A condição do “token” no contexto da guerra híbrida da extrema-direita

Atualmente tenho dito que venho sendo usada como uma espécie de "token", isto é, um número, uma senha para desencadear o ódio na turba

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(Foto: OSWALDO CORNETI/FOTOS PÚBLICAS)


Infelizmente, às vezes tenho que falar de mim mesma. Costumo usar meu exemplo porque sou testemunha e cobaia dos processos fascistas enquanto, ao mesmo tempo, sou estudiosa do tema há décadas. Ocupando essa tripla posição, eu suponho que minhas colocações possam ter alguma validade na compreensão do que vivemos hoje como sociedade. Evidentemente, se isso não importar a muita gente, pelo menos terei deixado anotadas algumas linhas críticas contra a cultura autoritária. De qualquer forma, agradeço a quem seguir com a leitura. 

Analisar o meu próprio caso tem me levado a compreender estratégias da guerra híbrida. Atualmente, tenho dito que venho sendo usada como uma espécie de « token », isto é, um número, uma senha para desencadear o ódio na turba. Evidentemente pessoas infinitamente mais conhecidas do que eu, como Lula, Dilma Rousseff, Manuela D’Ávila e Jean Wyllys, são usados também como token, mas eu não teria percebido isso sem ter vivido na pele e podido observar o fenômeno a partir do meu lugar, do qual posso dizer que é estranhamente especial, a saber, o de professora de filosofia comprometida com a compreensão dos processo de pensamento e de poder. 

Recebo ataques de ódio há bastante tempo, mas venho notando que há ondas diferentes de intensidade ao longo das épocas. Atualmente, noto uma mudança de intensidade que, desde o ano passado, que me faz lembrar do ano de 2018 quando, coletivamente, ainda não entendíamos muito bem o que estava se passando na esfera política. Pois bem, há alguns meses, chegam-me notícias de vários candidatos e até candidatas que vem me usando para causar polêmica e, desse modo, engajamento em suas redes. Assim, postagens que eu faço nas redes sociais, são constantemente recortadas e usadas por políticos. Noto que a minha imagem é usada pela extrema-direita como se fosse um estereótipo da esquerda e do PT a partir da qual agentes ansiosos por propaganda, teriam um motivo para produzir agitação digital e chamar atenção par si mesmos a partir de mim.

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A posição do token a qual me refiro, coloca uma pessoa como eu - alguém que escreve e fala publicamente - como uma espécie de gatilho cuja aparição tem a função de acionar o ódio. Assim, a extrema-direita instrumentaliza isso com fins pragmáticos. Muito desse ódio não me chega diretamente, outro tanto me chega através de mensagens privadas. Farão certamente o mesmo com outras pessoas, mas creio que quanto mais o tempo passa, há algo de específico no que eu venho sofrendo e que merece atenção. 

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É compreensível que haja tais ataques, pois sou uma « inimiga » frágil e fácil de atacar. Não tenho cargos e não sou candidata, não tenho uma rede de proteção que vá além de amigos preocupados e da Universidade francesa ao meu lado. Além de tudo, sou mulher e feminista e evidentemente fica fácil usar o ódio histórico, a clássica misoginia, contra mim. Porém, acredito que o fato de eu ser uma professora de filosofia que fala publicamente não é fator menos importante. Ao contrário, talvez seja o principal fato, no contexto do psicopoder em ação, à medida que o pensamento crítico desafia o psicopoder e o põe em xeque. Como dizia Theodor Adorno (filósofo odiado por fascistas e sobre cuja obra eu fiz mestrado e doutorado), o pensamento reflexivo é o principal inimigo do fascismo. Ora, a reflexão incomoda. Mais que isso. Ela é uma arma poderosa que pode destruir o fascismo. Onde há reflexão, o fascismo não se cria, e os fascistas sabem disso. 

Tenho notado que recebo muitos ataques quando os membros da extrema-direita fazem uso de um vídeo em especifico. Eu gostaria de falar sobre isso, sem nenhuma esperança de que deixem de usar o referido vídeo ou outros materiais sobre mim, mas apenas como registro da verdade. Um dia, em um futuro que, espero, seja de democracia e alegria para a população do Brasil, espero também que esse tipo de texto seja apenas um memorando, algo para fazer lembrar e meditar no passado sombrio que soubemos atravessar com dignidade. Por isso, vou fazer um relato com a maior brevidade possível desejando que ele possa servir também como começo de reflexão. 

