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Reynaldo José Aragon Gonçalves

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net

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A Copa do Silêncio

A maior festa do esporte acontece sobre uma infraestrutura de fronteiras, vigilância e exclusão que a televisão prefere não mostrar

Torcedores antes da partida entre Gana e Panamá pela Copa do Mundo em Toronto - 17 de junho de 2026 (Foto: REUTERS/Benoit Tessier)
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A Copa do Mundo de 2026 é apresentada como uma celebração global do esporte. Mas, fora dos gramados, multiplicam-se alertas sobre deportações, vigilância, restrições migratórias, discriminação e violações de direitos humanos. De trabalhadores que temem o ICE a delegações submetidas à geopolítica das fronteiras, este artigo investiga a realidade que permanece fora do enquadramento dominante e que o espetáculo da Copa ajuda a tornar invisível.

A Copa que eu estou vendo

Não sou especialista em futebol. Minha área de pesquisa está mais próxima da comunicação, da geopolítica, das plataformas digitais e das disputas contemporâneas pelo poder. Mas gosto de futebol desde criança. E, como milhões de pessoas ao redor do mundo, tenho acompanhado esta Copa do Mundo praticamente todos os dias.

Tenho gostado do que vejo.

A competição produziu bons jogos, grandes atuações individuais e algumas das histórias que fazem do futebol um fenômeno cultural único. Há algo de raro na capacidade que uma Copa possui de suspender temporariamente a rotina do planeta e concentrar atenções em um mesmo acontecimento. Durante algumas semanas, idiomas, bandeiras, crenças e rivalidades parecem ceder espaço a uma linguagem comum construída pela bola.

É essa imagem que chega diariamente às telas.

Estádios lotados. Torcidas misturadas. Cidades mobilizadas. Crianças vestindo camisas de seleções estrangeiras. Pessoas de países que muitas vezes se enfrentam diplomaticamente dividindo as mesmas arquibancadas. A narrativa dominante é a de uma celebração global do esporte, da convivência e do encontro entre povos.

Nada disso é falso.

Mas, nas últimas semanas, algo começou a me chamar atenção.

Enquanto acompanhava os jogos, passei a encontrar uma sequência de informações que raramente apareciam no centro da cobertura esportiva. Relatórios de organizações internacionais alertavam para riscos relacionados a deportações e violações de direitos humanos. Trabalhadores ligados à Copa negociavam proteção contra operações migratórias. Árbitros enfrentavam barreiras para entrar no país anfitrião. Delegações estrangeiras relatavam restrições que pouco tinham a ver com futebol. Autoridades ampliavam estruturas de vigilância e monitoramento em nome da segurança do torneio.

Separadamente, cada episódio poderia ser tratado como um detalhe administrativo. Um problema burocrático. Um incidente isolado.

Observados em conjunto, porém, eles pareciam apontar para algo diferente.

Foi essa discrepância que despertou meu interesse. De um lado, a Copa transmitida para bilhões de pessoas como uma grande festa global. De outro, uma realidade paralela que surgia em documentos, reportagens e relatos espalhados, quase sempre distante dos holofotes.

Não se tratava de negar a beleza do espetáculo.

Tratava-se de compreender aquilo que permanecia fora do enquadramento.

Quanto mais eu assistia aos jogos, mais me perguntava: o que está ficando invisível?

A Copa fora do enquadramento

A primeira coisa que me chamou atenção foi que os alertas começaram antes mesmo da bola rolar. Em março, a Anistia Internacional advertiu que a Copa seria realizada em meio a um ambiente de crescente preocupação com direitos humanos nos Estados Unidos. Poucas semanas depois, mais de 120 organizações lideradas pela ACLU divulgaram um alerta de viagem para torcedores estrangeiros, citando riscos relacionados a detenções, discriminação e políticas migratórias. Não eram comentários em redes sociais nem manifestações partidárias. Eram documentos produzidos por algumas das principais organizações de direitos civis do mundo.

Naquele momento, parecia um debate periférico. A Copa ainda nem havia começado e a narrativa dominante continuava sendo a mesma: estádios modernos, organização eficiente, cidades preparadas para receber milhões de visitantes e um país disposto a transformar o torneio em uma grande demonstração de hospitalidade. Mas, à medida que os jogos se aproximavam, os episódios começaram a se acumular.

Em Los Angeles, cerca de dois mil trabalhadores do SoFi Stadium, um dos principais palcos da competição, autorizaram uma greve com apoio de 96% da categoria. Entre as reivindicações estavam salários e condições de trabalho, mas também algo incomum para um evento esportivo: proteção contra operações do ICE e da Patrulha de Fronteira. Em entrevistas à imprensa local, funcionários relataram medo de abordagens migratórias e preocupação com colegas que poderiam ser alvo de ações das autoridades. Em pleno Mundial, trabalhadores responsáveis por receber o público negociavam proteção contra operações migratórias.

Poucos dias depois, a contradição apareceu de forma quase literal. Um árbitro escolhido pela FIFA para trabalhar na Copa do Mundo não conseguiu entrar no país que sediava a própria Copa. Omar Artan, que se tornaria o primeiro somali da história do torneio, foi barrado pelas autoridades migratórias americanas e acabou excluído da competição. A notícia passou rapidamente pelo noticiário, mas dizia muito sobre o ambiente em que aquele Mundial estava sendo realizado.

