A democracia demagoga e a revolução socialista

Na sua obra Política, Aristóteles fez um destaque que torna sua visão extremamente atual: as formas de governo estariam sujeitas à degradação por interesses privados de uma minoria. Nesse caso, a democracia perderia o sentido, se tornando mera Demagogia, a própria deturpação do conceito democrático

JOesley
JOesley (Foto: Guilherme Coutinho)

Ha mais de 2300 anos, o filósofo grego Aristóteles já conceituava e debatia sobre as formas de governo. Em sua obra “Política”, o pensador diferenciava a democracia da monarquia (governo autocrático) e da aristocracia (governo de poucos), justamente por ser o “governo de muitos”, ou seja, participação popular no poder. No entanto, Aristóteles fez um destaque que torna sua visão extremamente atual: as formas de governo estariam sujeitas à degradação por interesses privados de uma minoria. Nesse caso, a democracia perderia o sentido, se tornando mera Demagogia, a própria deturpação do conceito democrático.

O conceito de Demagogia, aliás, é o que temos visto aplicado nos regimes “democráticos”, de uma forma geral. Na Demagogia de Aristóteles, a representação popular é uma falácia para enganar as massas, enquanto o objetivo é exclusivamente a obtenção do poder político. Ocorre que, em uma sociedade predominantemente capitalista, onde a concentração de renda é a regra, o poder político não se diferencia claramente do poder econômico. Os interesses públicos são mitigados em detrimento dos interesses particulares e a participação popular perde completamente o sentido.

 No Brasil, apesar da reforma política e das incertezas a respeito das próximas eleições, temos exemplos recentes muito claros. Nas últimas eleições o grupo J&F foi o maior doador das três maiores campanhas presidenciais e ajudou a eleger 162 deputados, de diferentes partidos e ideologias. A AMBEV, empresa que tem entre seus produtos mais rentáveis diversas marcas de cerveja, elegeu 76 deputados, de 19 partidos. Independente de crises financeiras de qualquer espécie, os bancos continuam batendo recorde de lucro a cada trimestre e a taxa de juros está sempre entre as mais altas do mundo. O mercado de especulação e compra de poder político, ocorre também em países desenvolvidos, como Estados Unidos e as maiores potências europeias, como bem explica o economista Ladislau Dowbor, em seu livro “A Era do Capital Improdutivo”.

Dessa forma, o Capital sequestra a democracia e o que temos é apenas uma manutenção demagoga e sistemática dos detentores de renda no poder. E se os interesses financeiros eventualmente perderem nas urnas, a Demagogia capitalista  já possui sua medida de segurança: na América do Sul, que foi um reduto esquerdista nas últimas décadas, houve 13 deposições de presidentes, nos últimos 25 anos.  Entre os casos mais emblemáticos, o de Fernando Lugo, no Paraguai, e de Dilma Rousseff, no Brasil.

Percebendo as ferramentas de manutenção da burguesia no poder, há um século, Lênin enxergou na revolução a única forma de colocar o povo no centro das decisões. “Democracia é o fuzil no ombro do operário”, teria dito pouco antes da Revolução de 1917. O mesmo ocorreu na Revolução Cubana, em 1953, onde o proletário foi à luta instituir o socialismo. Apenas com a revolução foi possível desapropriar os meios de produção e, de certa forma, colocar o povo (demos) no poder (Kratos). Essa é a visão revolucionária de democracia.

Se uma revolução não pressupõe, necessariamente, uma guerra civil, exige, sim, uma ruptura coletiva radical de percepção do conceito democrático. O juízo de que apenas o voto é necessário para mudar o status quo é completamente equivocada e, de certa forma, ingênua. Para retomar o poder usurpado do povo pelo Capital, somente com mobilização e muita consciência política. Pois como disse Sócrates, filósofo e amigo de Aristóteles, “A sabedoria começa na reflexão”.

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