A cruzada judicial de Edir Macedo contra jornalistas pecadores
Edir Macedo acumula histórico de ofensivas judiciais contra jornalistas, enquanto o Banco Digimais amplia a pressão sobre o bispo da Universal
O fundador e líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, não está enroscado com a Justiça pela primeira vez, agora que o Banco Digimais, do qual é controlador, foi flagrado em fraudes à moda Master. As peripécias empresariais e políticas do bispo, indissociáveis de sua atividade religiosa, são bastante conhecidas, bem como a pregação falso-moralista do partido Republicanos, por ele apadrinhado e orientado. Em outro polo de atuação, há não muito tempo, a Iurd consagrou-se por usar o Judiciário como instrumento de coação.
Macedo e a Universal retaliavam jornalistas que ousavam apontar-lhes pecados: fiéis e pastores moviam diferentes ações, em diversas e distantes localidades, obrigando profissionais que denunciavam suas más condutas a um périplo desgastante física, mental e financeiramente. Mesmo sendo derrotado em tais ações, o bispo e sua igreja destruíam a capacidade de trabalho do jornalista. O repórter que pecava contra a fé macediana, portanto, recebia sua punição.
O caso mais conhecido é o da repórter Elvira Lobato, da Folha de São Paulo. Em 2007, ela publicou uma reportagem sobre o império empresarial construído pela Iurd. Lobato e o jornal da Barão de Limeira tornaram-se alvos de 111 ações judiciais. Os processos foram abertos simultaneamente em Juizados Especiais Cíveis de pequenas comarcas e cidades do interior, muitas vezes em localidades nas quais a Folha nem sequer circulava.
Com audiências marcadas em locais de difícil acesso, como no interior do Rio Grande do Sul ou no do Acre, a repórter viu-se obrigada a percorrer o país incessantemente, arcando com altos custos de deslocamento e tempo. O objetivo institucional por trás dessa tática era, obviamente, criar um efeito inibidor e inviabilizar a defesa. Embora Lobato e a Folha tenham vencido todas as ações — a maioria julgada improcedente —, o desgaste emocional da repórter foi implacável, precipitando sua aposentadoria.
Em 2020, o Ministério Público Federal acionou a Justiça Federal contra a Iurd. A ação foi motivada pelo caso do jornalista e escritor João Paulo Cuenca, que fizera uma publicação crítica à igreja de Edir Macedo em suas redes sociais. Ele se tornou alvo de mais de 140 ações judiciais simultâneas espalhadas pelo Brasil, movidas por pastores da Iurd utilizando petições com modelos idênticos.
O MPF pediu a condenação da Universal ao pagamento de R$ 5 milhões por danos morais coletivos. Os procuradores exigiram que o dinheiro fosse integralmente revertido para o financiamento de projetos de proteção e enfrentamento à violência contra jornalistas. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), o Instituto Tornavoz, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e os Repórteres Sem Fronteiras atuaram no processo para demonstrar que o assédio causava autocensura sistêmica na profissão.
A farra jurídica pouco cristã da Universal teve fim em 2024, quando o STF, em resposta ao MPF, decidiu que o ajuizamento em massa de ações idênticas em diferentes comarcas caracteriza assédio judicial. A decisão, unânime, estabeleceu que, para evitar o constrangimento e a inviabilidade da defesa da imprensa, os processos devem ser centralizados na cidade de domicílio do jornalista processado.
Elvira Lobato e João Paulo Cuenca não foram os únicos jornalistas perseguidos por Edir Macedo e sua sanha mais argentária que evangelizadora. O experiente Gilberto Nascimento, em 2023, publicou reportagens detalhando documentos de investigações do Ministério Público de São Paulo envolvendo a Universal. Os textos revelavam movimentações financeiras bilionárias provenientes de doações bancárias. Houve pedidos de abertura de inquéritos policiais criminais contra o repórter por parte da cúpula da igreja.
Nascimento relatou publicamente seu profundo desgaste por ser criminalizado e investigado pela polícia apenas por reproduzir informações contidas em autos oficiais e documentos públicos.
Outro caso de lawfare provocado por Edir Macedo e seus apóstolos foi o de Bruno Thys e Valmar Hupsel Filho, em 2007. Na mesma época em que Elvira Lobato publicou sua icônica matéria na Folha de S.Paulo, esses jornalistas também assinaram reportagens sobre as atividades e a expansão patrimonial da Universal. Bruno Thys editava o jornal Extra, do Rio de Janeiro, e Valmar Hupsel Filho reportava para A Tarde, da Bahia.
A Abraji denunciou que a Iurd orquestrara uma retaliação conjunta: Thys foi alvo de pelo menos 35 ações simultâneas, enquanto Hupsel Filho enfrentou dezenas de processos paralelos no Nordeste. Os veículos foram obrigados a mobilizar departamentos jurídicos inteiros e deslocar funcionários para prestar depoimentos em pequenas comarcas distantes, gerando custos operacionais altíssimos. Os jornalistas venceram as ações no mérito, mas o estrago em suas vidas não foi pequeno.
O escândalo — anunciado — do Banco Digimais será enfrentado por Edir Macedo em outros termos. Mover ações contra jornalistas no exercício da profissão é mais fácil que responder às duras inquirições a que são submetidos supostos criminosos financeiros. Que Deus o trate piedosamente.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

