A crise como método: o mundo entra em 2026 sem rumo nem consenso
A crise permanente se consolida como método de governo, expõe a exaustão do modelo global e revela a ausência de lideranças capazes de oferecer direção coletiva
O ano de 2026 começa sem promessas e sem ilusões. Não se anuncia um novo ciclo de crescimento, tampouco um rearranjo virtuoso da ordem internacional. O que se consolida é algo mais profundo e inquietante: a crise deixou de ser exceção e passou a funcionar como método. Método de governo, de organização econômica e de gestão política. O mundo segue operando, mas sem direção compartilhada, sem pacto social renovado e sem horizonte estratégico claro.
Não se trata de prever colapsos espetaculares ou anunciar catástrofes iminentes. O traço dominante do momento é mais silencioso — e justamente por isso mais perigoso. Instituições continuam funcionando, eleições seguem ocorrendo, mercados abrem diariamente. Porém, tudo isso se dá sob uma lógica de desgaste permanente, em que decisões são tomadas para conter tensões imediatas, não para resolver problemas estruturais. A política global passou a administrar danos, não a construir futuros.
Essa normalização do impasse marca a entrada em 2026 como um tempo histórico distinto: não o da crise aguda, mas o da crise permanente.
A crise como funcionamento normal do sistema
A economia mundial entra em 2026 marcada por baixo dinamismo, instabilidade financeira recorrente e desigualdade persistente. As sucessivas crises das últimas décadas já não produzem reformas estruturais nem correções profundas. Ao contrário: reforçam mecanismos de concentração de renda, poder e riqueza. O que se observa é a consolidação de um sistema que socializa perdas e privatiza ganhos, sustentado por endividamento crônico, juros elevados e captura institucional.
A crítica desenvolvida por economistas marxistas contemporâneos, como Michael Hudson, ajuda a compreender essa engrenagem. O capitalismo atual deixou de ter a produção como eixo organizador e passou a operar fundamentalmente como um sistema de extração de renda. Bancos, fundos financeiros, monopólios digitais e detentores de ativos estratégicos tornam-se os principais beneficiários, enquanto Estados e sociedades assumem os custos do ajuste permanente.
Nesse modelo, a dívida não é um instrumento transitório. A austeridade deixa de ser exceção e passa a ser regra. Políticas públicas são moldadas para garantir pagamentos financeiros, não para expandir direitos. A financeirização transforma o Estado em fiador dos credores e limita drasticamente sua capacidade de planejamento.
O resultado é um capitalismo que já não promete prosperidade futura. Ele oferece apenas gestão da escassez, compressão salarial, precarização do trabalho e competição permanente entre sociedades. A crise deixa de ser um evento e passa a ser a própria forma de funcionamento do sistema.
Fragmentação global e fim das ilusões multilaterais
No plano internacional, 2026 consolida uma fragmentação profunda. As alianças tradicionais perdem coesão, os organismos multilaterais enfraquecem e a cooperação internacional torna-se episódica, seletiva e instrumental. A ideia de uma ordem baseada em regras universais cede lugar a arranjos pragmáticos, negociados caso a caso, moldados por relações assimétricas de poder.
Conflitos armados prolongados deixam de ser tratados como exceções e passam a integrar a paisagem estrutural do sistema internacional. A disputa por energia, alimentos, tecnologia, minerais estratégicos e cadeias produtivas redefine prioridades. Sanções econômicas, barreiras comerciais, controles tecnológicos e políticas industriais defensivas tornam-se ferramentas correntes.
Nesse cenário, a instabilidade deixa de ser transitória e passa a organizar o funcionamento do sistema. Governa-se por emergência, por exceção, por improviso. A noção de planejamento de longo prazo — central tanto ao desenvolvimento quanto à democracia — é substituída por respostas reativas e de curto prazo. A política internacional abandona a ambição de construir consensos duradouros e passa a administrar riscos permanentes.
Lideranças frágeis, autoritárias ou defensivas: o vazio político no comando do mundo
A dificuldade de construir consensos globais em 2026 também se explica pela natureza das lideranças hoje no comando das principais potências e regiões. Nunca foi tão evidente o descompasso entre a complexidade dos desafios globais e a qualidade política dos dirigentes encarregados de enfrentá-los. Predominam figuras defensivas, nacionalistas, pragmáticas ao extremo ou abertamente autoritárias, mais preocupadas com sua sobrevivência interna do que com a construção de soluções coletivas.
