A decadência cultural das classes dominantes do Brasil: ideologia, má-fé e abandono do projeto histórico
As classes dominantes escolheram abandonar a cultura, o pensamento crítico e a mediação simbólica. Escolheram um presente empobrecido e um futuro estreito
A cultura pode ser compreendida como uma dimensão constitutiva da vida social, expressa tanto nas belas-artes quanto nas formas cotidianas pelas quais a humanidade produz e reproduz sentidos ao transformar a natureza e a si mesma. Ela se manifesta em obras, linguagens, técnicas, valores e práticas que resultam do trabalho humano historicamente situado, articulando criação simbólica e condições materiais de existência. Longe de ser um adorno ou privilégio de poucos, a cultura é campo de disputa, mediação entre sujeitos e sociedade, e elemento central na produção das identidades, dos conflitos e dos projetos coletivos.
Em Marx, a cultura jamais será um ornamento neutro da sociedade. Ela integra a superestrutura ideológica, articulando-se às relações materiais de produção e desempenhando papel central na legitimação da dominação de classe. A cultura produz sentidos, naturaliza desigualdades e ajuda a transformar interesses particulares em aparência de interesse geral. Sob essa batuta, a relação histórica das classes dominantes brasileiras com a cultura nunca foi desinteressada. Tratou-se sempre de uma dimensão estratégica da reprodução do poder.
Ainda no Brasil imperial, esse movimento foi particularmente evidente. Dom Pedro II construiu a imagem do monarca ilustrado, mecenas das artes e das ciências, frequentador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, financiador da participação nacional em exposições universais. Como demonstra Lilia Moritz Schwarcz em As Barbas do Imperador, o romantismo foi elevado a projeto oficial de Estado, contribuindo para a construção simbólica da nação sob a hegemonia das elites. Em termos marxistas, tratava-se de um esforço consciente de direção ideológica, necessário à consolidação de uma ordem social profundamente desigual.
Ao longo do século XIX e de boa parte do século XX, a formação de bacharéis, engenheiros, médicos, professores, militares e clérigos integrou o mesmo projeto. A criação de universidades, museus, teatros, bibliotecas e jardins botânicos respondia à necessidade de produzir uma elite capaz de se apresentar como classe dirigente, não apenas dominante. Mesmo quando marcada pelo mimetismo europeu, sobretudo francês, a chamada francofonia, essa cultura cumpria uma função precisa. Sua missão era oferecer à dominação material um verniz civilizatório, uma narrativa de progresso e racionalidade.
Neste artigo, Marx ajuda a entender a lógica; Sartre ajuda a qualificar a escolha.
Para Sartre, nenhuma classe social é apenas efeito passivo das estruturas. As classes fazem história dentro de condições determinadas, mas escolhem projetos, assumem ou recusam responsabilidades. A cultura, nesse sentido, não é apenas um reflexo da base econômica, mas parte de um projeto consciente de mundo. Durante décadas, as elites brasileiras escolheram sustentar uma cultura que lhes permitisse exercer hegemonia, ainda que excludente e elitista.
O abandono do projeto cultural
No capitalismo contemporâneo, marcado pela financeirização extrema e pela redução de qualquer horizonte de longo prazo, a cultura deixou de ser funcional às classes dominantes brasileiras como instrumento de hegemonia. Incapazes, desinteressados e, hoje, marcados pela ignorância, se mostram incapazes de dirigir moral e intelectualmente a sociedade, essas classes passaram a operar majoritariamente pela coerção econômica e política, com doses excessivas de violência física. Em termos gramscianos, já não exercem hegemonia; exercem apenas dominação.
É nesse ponto que a crítica sartreana à má-fé se torna decisiva. As classes dominantes brasileiras se apresentam como reféns da “crise”, do “mercado” ou do “Estado inchado”, como se não tivessem alternativas. Mas essa negação da liberdade é, em si, uma escolha. A destruição das políticas culturais, o ataque às universidades, o estrangulamento da pesquisa científica e a mercantilização extrema da vida simbólica não são fatalidades históricas e, sim, são decisões políticas reiteradas.
