A Covid-19 e os limites do sistema

Muitos têm afirmado que sairemos diferentes desse período, mas dos prosélitos do capital, talvez, nada de tão diferente se espere

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Todas as guerras são motivadas pelo ímpeto de poder. As tentativas de dominação cultural – especialmente religiosa – e econômica, sempre foram as causas dos conflitos que colocaram na história da humanidade territórios e mercados nos centros da disputa. A construção hegemônica que decorre disso carrega em seu âmago uma ideologia, uma visão interessada de mundo em nome da qual todos são convocados a lutar.

A conquista de um território sempre significou muito por sua rentabilidade. Expandir-se significava não apenas subjugar uma cultura à outra, mas garantir a exploração de recursos naturais e de mão-de-obra barata – geralmente escrava – que serviriam ainda mais ao sucesso dos vencedores, aumentando suas riquezas e incrementando seu poderio bélico e político.

O fato é que para além da guerra, era preciso garantir a perpetuação dos modos de racionalidade dos vencedores para que não houvesse haver nenhum tipo de sublevação, revolta ou revolução no território conquistado. Trata-se da produção de uma identidade baseada nos costumes daqueles que dominam. Era preciso que os vencidos e subjugados fossem integrados à cultura dos que se impuseram como conquistadores: eis um dos princípios que se converte como uma das principais estratégias da colonização.

Quando faço referência à colonização, não me refiro apenas ao ato de colonizar como resultado de uma disputa que acaba por assujeitar um povo no sentido físico, mas expandir as formas de repressão para um domínio simbólico, para o campo dos significados, das representações. É a cultura que usa a educação como instrumento para capturar as subjetividades que ainda resistem. A educação é o principal dispositivo de poder o qual os colonizadores lançam mão.

Educar a mente, o corpo e os hábitos. A educação se converte na porta de entrada para uma cultura que se impõe à força. É preciso fazer o colonizado pensar como o colonizador, gostar das mesmas coisas, desejar de forma semelhante. A colonização que se dá nas mentes é que garante o sucesso do estabelecimento de uma nova ordem de poder, definindo as relações entre colonizador e colonizado. Trata-se de despotencializar um dos lados em termos críticos e reflexivos, docilizá-lo ao produzir subjetividades que se identifiquem com às forças externas, compreendidas como beneméritas, de salvação e libertação. Há sempre um quê de messianismo na figura do dominador utilizado para esconder os reais motivos da dominação e todo o espólio que se produz a partir dela.

Essa realidade não ficou em algum lugar do passado, apenas transfigurou-se. Em que pese as guerras e as formas de conflito tenham mudado, a lógica da disputa é sempre a mesma. Há, por exemplo, formas de dominação que não se impõe belicosamente, mas de forma silenciosa por meio de estratégias políticas mascaradas por uma falsa promessa de liberdade, igualdade e inclusão da biodiversidade. O mundo acompanhou a partir da década de 1990 o surgimento do discurso da globalização com todas as suas promessas. Três décadas depois, as minorias ainda não têm vez e nem voz na aldeia global porque foram se quer incluídas, a não ser se pensarmos em termos de uma inclusão mercadológica, como consumidores. Alguns resistem. Seus modos de vida são mais modos de existência, onde há constante luta por reconhecimento enquanto permanecem constrangidas por um sistema que as invisibiliza e as inviabiliza. Um sistema do qual tentam se emancipar subjetiva e culturalmente.

Faço estas observações porque em tempos de pandemia, vemos o capitalismo em seu limite. No entanto, pelo fato de se utilizar de estratégias similares, com um discurso que se apropria do sujeito por dentro, há quem não o perceba como produtor de desigualdade, justificando e reduzindo as explicações sobre (in)sucessos individuais pela meritocracia. Um discurso inteligente que se apropriou da palavra e inventou um conceito para liberdade associando-a a uma suposta igualdade de oportunidades que pode ser acessada por todos, sem restrição. Afinal, para o capital – em última análise – todo sujeito é um empreendedor em potencial, o sistema fomenta esse pensamento.

Sob essa lógica é preciso ser producente porque é o mercado o principal elemento que passa a dirigir nossas vidas. Se o mercado vai mal, a economia vai mal. E assim, cada vez mais a figura do Estado perde força em nome da entidade mercado, que ninguém sabe dizer ao certo o que é, como funciona e quem a inventou como oráculo cujas respostas parecem ser definitivas e inquestionáveis na direção das condutas no interior do capitalismo.

A questão é que em tempos de pandemia, isolamento social e quarentena, o mercado tem sido muito afetado pela diminuição do consumo. Isso implica em uma crise que se espalha por toda a cadeia produtiva que, obviamente, passa a produzir menos. Há uma catástrofe econômica que não pode ser evitada por nenhuma mão invisível. É aí que surge, novamente com força, a figura do Estado. Para os que vociferam “imposto é roubo!” e admiram Margareth Thatcher deve ser difícil ter que aceitar que é o Estado que vai salvar um pouco da economia garantindo a renda básica à população e adotando uma política de liberação do seguro-desemprego em caso de contratos suspensos. É este mesmo Estado por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) que também vai salvar vidas.

Em meio à crise sanitária atual há quem coloque a economia e o mercado antes das vidas. Capturados por uma racionalidade capitalística, lutam por uma gestão de riscos que leve em consideração um isolamento vertical e não horizontal, assumindo com naturalidade que algumas vidas serão perdidas. Isso assusta. É nesse momento que o capitalismo atinge seu limite. Não que o sistema seja ético, mas é exatamente pela falta de ética que ele é levado ao seu limite.

Não há discurso de liberdade possível que possa ser utilizado na defesa da aniquilação da vida. Não existe liberdade onde há Thanatos, onde há pulsão de morte. O capitalismo colapsa porque em tempos de COVID-19 evidencia que sua luta em defesa da liberdade continua atendendo interesses individuais ou de grupos específicos. E em meio a isso, em defesa da economia, assistimos a relativização do vírus, da doença e da pandemia investindo em uma espécie de negacionismo, de politização do debate – em sentido negativo – que se aproveita, inclusive, da atual polarização do país. É o mercado cumprindo sua função de atribuir preço, pretendendo, agora, valorar a vida humana.

Muitos têm afirmado que sairemos diferentes desse período, mas dos prosélitos do capital, talvez, nada de tão diferente se espere. Os limites de qualquer sistema sempre serão definidos pela ética, e quando a vida surge como moeda de troca em relação ao lucro a lógica das guerras se reproduz acompanhada de uma narrativa sedutora e fictícia, pronta pra colonizar o pensamento daqueles que continuarão a fechar os olhos para a realidade das mortes que têm assolado o mundo.

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