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Sergio Ferrari

Jornalista latino-americano radicado na Suíça. Autor e coautor de vários livros, entre eles: Semeando utopia; A aventura internacionalista; Nem loucos, nem mortos; esquecimentos e memórias dos ex-presos políticos de Coronda, Argentina; Leonardo Boff, advogado dos pobres etc.

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A crise hídrica e a seca de propostas

Segundo alguns diagnósticos, o planeta começou a passar por uma "falência hídrica"

A água corrente se torna escassa em várias regiões do mundo (Foto: ONU)

Por Sergio Ferrari - Em dezembro deste ano, será realizada uma conferência global em Abu Dhabi para buscar soluções para a crise hídrica. Enquanto isso, a humanidade atinge o fundo do poço e começa a usar suas reservas estratégicas de água.

O diagnóstico é alarmante, embora sua leitura ofereça nuances diferentes. Para alguns, todo o ciclo da água do planeta – que inclui mares, atmosfera e outras fontes de água doce ou potável – enfrenta uma "tensão". Para outros, é algo ainda mais cruel: o planeta começou a passar por uma "falência hídrica", nas palavras da Universidade das Nações Unidas, em seu mais recente relatório sobre o assunto. Não apenas a renda anual de água dos rios e da chuva foi gasta, mas também as economias milenares guardadas em geleiras, áreas úmidas e veios subterrâneos foram esvaziadas. O resultado são sistemas literalmente falidos: aquíferos compactados, lagos fantasmas, deltas afundando, todos sem capacidade de recuperação.

Há apenas alguns meses, os rios da Amazônia registraram seus níveis históricos mais baixos. Quase ao mesmo tempo, a Espanha foi brutalmente atingida pelas piores enchentes das últimas décadas, com um trágico lastro de destruição e morte. A crise climática causada pelo aquecimento global fez com que o ciclo hidrológico entrasse em um atraso sem precedentes. Não poderia ser diferente, já que o aquecimento dos mares quadruplicou dos anos 80 até o presente. Seu impacto direto em vastas áreas de gelo e glaciares não pode mais ser ignorado: massas de gelo derretendo e, como corolário, elevando o nível do mar. Segundo fontes científicas, um quarto da população mundial, principalmente em países de baixa e média renda, está exposta a riscos crescentes de inundações catastróficas.

Essa leitura da realidade fala da "conta cobrada pelo desperdício", ou seja, do preço que já está sendo pago pelo uso excessivo de água e de outros recursos naturais para responder a um sistema de produção e consumo que ultrapassa toda lógica do que é possível. O panorama é “desolador", enfatiza o relatório, com 75% da população mundial em países onde a água é escassa ou seu acesso é inseguro. Além disso, com mais da metade dos grandes lagos do planeta secando rapidamente e 2 bilhões de pessoas habitando terras que afundam devido à "superexploração" da água subterrânea. "Em 50 anos", conclui o relatório, "foram perdidas áreas úmidas equivalentes a toda a superfície da União Europeia".

Tal cenário implica consequências sérias, e as evidências são irrefutáveis: a crise não conhece fronteiras. A agricultura, que consome 70% da água doce, está no epicentro do colapso. Quando as plantações em uma região secam, a escassez resultante impacta dramaticamente o preço dos alimentos. Inevitavelmente, isso atinge a segurança alimentar global e desestabiliza economias. "A água que falta aqui", alerta o relatório, "é perceptível na comida lá". Em conclusão: "Essa falência não é um problema local, mas um risco sistêmico que corre nas veias do comércio mundial". (https://news.un.org/es/story/2026/01/1541043).

O Ártico como nunca se havia visto

As mudanças climáticas estão deixando a região ártica irreconhecível, e isso afeta negativamente o restante do planeta. De acordo com o Relatório Ártico de 2025, o ano passado registrou duas décadas contínuas de aquecimento recorde.

Desde sua criação, em 2006, o Relatório Ártico, com apoio da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, sigla em inglês), tem fornecido atualizações anuais confiáveis sobre a situação do Ártico. O Programa de Monitoramento e Avaliação do Ártico (AMAP) apoia esse trabalho, facilitando a revisão independente do Relatório.

Produzido por 112 cientistas de 13 países, esse "boletim" documenta as tendências atuais, os eventos recorde e os desafios emergentes em uma região que está se aquecendo muito mais rápido que o resto do planeta. Uma das transformações em curso mais preocupantes desse processo é a ‘atlantificação’, uma dinâmica que força a circulação de águas mais quentes e salgadas para o norte e, com elas, espécies boreais que invadem os ecossistemas árticos.

A perda de 129 bilhões de toneladas da camada de gelo da Groenlândia somente em 2025 também é resultado desse processo. Embora abaixo do nível médio das últimas duas décadas, essa erosão confirma, no entanto, uma tendência neta de longo prazo. No Alasca, especificamente, as geleiras perderam em média 38 metros de espessura vertical desde meados do século XX, resultando em uma ampla redução generalizada da altitude das superfícies geladas. Esse é um retrocesso significativo dos glaciares, um fator chave para a elevação do nível do mar e uma nova ameaça: desde o alarmante declínio das reservas de água doce nas comunidades árticas até o aumento do risco de enchentes, deslizamentos de terra e tsunamis no restante do planeta. Tudo isso com riscos incalculáveis para pessoas, infraestruturas e costas.