A Lei Rouanet e o cinema brasileiro
Um exemplo claro dessa dinâmica é a demonização da Lei Rouanet, uma política pública de fomento cultural criada em 1991 que permite que empresas e pessoas físicas destinem parte do Imposto de Renda para financiar projetos culturais. Essa legislação tem sido alvo de críticas que a retratam como um privilégio para artistas famosos, ignorando o fato de que milhares de trabalhadores culturais dependem dela para sobreviver. O cinema brasileiro, por exemplo, tem sido um dos setores mais afetados por essa narrativa distorcida. Filmes de longa-metragem, como O Agente Secreto, não são contemplados diretamente pela Lei Rouanet, que se aplica mais a produções audiovisuais específicas. Contudo, a legislação do audiovisual, que também opera pela lógica da renúncia fiscal, tem sido crucial para viabilizar projetos cinematográficos.
Cantores sertanejos e a captação de recursos
Ao mesmo tempo, dados recentes revelam que os maiores beneficiários da Lei Rouanet são cantores sertanejos, que lideram com ampla vantagem a captação de recursos. Em 2025, artistas como Gusttavo Lima, Bruno e Marrone, e Leonardo foram os que mais faturaram com a lei, com valores que ultrapassam dezenas de milhões de reais. Esse fenômeno levanta questões sobre a distribuição desigual dos recursos culturais e como a narrativa ideológica pode desviar o foco das verdadeiras questões estruturais que afetam o setor.
A convergência entre ideologia e má-fé
A demonização da Lei Rouanet expressa com clareza essa convergência entre ideologia marxiana e má-fé sartreana. Uma política pública de fomento cultural foi transformada em símbolo moral negativo, reduzida à imagem do “artista privilegiado”. Trata-se de um mecanismo ideológico clássico. Desloca-se o foco das estruturas para indivíduos caricaturais, ocultando o fato de que a cultura é trabalho e que milhares de trabalhadores culturais dependiam dessa política para sobreviver.
Aqui, Marx e Sartre se encontram. A ideologia funciona porque permite que os sujeitos não saibam aquilo que poderiam saber. E, como lembra Sartre, essa ignorância escolhida é uma forma de responsabilidade. Não querer compreender a função social da cultura é um ato político.
Efeitos do abandono cultural
O efeito desse processo é duplo. Materialmente, produz o desmonte de cadeias produtivas culturais, o fechamento de espaços, a precarização do trabalho artístico. Simbolicamente, gera o que Sartre chamou de serialidade, que marca uma elite fragmentada, composta por agentes econômicos isolados, unidos apenas pela defesa imediata de privilégios, incapazes de formular um projeto histórico minimamente coerente.
Essa elite já não se apresenta como portadora de um futuro possível. Ao abdicar da cultura, abdica também da capacidade de produzir sentido, de organizar o consenso, de narrar a si mesma como necessária. O resultado é uma classe dominante forte economicamente, mas pobre simbolicamente, incapaz de exercer direção moral e intelectual sobre a sociedade.
Marx nos ensina que nenhuma dominação se sustenta indefinidamente apenas pela força. Sartre nos lembra que nenhuma classe pode se esconder para sempre atrás das estruturas. As classes dominantes brasileiras escolheram abandonar a cultura, o pensamento crítico e a mediação simbólica. Escolheram um presente empobrecido e um futuro estreito.
Restou-lhes o poder nu e cru desprovido de projeto histórico, incapaz de produzir hegemonia e marcado pela má-fé de quem, podendo escolher outro caminho, decidiu negar a própria responsabilidade diante da história. É crucial que a sociedade civil e os movimentos culturais se mobilizem para reivindicar o papel central da cultura na construção de uma sociedade mais justa e democrática.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
