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Valéria Guerra Reiter

Escritora, historiadora, atriz, diretora teatral, professora e colunista

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A Cruzada democrática com seus fantoches e capitães do mato

Crítica à violência estatal e às contradições de uma democracia que falha em garantir direitos básicos à população periférica

Polícia Militar de São Paulo (Foto: Governo do Estado de SP)

As Cruzadas Medievais foram movimentos militares e religiosos que surgiram como respostas ao apelo do Papa Urbano II em 1095, durante o Concílio de Clermont, para libertar a Terra Santa do domínio muçulmano. As Cruzadas nunca defenderam um Jesus que deu a outra face. O número de mortos oriundos da cruenta marcha por Jesus Cristo foi estimado entre 1 e 3 milhões de pessoas ao longo de todo o período, incluindo cristãos, muçulmanos e judeus.

“Thawanna da Silva Salmázio, 31 anos, foi morta com um tiro no peito pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira, 21, durante abordagem na Cidade Tiradentes, Zona Leste de SP, na madrugada de 3 de abril de 2026. Imagens de câmera corporal registraram o disparo após uma briga e uma espera de mais de 30 minutos por socorro".

“Um vídeo de uma mulher negra sendo contida e colocada à força dentro de uma viatura, pela Polícia Militar, tem causado comoção nas redes sociais. O caso ocorreu na Avenida Paulista, na tarde de sexta-feira".

Os dois casos frisados acima são “os visíveis” do momento, ou seja, duas gotas no mar da truculência exercida pelos novos capitães do mato da nossa República democrática, especialmente no Estado de São Paulo. Este é o modus operandi que controla e inibe a população periférica no Brasil.

Enquanto bilhões voavam das mãos de corruptos — vide o caso do RIOPREVIDÊNCIA, MASTER, INSS —, o trabalhador brasileiro é tratado a pontapés por um braço forte do Estado: a polícia.

A democracia é um totem conjuntural, ou funciona como uma rainha que prende e arrebenta os súditos reclamantes e mal remunerados dentro de sua estrutura? Acho que, muito pelo contrário, ela possui um códex promulgado, chamado Constituição, que, em seu artigo 5º, garante igualdade a todos. Não é?

Ao longo da história do Brasil republicano, tivemos a alternância de poderes democráticos e ditatoriais. A Independência brasileira, por sinal, legou uma Constituição (1824) constituída por um poder moderador, que dava plenitude de ação a D. Pedro I, até mesmo para dissolver o parlamento à época. Era uma prerrogativa pessoal e inviolável do soberano, exercida com o auxílio de um Conselho de Estado.

E o que temos para hoje?

Um povo que ainda é “público”, como disse Lima Barreto, uma população que flutua na torpeza, no mar de políticos que representam uma elite burguesa, que só pensa em maximizar ganhos, seja por meio de fraudes milionárias, como o caso do banco Master, INSS e outros escândalos, ou por meio da sonegação de políticas reais que estimulem a mobilidade social dos menos favorecidos.

O Projeto de Lei 1424/26, da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), por exemplo, equipara o antissemitismo ao crime de racismo, com pena de reclusão de 2 a 5 anos e multa, e sem possibilidade de prescrição ou fiança. O texto está em análise na Câmara dos Deputados.

São atitudes como esta que comprovam que há uma involução regimental na estrutura dos poderes constituídos, que coloca no poder “mentes fantoches” advindas de um torpe imperialismo abjeto.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.