A crítica de Tolstói a Shakespeare
Notamos que as exigências de Tolstói para o teatro e para toda arte são muito altas
Nesta semana, reli páginas de Tolstói selecionadas de seus textos no livro “Os últimos dias”. De passagem, anoto que a releitura de autores clássicos é ainda melhor que a leitura, porque descobrimos realidades que antes nem sonhávamos. O que copio agora vem do seu longo ensaio “Sobre Shakespeare e o teatro”: “(Nas peças de Shakespeare) continuei sentindo invariavelmente a mesma coisa: aversão, tédio e incredulidade. Ausência de sentido dos discursos das personagens.”
No Rei Lear, “esse sentimento verdadeiro, expresso em palavras simples, poderia suscitar compaixão, mas em meio ao delírio pomposo, incessante, de Lear, fica difícil notá-lo e ele perde seu significado. Shakespeare não tem capacidade para delinear um personagem ou fazer palavras e ações brotarem com naturalidade de situações; a linguagem é uniformemente exagerada e ridícula; ele com frequência coloca os próprios pensamentos aleatórios na boca de qualquer personagem conveniente; mostra uma ‘ausência total de sentimento estético’; e as palavras ‘nada têm em comum com arte e poesia’”.
Na crítica a esse texto de Tolstói, George Orwell usou de veneno e mentira quando escreveu que na demolição do gênio russo ao Rei Lear, a peça foi escolhida entre todas as obras de Shakespeare por este motivo: “Não seria possível que alimentasse um ódio em relação a essa peça por ser sabedor, consciente ou inconscientemente, da semelhança entre a história de Lear e sua própria história?”. Primeiro, não é verdade: Tolstói escolhe o Rei Lear por ser essa a peça mais elogiada do dramaturgo. Em segundo lugar, ou primeiro, Tolstói terminou os seus dias amado por todo o mundo, menos pela Igreja Ortodoxa Russa, que o excomungou. E terceiro, mais: poucos autores se mantiveram tão criadores e criativos quanto ele na velhice... Velhice de Tolstói, o que digo? Em resumo, ele nada tinha do Rei Lear. A razão da sua escolha, podemos ver aqui:
“Esperei receber o grande prazer estético. Mas ao ler, uma após outra, aquelas consideradas as melhores dentre suas obras, ‘Rei Lear’, ‘Romeu e Julieta’, ‘Hamlet’ e ‘Macbeth’, não só não senti prazer como experimentei a repugnância irresistível, o tédio e o receio de estar louco por achar insignificantes e francamente ruins obras consideradas o auge de perfeição por todo o mundo erudito”.
E sobre o Hamlet, uma das peças máximas do teatro, eis o que fala o maior romancista da literatura russa: “Mas, por ser ponto pacífico que o genial Shakespeare não pode escrever nada ruim, os eruditos direcionam todos os esforços da mente para encontrar a extraordinária beleza naquilo que é um defeito óbvio e salta à vista, que se expressa de forma especialmente aguda em Hamlet, isto é, que o protagonista não tem nenhum caráter. E então os críticos compenetrados declaram que nessa peça, na pessoa de Hamlet, está expresso um caráter completamente novo e profundo, que consiste exatamente no fato de esse personagem não ter caráter, e que nessa ausência está genialidade da criação de um caráter profundo!”.
Mas sem demora, vamos ao cerne da questão, que pude ver na releitura. Aqui é o lugar onde a crítica de um dos maiores escritores que já houve se engana de gênero:
“Assim é o segundo ato, pleno de acontecimentos artificiais e de falas mais artificiais ainda, que, não provindo das circunstâncias em que estão envolvidas as personagens, terminam com a cena de Lear e suas filhas, que poderia ser forte se não fosse intercalada pelos discursos de Lear, ridiculamente pomposos, artificiais e, acima de tudo, sem nenhuma relação com a ação. As oscilações de Lear entre orgulho, raiva e esperança por concessões das filhas poderiam ser bastante comoventes se não tivessem sido arruinadas por aqueles absurdos prolixos que pronuncia o rei”.
Ou aqui, mais uma vez direto no Rei Lear:
“Em primeiro lugar, seria necessário fazer o pai (Gloucester) verbalizar esse desprezo, e em segundo lugar Edmond, no monólogo sobre a injustiça das pessoas que o desprezam por ser filho ilegítimo, deveria mencionar essas palavras do pai. Mas isso não acontece”.
Então pude ver: é claro que Tolstói exige para o teatro (o que o fez inclusive cometer engano em relação às peças de Tchekhov), ele chega a exigir e recomendar para o palco o que não cabe no gênero. O melhor dessa crítica equivocada de Tolstói ao Rei Lear é que ela é genial como crítica a personagens.... de um romance! É reveladora do seu próprio método de criar na literatura. E nesse engano contra Shakespeare ocorre, contraditoriamente, uma sábia lição sobre os personagens no seu próprio romance e em toda obra de ficção em prosa. Em Shakespeare faltaria sinceridade, que em Tolstói não falta, fala:
“sinceridade, isto é, o próprio autor deve sentir de forma aguçada o que está sendo representado por ele. Sem essa condição não pode haver nenhuma obra de arte, pois a essência da arte consiste no contágio daquele que percebe uma obra com sentimentos do autor. Se o autor não sentiu aquilo que representa, o receptor não experimenta nenhum sentimento do autor, e a obra já não pode ser considerada uma criação artística”.
Isso deixa a gente a pensar. Tolstói tem razão ao escrever esse princípio para toda obra de arte? Será mesmo assim? O parágrafo acima lembra Goethe: “Tudo quanto se destina a surtir efeito nos corações, do coração deve sair”. O que Goethe escreveu de forma poética, Tolstói escreveu de modo contundente, como um juiz supremo de causa julgada que não admite recurso.
Por fim, notamos que as exigências de Tolstói para o teatro e para toda arte são muito altas. Segundo ele, o autor deve ser um criador “que possui algo extremamente importante para dizer às pessoas sobre a relação dos homens com Deus, com o mundo e com tudo o que é eterno e infinito”. Sem dúvida, Ele é alto, perturbador e comovente. Penso que uma exigência tão grande somente pode ter sido realizada por raros: Bach, Cervantes e Homero. Além de Tolstói, é claro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