A situação da seleção iraniana reforçou a percepção de que aqueles episódios formavam um padrão. Antes e durante a Copa, integrantes da delegação enfrentaram dificuldades relacionadas a vistos e deslocamentos. A equipe transferiu parte de sua preparação para o México, enquanto autoridades iranianas denunciavam restrições incompatíveis com as impostas a outras seleções. Em um dos casos mais emblemáticos, o jogador Mehdi Torabi teve problemas com a validade de seu visto após uma única entrada nos Estados Unidos. Pela segunda vez em poucos dias, uma questão migratória transformava-se em assunto esportivo internacional.

Nem mesmo familiares dos atletas ficaram imunes a esse ambiente. A mãe do goleiro Vozinha, destaque de Cabo Verde, não conseguiu viajar para acompanhar a estreia do filho por problemas relacionados à emissão de visto. O impasse só foi resolvido depois de mobilização diplomática. Em qualquer outra Copa, provavelmente seria lembrado como um contratempo burocrático. Observado ao lado dos demais episódios, parecia fazer parte de algo maior.

Ao mesmo tempo, o governo norte-americano montava uma das maiores estruturas de segurança já associadas a um evento esportivo. Centenas de agências federais, estaduais e locais foram mobilizadas. Sistemas de monitoramento foram ampliados. Drones passaram a ser rastreados em larga escala. Oficialmente, tratava-se de garantir a segurança do torneio. Para organizações de direitos civis, porém, a Copa também estava funcionando como vitrine de uma arquitetura de vigilância que se expandia muito além dos estádios.

Talvez o episódio mais revelador tenha vindo do próprio presidente Donald Trump. Questionado sobre a entrada de estrangeiros para a Copa, respondeu que seu governo estava trabalhando para garantir a chegada das "pessoas certas". A frase passou rapidamente pelo noticiário. Mas ela condensava, em poucas palavras, a contradição que atravessa toda esta história. A FIFA promovia um evento construído sobre a ideia de encontro entre povos. O Estado continuava operando segundo a lógica da seleção, da filtragem e da fronteira.

Separadamente, cada um desses episódios poderia ser tratado como exceção. Juntos, eles contam uma história diferente. A história de uma Copa que existe para além dos gramados e que raramente aparece no centro da narrativa pública.

A Copa do Silêncio

Se existe uma característica que define esta Copa, ela não está nos gramados.

Ela está na forma como determinados acontecimentos desaparecem da percepção coletiva mesmo quando são amplamente documentados.

Nada do que foi descrito aqui aconteceu em segredo. A Anistia Internacional publicou alertas. A Human Rights Watch divulgou relatórios. A ACLU emitiu advertências formais. A exclusão do árbitro somali foi noticiada. As dificuldades enfrentadas pela seleção iraniana foram registradas pela imprensa internacional. Os trabalhadores do SoFi Stadium deram entrevistas e negociaram proteção contra operações migratórias. Os fatos estavam disponíveis para quem quisesse vê-los.

Ainda assim, quase nada disso se tornou parte da narrativa dominante da Copa.

A explicação não está na falta de informação. Está na forma como a informação é organizada.

O espectador pode ler sobre um árbitro barrado em Miami pela manhã, acompanhar uma reportagem sobre trabalhadores preocupados com o ICE à tarde e, algumas horas depois, assistir a uma partida emocionante sem jamais perceber que todos esses acontecimentos fazem parte da mesma história. Os fatos aparecem. O padrão desaparece.

Talvez esteja aí a característica mais reveladora desta Copa. Não naquilo que foi escondido, mas naquilo que foi fragmentado. Os episódios eram visíveis. O que se tornou invisível foi a relação entre eles.

É assim que funciona o espetáculo contemporâneo.

Não pela ocultação, mas pela fragmentação.

Não pela censura, mas pela dispersão.

Os acontecimentos permanecem visíveis. O que se torna invisível é a relação entre eles.

Ao longo desta Copa, a cobertura dominante concentrou sua atenção na hospitalidade americana, na atmosfera dos estádios, na diversidade das torcidas, na qualidade da organização e no sucesso do evento. Nada disso é falso. Os estádios estão cheios. Os jogos são bons. A festa existe. Mas a concentração quase exclusiva nesse enquadramento produz um efeito inevitável: tudo aquilo que não reforça essa narrativa é empurrado para as margens da atenção pública.

Talvez seja essa a principal lição desta Copa.

O problema não é que os conflitos tenham desaparecido.

O problema é que eles passaram a coexistir com um espetáculo suficientemente poderoso para deixá-los em segundo plano.

Enquanto bilhões de pessoas assistiam aos jogos, outra história continuava acontecendo. Uma história feita de fronteiras, filtros migratórios, sistemas de vigilância, disputas geopolíticas e mecanismos de exclusão que atravessavam o torneio sem jamais ocupar o centro da cena. Não porque fossem irrelevantes, mas porque a lógica do espetáculo raramente permite que dividam espaço com a narrativa principal.

Por isso, o verdadeiro objeto deste texto nunca foi o futebol.

Foi a invisibilidade.

Foi a capacidade de uma sociedade hiperconectada, saturada de informações e imagens, continuar produzindo zonas de silêncio em plena luz do dia.

A Copa do Mundo de 2026 será lembrada pelos gols, pelos craques e pelos jogos que marcaram uma geração. Mas talvez mereça ser lembrada também por outra razão: ter mostrado que, mesmo em uma época de informação abundante, continua sendo possível transformar acontecimentos visíveis em realidades politicamente invisíveis.

No fim, o problema não é o que a Copa mostra ao mundo.

O problema é aquilo que ela impede que seja visto como parte da mesma história.

(Artigo publicado originalmente em <código aberto> )

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.