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump consolidou uma diplomacia marcada pelo unilateralismo, pela instrumentalização da política externa para fins domésticos e pela rejeição explícita a compromissos multilaterais. A lógica transacional substitui qualquer noção de liderança cooperativa: alianças tornam-se moeda de troca, instituições internacionais são tratadas como entraves e a política externa passa a operar segundo o cálculo imediato de ganhos internos.
Na Europa, o quadro tampouco é alentador. A União Europeia enfrenta fragmentação interna, avanço da extrema direita e governos politicamente fragilizados. Lideranças como Giorgia Meloni, na Itália, combinam pragmatismo econômico com retórica identitária; na França, Emmanuel Macron governa sob desgaste social prolongado; na Alemanha, a coalizão enfrenta dificuldades para sustentar consensos em meio à estagnação; no Leste Europeu, figuras como Viktor Orbán seguem corroendo princípios democráticos desde dentro do bloco. O resultado é um continente incapaz de exercer liderança estratégica consistente.
Na Rússia, Vladimir Putin mantém um poder altamente centralizado, sustentado por uma lógica de segurança permanente e pela militarização das relações internacionais, o que dificulta qualquer recomposição diplomática ampla. A China, sob Xi Jinping, apresenta um modelo distinto: forte capacidade estatal, planejamento de longo prazo e estabilidade política, mas também crescente centralização do poder e uma relação tensa com o sistema internacional liberal. Pequim atua com racionalidade estratégica, porém em um ambiente global marcado por desconfiança estrutural.
No Sul Global, o quadro é igualmente instável. A América Latina oscila entre governos progressistas pressionados por restrições fiscais e heranças institucionais frágeis e experiências de direita radical com discurso antissistêmico e autoritário. Na África, golpes, conflitos internos e dependência externa seguem presentes. No Oriente Médio, lideranças autoritárias permanecem sustentadas por arranjos securitários e rivalidades regionais.
O traço comum desse mosaico é a ausência de lideranças com capacidade — e disposição — para articular projetos coletivos de longo prazo. Predomina a política da sobrevivência: manter coalizões internas, conter opositores, administrar crises e responder a pressões externas. A diplomacia torna-se reativa; a governança global, residual. A crise de liderança não é apenas moral ou pessoal, mas expressão direta da exaustão do próprio modelo econômico e político vigente.
Crise climática: o fator estruturante do desarranjo global
Se há um eixo capaz de atravessar e aprofundar todas essas tensões, ele é a crise climática. Em 2026, ela já não pode ser tratada como tema ambiental isolado ou preocupação futura. Trata-se de um fator estruturante da economia política global, com impactos diretos sobre crescimento, segurança alimentar, migrações, finanças públicas e estabilidade social.
Eventos extremos — secas prolongadas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais — tornam-se mais frequentes e intensos, afetando a produção agrícola, a infraestrutura urbana e os sistemas energéticos. O impacto econômico deixa de ser episódico e passa a integrar o cotidiano dos Estados, pressionando orçamentos públicos, seguros e políticas sociais.
Ao mesmo tempo, a transição energética avança de forma desigual e conflitiva. Países centrais disputam acesso privilegiado a minerais críticos, tecnologias verdes e cadeias de valor estratégicas, enquanto países periféricos correm o risco de ocupar novamente posições subordinadas, agora sob uma lógica “verde”. A promessa de cooperação climática global cede lugar à competição por recursos e vantagens tecnológicas.
Migrações, deslocamentos e novas fronteiras do conflito social
Um dos efeitos mais visíveis desse processo é a intensificação dos fluxos migratórios. A combinação entre mudanças climáticas, degradação ambiental, conflitos armados e estagnação econômica empurra milhões de pessoas a deixarem seus territórios. Em 2026, as migrações climáticas deixam de ser projeção acadêmica e passam a constituir realidade política concreta.
