A cultura sucateada, ainda mais, em meio à pandemia

Chegamos em mais uma semana de quarentena com tristes recordes batidos: passamos de cinco mil mortes por causa do novo coronavírus e, com isso, ultrapassamos a China em relação ao número de óbitos pela doença, que está se alastrando a uma velocidade assustadora em todo país, colapsando o SUS em vários estados e municípios

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Olá, companheiros e companheiras. Chegamos em mais uma semana de quarentena com tristes recordes batidos: passamos de cinco mil mortes por causa do novo coronavírus e, com isso, ultrapassamos a China em relação ao número de óbitos pela doença, que está se alastrando a uma velocidade assustadora em todo país, colapsando o SUS em vários estados e municípios. 

Na esteira deste processo, a pressão dos empresários e das federações de comércio levou à abertura das lojas, podendo causar um número ainda maior de contaminação nos próximos dias. E em pleno final de abril, seguimos sem um plano nacional de enfrentamento à Covid-19, organizado e estruturado pelo Governo Federal, para auxiliar estados e municípios, que estão tendo que “se virar” para conter o avanço da doença. 

Todos nós – e já escrevi vários textos – estamos preocupados com a economia. Principalmente com a falta de ação do Palácio do Planalto na criação de políticas públicas que garantam a subsistência de trabalhadores e empresários. Diante deste cenário, a meu ver proposital, as manifestações e a pressão para a reabertura do comércio têm intensificado. Só que há algumas categorias que estão, simplesmente, esquecidas pelos nossos governantes. Uma delas é a cultura. 

Também estamos “carecas” de saber que o presidente Jair Bolsonaro não tem uma afeição pela cultura nacional. Já deixou isso claro em várias oportunidades. Entretanto, sinalizou – ainda que de forma bem singela – que tentaria mudar esta percepção ao indicar a consagrada atriz Regina Duarte ao posto de Secretária Nacional de Cultura, órgão ligado ao Ministério do Turismo. Contudo, poucos meses após o anúncio, Regina pensa em pedir exoneração, segundo reportagem publicada pela Revista Veja. A justificativa seria a falta de autonomia para tocar projetos e escolher a própria equipe. 

Se o cenário a nível nacional está tenebroso, nos entes federativos também. Aqui no Espírito Santo, o Governo Estadual lançou um edital através da Secretaria Estadual de Cultura para contemplar 300 projetos com o valor de R$1.200. Pouco diante da quantidade de artistas que temos espalhados pelo território capixaba. As principais cidades do estado não têm desenvolvido projetos para ajudar a categoria, que se encontra de mal a pior. 

Alguns, que são autônomos, conseguiram o auxílio emergencial de R$600. Mas, cá entre nós, sabemos que não dá para fazer muita coisa com este dinheiro. Apenas pagar as contas. Com os espaços fechados, não há trabalho. Não tem como ensaiar, nem mesmo fazer cursos para conseguir uma renda extra. 

Os artistas capixabas têm tentado aproveitar a febre das lives para fazer apresentações pela internet, através das redes sociais. Só que o retorno tem sido muito baixo. Infelizmente, o mesmo país que dá 38 milhões de visualizações para uma live sertaneja (um recorde mundial) não valoriza os talentos que estão em cada esquina. 

E o drama da classe artística não é divulgado em nenhuma emissora. Nem uma nota de rodapé. É como se não existissem. Essa falta de importância para uma área tão nobre ajuda a explicar muitos dos problemas que temos enfrentado na sociedade brasileira, uma vez que cultura e educação caminham lado a lado. 

É preciso haver um plano nacional de ajuda aos artistas, músicos, atores, atrizes, artistas circenses, entre tantos outros, durante a pandemia. Uma ajuda de custo que poderia ter como contrapartida a exibição de peças a apresentações pela internet, com massiva divulgação nas redes sociais pelos órgãos públicos. 

Já no pós-pandemia, é necessário que estados e municípios desenvolvam projetos que estimulem o consumo da cultura. Ações que envolvam apresentações em escolas, ida de estudantes aos teatros, apresentações em praças públicas e parcerias com associações de moradores para levar a população até os espaços culturais. 

É preciso também uma ação coordenada que divulgue as atrações locais nas emissoras regionais, abrindo assim espaços para que a iniciativa privada se interesse em patrocinar e fomentar a cultura local (as lives sertanejas estão contando com mais de cinco patrocinadores, muitas vezes). 

Mas, é mais que urgente que a classe artística diminua o ego e se una. Que os beneficiados de sempre dos editais públicos olhem para outros artistas como parceiros e não competidores. Que dividam o bolo, para que a cultura chegue a todos. Infelizmente, ainda há, em uma grande parcela da população, a ideia de que a arte é um negócio voltado apenas para a elite. Que os teatros e museus não são lugares acolhedores para o grosso da população. Essa realidade tem que ser modificada, o mais rápido possível. 

E, por fim, que todos nós tenhamos a responsabilidade de fomentar e apreciar os artistas locais. Não adianta pedirmos mais cultura e educação se nós mesmos não damos o exemplo e fazemos o dever de casa. 

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