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André Barroso

Artista plástico da escola de Belas Artes da UFRJ com curso de pós-graduação em Educação e patrimônio cultural e artístico pela UNB. Trabalhou nos jornais O Fluminense, Diário da tarde (MG), Jornal do Sol (BA), O Dia, Jornal do Brasil, Extra e Diário Lance; além do semanário pasquim e colaboração com a Folha de São Paulo e Correio Braziliense. 18h50 pronto

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A Copa serve a quem?

Da política ao mercado, como patrocinadores, interesses geopolíticos e imposições culturais transformaram a Copa em vitrine do poder financeiro

Gianni Infantino, em 10 de junho de 2026 (Foto: REUTERS/Henry Romero)
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A história das Copas sempre foi política. Mas hoje parece que a Copa não serve ao público ou aos jogadores. Serve ao dinheiro. Anunciantes. Desde um álbum de figurinhas, que na Copa de 82 era conseguido por meio dos chicletes e custava cerca de R$ 0,05 a R$ 0,10 em valores atuais, e hoje em dia custa mais de R$ 7 mil. Na primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai, apenas três europeus apareceram por lá: França, Romênia e Iugoslávia. Mas é um esporte que atrai mais público aos estádios, mesmo se comparado às Olimpíadas. Com o programa de alternância, a regra de Rimet era ir para a Europa. Curiosamente, aconteceu na Itália, onde a abertura foi um 7 x 1 da Itália contra os Estados Unidos, com vitória final da Itália de Mussolini.

Existem muitas dúvidas e controvérsias legítimas sobre a vitória da Itália na Copa do Mundo de 1934. O torneio foi utilizado como propaganda política pelo ditador fascista Benito Mussolini. Teve, entre outras coisas, arbitragens tendenciosas, naturalização de jogadores sul-americanos e punições a árbitros. A mesma dúvida se tem sobre a Copa da Argentina de 1978, em plena ditadura governada pelo ditador general Jorge Rafael Videla, um dos mais violentos do auge do regime.

Hoje, temos a ditadura do dinheiro. Curiosamente, uma Copa do Mundo nos Estados Unidos, que, mesmo estando em guerra com o Irã, não foram banidos como a Rússia. O suíço-italiano Gianni Infantino está cortando um dobrado e ouvindo muito sobre segregação, perseguição, manifestação e ataques xenofóbicos. E nada poderá aliviar a tensão, afinal estamos nos Estados Unidos, onde tudo é permitido, como foi na Itália fascista, na ditadura argentina ou na Olimpíada nazista. O dinheiro está controlando tudo nesta Copa. Foi vazado um contrato da Nike que impede a participação importante de Endrick. A empresa é patrocinadora da Seleção Brasileira desde 1996 e vai até 2038 em um contrato milionário. No contrato, a Nike podia escolher amistosos, adversários e ainda oito jogadores. Endrick usa as chuteiras da marca New Balance. Perdemos a chance de ter um jogador que pode mudar o jogo por conta do dinheiro.

Se seguirmos a ideia de uma Copa planejada do início ao fim, com controle total de patrocinadores, a capa da revista Economist, que prevê tudo que está acontecendo mês a mês, mostra que a vitória será de uma seleção de vermelho. Poderia ser Portugal ou Espanha. Diante da história das Copas anteriores, em que tivemos governos ditatoriais que precisavam melhorar a visão externa sobre o país, o mesmo acontece neste momento com o governo Trump e a administração que está com a pior aprovação popular e com medidas xenofóbicas acontecendo, até nas situações mais simples. No empate do Brasil com Marrocos, o lateral-direito Hakimi foi dar entrevista na zona mista e foi vetado pela Fifa. Tudo porque foi feita uma pergunta em espanhol.

Não pode ser encarado como falta de tradutores numa das Copas mais caras do mundo, mas como uma imposição colonial. Apenas o inglês é aceito. Para o teórico argentino Walter Mignolo, a colonização não é apenas um evento histórico superado. Ele argumenta que ela criou a “colonialidade”, o lado oculto e sombrio da modernidade, que estabeleceu uma hierarquia global de poder, raça e conhecimento que ainda dita as estruturas sociais, políticas e econômicas atuais.

A festa continua sendo feita pelo público, apesar dos pesares. É mesmo um povo bom de festa. Antes, tínhamos ruas pintadas e uma crença de vitória. O que não faltava por aqui era fogueteiro nos gols do Brasil. Não se ouve nem mais isso.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.