Regiões inteiras tornam-se parcial ou totalmente inabitáveis, pressionando fronteiras, cidades e sistemas públicos. A resposta predominante, contudo, não tem sido solidária nem cooperativa, mas securitária. Muros, vigilância, criminalização e políticas de contenção substituem mecanismos de acolhimento e cooperação internacional.
O deslocamento humano passa a ser tratado como ameaça, não como consequência estrutural de um modelo de desenvolvimento excludente. A política migratória converte-se em terreno fértil para discursos autoritários, nacionalistas e xenófobos. A crise climática, assim, não apenas agrava desigualdades materiais, mas redefine fronteiras simbólicas, direitos e pertencimentos.
A normalização do desgaste social e político
A combinação entre financeirização, fragmentação geopolítica, crise climática e esvaziamento da liderança global produz um efeito corrosivo sobre as democracias. Sociedades passam a conviver com serviços públicos deteriorados, insegurança econômica permanente e perda gradual de direitos como se isso fosse inevitável.
Esse processo não exige rupturas autoritárias explícitas. Ele opera pela fadiga. A população se acostuma a expectativas cada vez mais baixas, enquanto governos deslocam o debate público para temas morais, identitários ou securitários, evitando enfrentar conflitos distributivos centrais.
A política deixa de oferecer projetos e passa a administrar limites. A democracia permanece formalmente ativa, mas esvaziada de conteúdo substantivo. As escolhas reais tornam-se estreitas, condicionadas por mercados financeiros, restrições externas e pactos implícitos com setores rentistas. A crise deixa de ser percebida como falha do sistema e passa a ser aceita como seu modo normal de funcionamento.
O Brasil diante da travessia de 2026
O Brasil chega a 2026 inserido nesse cenário global adverso, mas não desprovido de alternativas. Trata-se de uma posição ambígua: grande demais para ser irrelevante, mas ainda dependente demais para impor seus próprios termos à ordem internacional.
O país dispõe de ativos estratégicos relevantes: mercado interno expressivo, matriz energética relativamente limpa, biodiversidade singular, capacidade estatal preservada e tradição diplomática reconhecida. Ao mesmo tempo, carrega entraves estruturais profundos — financeirização excessiva, baixo investimento produtivo, dependência tecnológica, regressividade fiscal e forte pressão rentista sobre o orçamento público.
Do ponto de vista da crítica estrutural, o dilema brasileiro é claro. Ou o país enfrenta o poder da renda financeira e recoloca o investimento produtivo, a política industrial, a transição ecológica e o planejamento estatal no centro da estratégia nacional, ou seguirá preso a um padrão de crescimento baixo, instável e socialmente frustrante.
Em 2026, esse dilema se torna mais agudo. A desaceleração global reduz margens externas. A disputa entre grandes potências pressiona alinhamentos. A instabilidade financeira limita graus de liberdade. Ao mesmo tempo, cresce internamente a cobrança por resultados concretos: emprego, renda, serviços públicos e redução das desigualdades.
O risco não é apenas econômico. É político. A frustração prolongada alimenta soluções autoritárias, moralistas ou antipolíticas, que prometem ordem sem enfrentar as causas estruturais da desigualdade. A experiência recente brasileira mostra o quão curto pode ser esse caminho.
Um ano de travessia, não de redenção
2026 não será o ano do colapso final, mas tampouco o da redenção. Será um ano de travessia. Um período em que a crise deixa de ser episódica e passa a organizar o funcionamento do sistema global. Um momento em que sociedades são testadas em sua capacidade de não naturalizar a regressão.
A leitura inspirada na economia política crítica indica que não há saída técnica para uma crise que é essencialmente política. Não se trata de ajustes marginais, mas de escolhas: quem paga, quem ganha, quem decide e em nome de quê.
Para o Brasil, o desafio é transformar sua posição intermediária em projeto estratégico, e não em dependência resignada; em ação política consciente, e não em espera passiva. Quando as ilusões se dissipam, resta a política — ou o vazio deixado por ela.
2026 começa, assim, não como promessa, mas como prova. Uma prova sobre até onde sociedades e governos estão dispostos a ir para recuperar sentido, direção e soberania num mundo que parece ter se acostumado a viver sem horizonte.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