O Relatório, também adotado e promovido pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), revela um aparente paradoxo: durante a temporada de neve de 2024-2025, o acúmulo foi acima da média em grandes áreas daquela região, mantendo-se alto até maio. No entanto, em junho, a extensão da cobertura de neve caiu abaixo dos valores normais, em linha com o observado nos últimos 15 anos. Cerca de metade disso vem sendo registrado há seis décadas: um sinal claro de uma mudança estrutural nesse subsistema climático. Um dos fenômenos mais marcantes documentados pelo estudo é o dos "rios oxidados" devido ao derretimento. Em mais de 200 bacias hidrográficas do Alasca, o descongelamento do permafrost (terra congelada ou abaixo de 0⁰C por pelo menos dois anos consecutivos) liberou ferro e outros metais, tingindo de laranja rios e córregos antes intocados. O aumento resultante da acidez e da presença de metais potencialmente tóxicos estão deteriorando a qualidade da água, comprometendo inevitavelmente habitats aquáticos e acelerando a perda de biodiversidade.

Detectado pela primeira vez no final dos anos 1990, esse ‘enverdecimento’ do Ártico é outro fenômeno da mesma realidade climática, alarmante devido à sua intensificação. Em 2025, a tundra ártica atingiu seu terceiro maior nível de verdor desde que os registros de satélite começaram. "Calor recorde, recordes mínimos de gelo marinho, geleiras recuando, aquecimento contínuo dos oceanos e eventos extremos sem precedentes estão redefinindo esta região", conclui o Relatório. (https://wmo.int/media/news/arctic-report-card-marks-20-years-amid-record-warming-2025).

América Latina e Caribe: região fragilizada

Um terço da água potável do planeta está localizada no continente latino-americano e caribenho, que representa apenas 8% da população mundial. Essa relação implica uma disponibilidade média de água potável por habitante quatro vezes maior do que a média mundial. No entanto, a região continua sofrendo com o estresse hídrico em cidades e áreas produtivas. Como resultado, 166 milhões de pessoas não possuem um serviço gerenciado de forma segura, menos da metade das águas residuais é devidamente tratada e um em cada dois países ainda não possui uma gestão integrada de seus próprios recursos hídricos.

Essa é uma realidade paradoxal se considerarmos que a América Latina e o Caribe desfrutam dos maiores níveis de precipitação – uma média de 1.600 milímetros por ano – mesmo que sua distribuição não seja uniforme. A variabilidade geográfica da precipitação, juntamente com uma sazonalidade marcada e o aumento da demanda em áreas de alta atividade econômica, causam esse estresse, cuja constatação é inquestionável. Por exemplo, o aumento da frequência e da gravidade das secas e de outros desastres relacionados à água naquela região, determinantes do aumento dos níveis de risco para a segurança alimentar e para os meios de subsistência dos agricultores.

Vários relatórios recentes do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC) confirmam as consequências do impacto climático na segurança hídrica, com uma inevitável diminuição da água de irrigação proveniente de geleiras que agora estão derretendo rapidamente, a perda de umidade do solo e sua capacidade decrescente de absorver CO2. Esse é um fenômeno que também produz maior evaporação em sistemas de irrigação por rega e superfícies de cultivos mais secas e quentes, entre outros problemas não menos graves (https://www.ipcc.ch/report/ar6/syr/downloads/report/IPCC_AR6_SYR_SPM.pdf).

A Europa não está em melhor situação

Devido às mudanças climáticas, a Europa também está secando. Essa é a conclusão de um estudo conjunto do University College London com a Watershed Investigations (uma organização independente de pesquisa) e o jornal britânico The Guardian, baseado em dados de satélite sobre variações no campo gravitacional da Terra.Publicado no final de 2025, esse artigo confirma que as reservas de água em grandes extensões de terra estão, inexoravelmente, em declínio, embora não da mesma forma em todos os lugares. Assim, por exemplo, o norte e noroeste do continente, da Escandinávia a partes do Reino Unido e Portugal, experimentam um aumento anual da umidade, enquanto o sul e sudeste, incluindo a Espanha, a Itália, a França, a Suíça, a Alemanha, a Romênia e a Ucrânia, enfrentam secas estruturais (https://watershedinvestigations.com/wp-content/uploads/2025/10/Watershed-Annual-Report-2024.pdf).

Há saída?

Apesar do enfraquecimento progressivo que a comunidade internacional e suas organizações multilaterais têm experimentado nos últimos tempos, Senegal e Emirados Árabes Unidos continuam organizando a próxima Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Água, que será realizada em dezembro de 2026. Esse evento tem como objetivo fortalecer um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas: "Garantir a disponibilidade da água e a sua gestão sustentável e do saneamento para todos", promovendo a vontade política, o investimento e a inovação para acelerar o progresso rumo a uma governança global adequada da água (https://sdgs.un.org/conferences/water2026).

Além da retórica e das conferências agendadas, milhões de seres humanos continuam aguardando que seja cumprida a recomendação de organizações internacionais de que cada indivíduo tenha entre 50 e 100 litros de água por dia e que o custo disso não exceda 3% da renda familiar. O planeta sofre com mais calor a cada dia, já enfrenta uma falência de água e milhões de seus habitantes são vítimas, em sua própria carne, do desrespeito a um direito humano essencial, o acesso à água potável.

Tradução: Rose Lima

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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