A direita brasileira: de Fernando Henrique Cardoso e Jair Bolsonaro
Da social-democracia ao bolsonarismo, a direita brasileira aprofundou o neoliberalismo e o antipetismo no País
A polarização fundamental no mundo contemporâneo se dá entre neoliberalismo e antineoliberalismo. Desde que o capitalismo assumiu o neoliberalismo como sua concepção de mundo e projeto político, a polarização entre direita e esquerda passou a se dar em torno dessa oposição. A direita é neoliberal; a esquerda, antineoliberal.
Nas palavras de George Bush, “o Estado deixou de ser solução para ser problema”. Isto é: deixou de ser motor da expansão econômica para passar a ser visto como obstáculo, porque é quem imprime moeda, gerando inflação. É também quem tenta regulamentar as relações econômicas, violando as normas do mercado.
Fernando Henrique Cardoso era um dos assistentes do catedrático Florestan Fernandes. O mais à esquerda era Octavio Ianni; FHC era o mais moderado.
FHC se identificava com a social-democracia europeia. Quando essa corrente deu uma virada — com referências de FHC, como François Mitterrand e Felipe González, assumindo que qualquer governo sério teria de começar colocando as finanças públicas em dia, isto é, promovendo um ajuste fiscal —, FHC seguiu o mesmo caminho. Para surpresa geral, chamou Antonio Carlos Magalhães para conversar.
E colocou em prática uma política neoliberal — ainda que mais moderada do que a de outros governantes, porque sua mulher, Ruth Cardoso, implementava algumas políticas sociais. Controlou inicialmente a inflação, mas ao custo de aumentar ainda mais as desigualdades características da sociedade brasileira.
Derrotou Lula duas vezes no primeiro turno, surgindo como o novo grande líder da direita brasileira, capaz de derrotar a esquerda e o PT.
Mas terminou seu mandato com a retomada da inflação e com o apoio político em baixa, chegando ao fato inédito de praticamente desaparecer o PSDB como partido. Isso favoreceu, finalmente, a vitória de Lula, depois de três derrotas presidenciais — duas para FHC e uma para Fernando Collor de Mello.
Sem o PSDB, a direita enveredou por outro caminho: o bolsonarismo, confirmando que sua obsessão é o antipetismo, a tentativa de impedir que o PT e Lula chegassem ao comando do Brasil.
Vale qualquer um, contanto que possa ser o anti-Lula, oponente frontal do PT e de Lula. Com o golpe do impeachment contra Dilma Rousseff e a prisão de Lula — contando com a atuação firme da mídia e do Judiciário —, a direita brasileira se jogou nos braços de Jair Bolsonaro, elevando-o à Presidência da República. Lula, o melhor dos brasileiros, preso; Bolsonaro, o pior, presidente do País. O melhor dos sonhos para a direita brasileira, que passou, assim, de FHC a Bolsonaro.
A direita brasileira, caracterizada pela adoção do neoliberalismo, teve em FHC seu principal líder político até desembocar no bolsonarismo como expressão mais radical do antipetismo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

