A crise sob medida

Há mais de 12 meses, todo o gigante aparato da mídia brasileira vem fazendo um esforço enorme para construir uma crise. A crise começou a ser construída nas eleições

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Vivemos uma crise no Brasil, não vivemos? A partir de um certo momento, isso virou consenso. A palavra virou inclusive sinônimo para 2015.

Afinal, que crise é essa? Quem é o responsável por ela? Quem a construiu? Como o país veio de uma situação próspera para o caos que nos assola?

Sim, a situação era próspera. O segundo mandato de Lula foi o que trouxe mais conquistas sociais e desenvolvimento desde... alguém consegue lembrar? A inclusão social aliada a uma política econômica expansionista provou ter dado muito certo. Em 2010, no auge do petismo e do anti-ciclismo de Guido Mantega, o país atingiu a marca de crescimento do PIB de 7,6%.

A partir daí, o país passou por alguns solavancos, tanto econômica quanto politicamente. Mantega não soube lidar com uma economia aquecida, e suas tentativas de crescimento por meio de desonerações provaram não ter dado certo. O plano de desenvolvimento era fraco. Além disso, houve as manifestações de 2013. Até agora, essas manifestações são difíceis de serem lidas. O que poderia ter acontecido naquele ano em que, apesar de o país já ter passado por momentos melhores, foi marcado por um ótimo índice de aprovação de Dilma Rousseff? Não esqueçamos, Dilma fez um primeiro mandato com várias conquistas. O aumento recorde no salário mínimo real, o pleno emprego, a construção recorde de moradias pelo Minha Casa Minha Vida, o fortalecimento do Pronatec, do Prouni e do Bolsa Família, entre outros. Além disso, a coragem da presidenta ao reduzir a SELIC a um nível histórico foi um feito a se comemorar.

O fato é que, há mais de 12 meses, todo o gigante aparato da mídia brasileira vem fazendo um esforço enorme para construir uma crise. A crise começou a ser construída nas eleições, mas talvez isso tenha continuado por causa da pequena margem de vitória de 51,64% que Dilma obteve.

Os grandes meios de comunicação fizeram o possível para construir um imaginário de que o governo deveria ser mais austero. Era o que Aécio Neves e a oposição defendiam. Dilma gastou seu tempo de propaganda eleitoral para dizer que era contra a austeridade, e que as conquistas iriam continuar se ela fosse reeleita.

Não foi isso que aconteceu. Aí entra a parcela de culpa de Dilma, que resolveu abrir mão da sua união com as bases sociais das eleições para poder dar uma guinada de 180º à direita na economia. Com Joaquim Levy, o ajuste fiscal - e portanto a crise econômica - foi instaurado. Aliado à política contracionista de cortes de gastos, a SELIC passou por um aumento progressivo, passando a 14,25% atualmente. O desemprego aumentou, a indústria se degrada cada dia mais, e a projeção é de crescimento negativo para 2015.

Dilma tomou a decisão errada. O mais engraçado, no entanto, é ver tanto a oposição quanto a mídia mostrando o ajuste fiscal como uma maldade imperdoável de Dilma, mesmo sendo eles seus defensores. A crise é nova, não se enganem. Apesar de a situação não estar ótima em 2014, ela é bem diferente de 2015. O Brasil obteve o menor índice de desemprego da história em dezembro. A crise não foi construída nos últimos 12 anos, e sim durante os últimos 12 meses.

É claro: a crise não é somente econômica. É muito preocupante ver que Dilma não tem quase nenhum tato político. Desde o começo do ano, a presidenta não apareceu para dar satisfações. Ao contrário de Lula, que não dava espaço para crises políticas, Dilma não tem nem habilidade nem vontade de preencher o vácuo de poder que existe no Planalto. Soa quase ridículo que o governo não ouça os apelos de sua base social. O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, é a personificação do clima de derrotismo que se passa pelo governo. Além de todas as complicações, esse vácuo de poder abriu espaço para que o Congresso passasse diversas pautas conservadoras ao longo do ano. Por outro lado, a ausência de Dilma fez com que a oposição - e principalmente Aécio Neves - soasse um tanto esquizofrênica e ressentida, sem saber como agir. Resultado é que o PSDB não tem sido protagonista nas manifestações, que tem sido tomadas pela narrativa de "impeachment", "fora PT" e "não à corrupção".

