíveis para o desemprego e para a crise fiscal, por exemplo.

Partindo de Manuela e seu partido, sem dúvida será a atenção necessária a ser chamada para crescer, realizando a profecia de Luiz Inácio de que ela poderia ser o "caminho do meio". Novamente, por que só a direita colheria está condição a partir da pregação sofista de que dois extremos populistas competem e se retroalimentam hoje?

Se esta idéia martelada pela centro-direita vingar, porque ainda indispõe de espaço social real, Manuela pode perfeitamente surfar nela, sem que preciso corroborar com a falácia.

O mais provável da entrevista de Meirelles à Folha é que ele esteja passando um recado, sem meias palavras, ao tucanato (e com respaldo de Serra, Neves e cia.).

Manuela, por sua vez, diz que é para valer. Então, hora de mostrar mesmo a que veio.

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