A direita brasileira já não sabe o que quer

Sociólogo Emir Sader diz que o que une a direita e a extrema direita é o modelo neoliberal. "O desempenho trágico de Bolsonaro afetou a unidade da direita que, desconcertada, não sabe bem para onde ir e o próprio ao país. Mas não tem honestidade de fazer sua autocrítica", afirma

Atos da esquerda e do MBL
Atos da esquerda e do MBL (Foto: Reprodução)
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Por Emir Sader

Responsável direta pela situação trágica a que levou o Brasil, a direita já não sabe mais bem o que quer.

A direita se uniu para impor a ditadura militar em 1964. Na saída da ditadura, se dividiu, um setor ficou firme com os militares, com a candidatura de Paulo Maluf. Outro setor se aliou à oposição para impor uma via moderada na transição, com Tancredo Neves e, depois, José Sarney.

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Depois do fracasso do governo Sarney, a direita se reciclou para apoiar a Fernando Collor e, posteriormente, a FHC, para implementar o modelo neoliberal. A direita seguiu unida com as candidaturas tucanas contra os do PT, durante os governos deste.

A direita manteve sua unidade no golpe contra a Dilma, no apoio ao governo Temer e ao Bolsonaro.

Os objetivos da direita são claros: manter o governo sob seu controle, manter e aprofundar o modelo neoliberal, consolidar aliança internacional com os Estados Unidos. Para isso, precisa, antes de tudo, derrotar o PT, da forma que seja, impedir que esse partido volte a governar.

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Mas não sabe mais como levar a cabo esses objetivos. Colocando como prioridade o bloqueio ao PT, levou ao governo um personagem que ela não apenas não controla, mas com o qual, provavelmente, seria levada à derrota e ao retorno do PT ao governo.

A direita brasileira hoje está dividida. Uma parte mantém o apoio a Bolsonaro, valoriza sobretudo a política econômica de Paulo Guedes, com a qual ganha muito. Tolera tudo o que faça e diga o Bolsonaro, em função desses interesses.

Outra parte já não apoia politicamente Bolsonaro. Apoia sua política econômica, mas sabe que com ele vão à derrota em 2022. Buscam alternativas: algum candidato da terceira via, Mourão ou outro qualquer. Mas vacilam entre tentar derrubar Bolsonaro ou deixar de apoiá-lo para 2022.

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Outro setor está frontalmente contra ele. Já nem apoia mais Paulo Guedes. Considera Bolsonaro um risco para a democracia. Busca um outro candidato no primeiro turno, até mesmo o Temer. No segundo, até prefere Lula. Fazem parte dela os tucanos, ou pelo menos uma parte deles, liderada pelo FHC e outros partidos do próprio Centrão, que já estiveram na base de apoio do governo Lula.

A divisão da direita é sempre um sinal da possibilidade de vitória da esquerda. Que está unida em torno do Lula: PT, PC do B, PSB, Psol, até mesmo alguns setores do PDT. Outras candidaturas, como a de Ciro Gomes, não conseguem decolar e aparecer como alternativa.

Caso haja segundo turno, o Lula poderá contar com um apoio ainda mais amplo, para ter uma vitória arrasadora.

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Mas, para evitar qualquer aventura golpista, Lula precisaria ganhar já no primeiro turno, ganhando a setores que hoje apoiam o Ciro Gomes e outros candidatos menores, chamando o voto útil contra o Bolsonaro: Lula é o único que pode derrotar o Bolsonaro.

A direita está desconcertada, pela opção de ter eleito a Bolsonaro em 2018.  Valia tudo para derrotar o PT. Ela sabia quem era Bolsonaro, mas isso não contava. Tudo seria melhor do que o PT.

Faz o Brasil pagar um preço caríssimo pela postura aventureira da direita brasileira – incluindo desde a extrema direita, passando pelos partidos tradicionais da direita, até chegar aos tucanos.

O desempenho trágico de Bolsonaro afetou a unidade da direita que, desconcertada, não sabe bem para onde ir e o próprio ao país. Mas não tem honestidade de fazer sua autocrítica.

Tucanos e sua mídia – como a Folha de São Paulo – fazem a ginástica de encontrar culpa no PT pelo que vive no país. Por ser a alternativa coerente à direita, teria favorecido a escolha da direita pelo Bolsonaro. Como se o PT devesse ter renunciado a disputar contra a direita. Ou devesse apoiar a um candidato tucano, como o Alckmin, em 2018, que estava na casa dos 5%.

O problema de fundo é que o que une a direita e a extrema direita é o modelo neoliberal. Daí que se oponham frontalmente ao PT, porque os governos petistas colocaram em práticas políticas econômicas antineoliberais.

Hoje a direita está dividida e não sabe bem por onde caminhar. Parece impotente e pronta para ser vítima de uma nova grande derrota. Ela gostaria que não fosse apoiar Bolsonaro, mas talvez não lhe reste alternativa.

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