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Em 25 de janeiro de 2018, assustada e aviltada, me neguei a servir de megafone para o MBL na Rádio Guaíba na ocasião de uma escaramuça armada por um jornalista. No mesmo dia, o vídeo realizado na ocasião, viralizou e eu recebi ataques e apoios em relação ao meu gesto, além de criticas que eu respeito muito. Infelizmente, no dia seguinte, apareceu um outro vídeo que, desde então, vem sendo reproduzido exaustivamente. Trata-se do recorte de uma entrevista para a TV Cultura realizada em 2015 que vem sendo usado por agitadores para causar efeitos de ódio na turba fascista. 

De fato, era mais uma entrevista, como inúmeras outras que dei ao longo da vida, sempre mais preocupada em ser eu mesma do que em dizer coisas que pudessem afetar as pessoas, levando-as a pensar em uma direção específica. Eu sempre achei que fazer filosofia não era fazer pedagogia, ou seja, fazer pensar não era levar a pensar o que eu desejo que seja pensado. De fato, a idade me mostrou que não se deve deixar as coisas andando em separado, muito menos em uma sociedade acostumada ao esvaziamento cognitivo, afetivo e político. 

De fato, durante a entrevista, eu não estava preocupada em dar uma aula e fiz colocações que eu mesma considero incompletas. As colocações não puderam ser explicitadas à exaustão no espaço da entrevista. Agora, 8 anos depois, eu sei que costumo falar de um modo bem menos improvisado, embora toda entrevista se torne mais interessante justamente pelo improviso e pelo imprevisto do diálogo que pode se estabelecer entre as partes. É um fato também que agora conheço bem melhor a guerra híbrida e já pondero que tudo o que escrevo ou digo pode acabar por ser recortado e usado para fins de violência política ou epistemológica, como vem acontecendo. No passado, fosse ingenuidade ou estupidez, eu era capaz de esquecer que estava sendo vista. 

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Durante todos esses anos, diante dos recortes usados pelos detratores da minha imagem, pessoas e grupos que sequestraram essa imagem de forma violenta, uma imagem sobre a qual eu não tenho mais o menor poder, eu medito em tudo isso, menos com fins pessoais, do que com os fins impessoais da argumentação. Ora, eu me vejo na obrigação de meditar sobre a minha própria teoria. 

Nesse sentido, devo começar por dizer que o argumento fundamental do que eu dizia naquela entrevista, e que o recorte que circula nas redes de extrema-direita tenta apagar, é que o capitalismo é um sistema de apropriação indébita de capital. Não há nada demais nessa tese defendida por muita gente, senão que eu me perguntava que consequências essa tese nos colocava em termos práticos. Eu queria dizer que o capitalismo jogava todo o nosso idealismo por terra e levava a uma sociedade absolutamente sem ética. Eu queria dizer que, se entendermos a lógica do capitalismo, teremos que aceitar que o sistema, que tem a apropriação indébita como princípio, autoriza a apropriação indébita como prática. 

Quero dizer que, se entendemos o capital como o que tem valor abstrato, podemos definir que há um valor no conhecimento acumulado pela humanidade que deveria pertencer a todos. Há uma parte do conhecimento humano, justamente o que se pode entender como conhecimento acumulado, que não deveria ser apropriado por ninguém justamente porque pertenceria a todos. Não é isso o que acontece no capitalismo. 

Nesse sentido, todos poderiam dispor desse conhecimento, como capital acumulado, e dos conhecimentos gerados a partir dele. Nesse sentido, a maior parte das coisas que existem, inclusive os meios de produção em geral que dependem do conhecimento, como as tecnologias, deveriam ser distribuídas, ou seja, deveriam ser partilhadas e acessíveis a todas as pessoas do mundo. Em termos simples, podemos resumir dizendo que a matéria da qual as coisas são feitas pertence a todos e não pode ser apropriada em particular. 

Além disso, a detenção particular ou privada dos meios de produção é um absurdo, pois tais meios dependem de acúmulos históricos que não deveriam ser controlados por uns poucos em detrimento dos muitos que compõem as sociedades e a comunidade humana como um todo. 

 Um outro aspecto deve ser levantado: o capitalismo é também um sistema econômico político que se sustenta sobre a apropriação do trabalho alheio pela exploração dos trabalhadores e das trabalhadoras. O capitalismo vampiriza os corpos se aproveitando da fragilidade desses corpos em relação à sobrevivência dentro do sistema. Na verdade, todo trabalhador e trabalhadora é token para alguma coisa e, como tal, descartável à medida que não passa de uma função num contexto contábil. Ser token quer dizer que somos todos calculados o tempo todo pelo sistema. 