Dilma cometeu um erro parecido com o cometido por Getulio Vargas: resolveu se aliar à direita e às elites em detrimento do povo que a elegeu. Essa mesma direita que ajudou a construir e destruir Fernando Collor, essa mesma direita que apoiou a ditadura o tempo inteiro, e essa mesma direita que fez de tudo para se livrar de Lula.

É bom lembrar: certas revistas semanais brasileiras chamaram o escândalo do Mensalão como "o maior caso de corrupção da história" (e não só do Brasil), mesmo que alguns escândalos como o Mensalão Tucano, o caso do Banestado, a Privataria Tucana e o Trensalão (sempre esquecidos pela mídia) envolveram muito mais dinheiro que o escândalo do PT. Ninguém é a favor de corrupção. No entanto, a noção de que a corrupção no Brasil começou em 2003 é uma construção puramente midiática.

Não tem jeito. 16 anos é muito tempo para a oposição, ainda mais depois de 38 anos de direita no poder. Vendo que nem a enxurrada de mentiras e distorções midiáticas nos últimos anos não foram suficientes para que o PT fosse derrubado, agora a palavra de ordem é o impeachment, mesmo que não haja (e acreditem, nunca vai haver) nenhuma base jurídica para um impedimento. É um atalho, já que a direita não tem conseguido construir um candidato forte e desenhar um bom plano de governo que convença a população como o PT tem conseguido.

O fato de a Globo ter emitido um editorial em que se posiciona contra o impeachment é algo que confunde qualquer analista político. Depois de meses de estruturação de um golpe, o império da Globo tira o corpo, talvez por temer que mais uma vez a empresa seja vista como uma dos apoiadores a um golpe.

Não há outro jeito: a solução é enfrentar a crise, e não deixar que ela seja danosa ao país. Chega de deixar o Congresso virar esse reduto conservador. Chega de deixar a esquerda dando um tiro no pé atrás do outro.

Dilma deveria estar reconstruindo sua base social, e de preferência reformando o seu ministério. A volta de Lula ao governo seria um ótimo plano para recuperar a confiança política dos seus eleitores. Jaques Wagner poderia ser um ótimo substituto para Mercadante, que parece ser o que há de pior no governo.

O ajuste fiscal também tem que passar o mais rápido possível. Dilma precisa substituir Joaquim Levy até o fim do ano por um ministro que esteja comprometido com o crescimento do Brasil, de modo que o desemprego volte a diminuir e o crescimento volte a subir.

Outras medidas são essenciais para que o Brasil possa se livrar do fantasma do golpismo, mas essas são impossíveis atualmente, dado o contexto. A regulamentação da mídia, de um modo semelhante ao que foi feito no Reino Unido, na Alemanha, na França e na Argentina, já é necessária há muito tempo aqui. Sem ela, os meios de comunicação são uma terra sem lei dos poderosos. Uma reforma política que instituísse o financiamento público das campanhas seria fundamental para diminuir a corrupção. Talvez ainda mais importante, uma reforma tributária que tornasse mais progressiva a tributação brasileira, focando os impostos na renda ao invés de no consumo e na propriedade, traria justiça social e crescimento.

O problema é que a oposição e principalmente o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (que tem ganhado cada vez mais poder), são contra todas essas reformas, tendo sido responsáveis por atrasá-las mais ainda.

A crise no Brasil, assim como foi construída, pode ser desconstruída. Para isso, é essencial que Dilma Rousseff reconheça seus erros, tome os problemas para si e trate deles logo. Não há outro jeito.

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