A destruição da soberania do Brasil

"Bolsonaro destruiu o Brasil. Mergulhou o país na morte, no desemprego, na desigualdade, na pobreza, na fome, na devastação ambiental", escreve Marcelo Zero

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(Foto: Reuters)


Por Marcelo Zero

Costuma-se comparar, com razão, a figura lamentável de Bolsonaro com fascistas históricos, como Hitler e Mussolini. De fato, ele compartilha ideologia e práticas políticas semelhantes com aqueles grandes ditadores.

Contudo, talvez a figura histórica que mais se assemelha a Bolsonaro não seja algum desses ditadores do século XX, ou ainda alguma outra liderança autoritária deste século, como Trump, mas sim um personagem ainda mais sinistro e violento: Átila, o Huno.

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É que esses outros ditadores e lideranças autoritárias conseguiram, algumas vezes, construir alguma coisa, antes de seu final apocalíptico. Hitler, por exemplo, conseguiu reconstruir a economia alemã, arrasada pelo fardo da derrota da Primeira Guerra Mundial e a recessão de 1929.  

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Mas, no que tange a Bolsonaro, não se consegue identificar propostas inovadoras ou construções de coisa alguma, em qualquer campo. Bolsonaro apenas destrói. Como Átila, por onde ele passa, a grama não cresce mais. Fica um chão poeirento e estéril.

Ele se dedica a destruir todas as políticas e programas uteis e produtivos, sem colocar nada funcional e viável no lugar. A recente extinção do Bolsa Família, programa considerado modelo em nível mundial, é exemplo acabado desse apetite insaciável pela destruição, dessa pulsão de morte.

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Bolsonaro destruiu o Brasil. Em tempo recorde, acabou ou fragilizou sua economia, sua cultura, sua educação, sua produção de energia, seu meio ambiente etc. Mergulhou o país na morte, no desemprego, na desigualdade, na pobreza, na fome, na devastação ambiental. O país está na fila dos ossos, literal e metaforicamente

Há um campo, contudo, no qual a destruição bolsonarista se destaca: a política externa.  

Nesse campo estratégico, a destruição é total.   

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É natural, e democrático, que governos eleitos imponham suas marcas na política externa.  

Assim, a política externa do Brasil sofreu variações em sua história. Governos conservadores colocaram, em geral, maior ênfase em alianças assimétricas com os EUA e aliados, ao passo que governos progressistas se empenharam mais na integração regional, na construção de parcerias estratégicas com potências emergentes e na articulação dos interesses dos países em desenvolvimento no cenário internacional.

Entretanto, em quaisquer dos casos, a política externa brasileira, conduzida por uma competente burocracia especializada, não perdeu de vista os interesses nacionais  

Bolsonaro, porém, rompeu com esse paradigma histórico.  

A política externa bolsonarista, particularmente na gestão Ernesto Araújo, caracterizou-se justamente por atrelar o Brasil não apenas aos interesses geopolíticos de um outro Estado, mas aos ditames ideológicos de uma corrente política de extrema direita dos EUA, o trumpismo. Pela primeira vez em sua história republicana, o Brasil tornou-se satélite de um extremado governo alienígena e de seus ideólogos locais e internacionais. Os interesses nacionais foram abandonados.

Essa abjeta submissão colonial destruiu, ou contribuiu para destruir ou fragilizar:

  1.  As políticas ambientais internas e os compromissos internacionais do país no combate ao aquecimento global. Passamos de ator responsável e positivo a grande vilão ambiental do planeta.  
  2.  A atuação progressista no campo dos Direitos Humanos, especialmente no Conselho dos Direitos Humanos da ONU. Nesse órgão, passamos a nos aliar com países como Arábia Saudita e Paquistão, para atacar os direitos das mulheres e de outros grupos.  
  3.  A integração regional. Com Bolsonaro, a prioridade é a integração assimétrica com os EUA e alguns aliados; não com os vizinhos. Por isso, Bolsonaro atacou o Mercosul soberano, retirou o Brasil da Unasul e abandonou a Celac, instâncias vitais da integração regional. Ademais, instigado pelos EUA, passou a hostilizar vizinhos, como a Venezuela, por motivos ideológicos.
  4.  As relações bilaterais com a China, nosso principal parceiro comercial, em obediência às exigências geopolíticas e ideológicas de Trump, e, agora, de Biden.
  5.  A articulação com o BRICS. Criado pelo Brasil, esse grupo, essencial para um mundo multipolar, foi praticamente abandonado pelo governo subalterno aos EUA.
  6.  A projeção do Brasil na África, no Oriente Médio e outras regiões. No Oriente Médio, as exceções são as ditaduras conservadoras do Golfo Pérsico. No resto dos países árabes e muçulmanos, as relações, antes cordiais, se tornaram tensas, devido à nova política de apoio às ações agressivas de Israel, que contrariam diversas Resoluções da ONU.  
  7.  A articulação dos interesses dos países em desenvolvimento em instâncias estratégicas, como a OMC, por exemplo. Antes uma vertente prioritária da nossa política externa, agora foi abandonada, em virtude da subalternidade geopolítica.
  8.  E, last but not least, a participação do Brasil na ONU e suas agências especializadas, como a OMS e sua iniciativa da Covax, e o combate à pandemia. De propugnadores de grandes avanços na saúde pública mundial, como a defesa da política de produção de genéricos na OMC, passamos a ameaça sanitária global, situação revertida graças aos esforços da CPI do Senado.   

 
 

Como se nota, trata-se de vasta destruição, que faria o próprio Átila corar.

O Brasil, no entanto, é muito maior e muitíssimo melhor que o bolsonarismo destruidor da nossa imagem e da nossa soberania.   

A reversão desse trágico quadro será, é claro, custosa e difícil, pois o Brasil, com Bolsonaro, perdeu o essencial em diplomacia: credibilidade.  

Para que essa reversão seja possível, precisaremos de um “anti Átila”. De um verdadeiro líder, comprometido, ao mesmo tempo, com os interesses nacionais e as grandes causas do planeta.  De alguém que seja capaz de negociar e construir pontes com todo o Mundo. De um estadista de nível internacional, com prestígio e credibilidade.

Precisaremos de Lula.  

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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