Nesse sentido, o capitalismo é basicamente um roubo, seja do conhecimento acumulado, seja da força de trabalho das pessoas e do que ela gera. 

Essa ideia que, grosso modo, exponho aqui, pode estar errada, mas o curioso é que ela irrita muita gente, gente que, em geral, não apresenta refutação ao que eu digo, mas apenas xingamento, ameaças e maldade. 

Essa tese simples, irrita as mesmas pessoas que ficaram indignadas comigo quando mencionei que era um desequilíbrio do sistema que houvesse um trilionário no mundo como Elon Musk. Na verdade, não há desequilíbrio no sistema capitalista, movido pela desigualdade e gerador dela, mas ninguém dentre os agressores foi capas de ver a falha no meu argumento e apresenta-la para refutar o que eu disse. 

O que eu estava a propor no vídeo recortado e viralizado era que a racionalidade interna que constitui o capitalismo é a da apropriação indébita, seja ela da ordem do roubo, do assalto, do furto ou de violências do tipo, até chegar a acumulações de capital bizarras como a de pessoas bilionárias ou trilionárias. Evidentemente, quem estava por trás da minha modesta análise mal acabada, era Brecht ao indagar o que significava assaltar um banco perto de fundar um. O que eu acabei por chamar de “lógica do assalto” era a lógica de dois pesos e duas medidas pela qual a apropriação indébita está autorizada para os ricos e proibida para os pobres. 

Creio que, se os pobres - que somos nós todos em escalas diversas quando comparados a Elon Musk e seus raros assemelhados no planeta Terra - agissem como capitalistas, seriam todos assaltantes e ladrões. Nesse sentido, se somos a favor da lógica vivendo na era do capitalismo, necessariamente somos a favor dos assaltos, dos roubos e de todo tipo de violência econômica. O sistema é antiético por definição e devemos deixar de ser cínicos e achar que roubar ou quebrar bancos é pior do que fundar um. Não há ética no capitalismo. 

De fato, o assalto que uma pessoa qualquer pode praticar na linha da apropriação indevida de algo que pertence a outrem, tem uma correspondência na lógica do próprio capitalismo. O assaltante de rua usa da violência ao seu alcance, da mesma maneira que os poderosos usam das violências cujo domínio eles detêm. De fato, as violências do sistema capitalista, sobretudo a complexa violência econômica dos bancos, se apresentam como naturais e são legalizadas para servir ao poder dos donos do grande capital. Quem sabe como funcionam as milícias no Rio de Janeiro entende como funcionam as classes rentistas. E isso anda cada vez mais evidente no governo do Brasil atual. Milicianato é capitalismo selvagem e neoliberal sem as aparências aristocráticas e burguesas. 

As pessoas ficam chocadas com o fato de que exista uma lógica no assalto, assim como há no capitalismo, mas infelizmente ela continua existindo apesar de pensamentos negacionistas. Não é possível deixar de lado a compreensão da racionalidade interna do capitalismo. Dizer que há uma lógica não implica dizer que é moralmente correto. Mas que há uma racionalidade interna que pode ser reconhecida. Essa racionalidade implica que, se é antiético roubar o que quer que seja, é antiético fundar um banco. O banco está autorizado a explorar, extorquir, abusar economicamente por meio dos juros, num sistema de agiotagem legalizada, porque a lei serve aos ricos, enquanto o pobre, se for ladrão ou assaltante, terá que enfrentar a lei dos ricos. 

A violência de ambos, sejam ladrões de bancos, sejam donos de bancos, tem um nexo profundo. Nesse sentido, alguém que se diz a favor do capitalismo, se for consequente e responsável com sua própria coerência, pode se considerar a favor de assaltos. Quem é contra assaltos tem que ser contra o capitalismo. 

Devemos nos perguntar por que esse tipo de reflexão choca tanto as hordas da extrema-direita em guerra contra a lógica e o pensamento crítico. Mas a resposta é evidente. E, como professora de filosofia, me sinto na obrigação moral de levantar essas questões. Se eu estiver errada, as refutações são bem vindas. 

A cultura do diálogo precisa avançar, contudo ela só frutificará se o capitalismo for desmontado e a capacidade de pensar das multidões lhes for devolvida. 

Por enquanto, pensar criticamente é ir na contramão de todos os acordos opressores e de toda a burrice que disso deriva. 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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