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José Álvaro de Lima Cardoso

Economista

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A dívida pública dos EUA é impagável?

A dívida dos EUA, longe de sinalizar fraqueza, funciona como pilar do poder global do dólar e da hegemonia financeira e militar norte-americana

Um funcionário segura notas de dólar americano em uma casa de câmbio em Jacarta, Indonésia, em 9 de abril de 2025 (Foto: Willy Kurniawan/Reuters)

Quando nos referimos à dívida pública dos EUA, embora gigantesca como percentagem do PIB e com uma taxa de crescimento rápida, esses aspectos não são apontados como um perigo enorme, e menos ainda o governo estadunidense é ameaçado por instituições financeiras internacionais para que reduza a sua dívida. Longe disso, a dívida pública do principal país imperialista no cenário internacional é expressão de força desse país, colocando sua moeda e seus títulos públicos como referência de valor internacional. – Adhemar S. Mineiro, economista, membro da Coordenação da ABED (Associação Brasileira de Economistas pela Democracia).

Atualmente, a dívida bruta total dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 38,4 trilhões. Para se ter uma ideia da velocidade de crescimento, o país atingiu a marca de US$ 38 trilhões em outubro de 2025, o que representa um dos acúmulos mais rápidos de capital fora de períodos de pandemia. No terceiro trimestre de 2025, a dívida pública total representava aproximadamente 121% do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano. Isso significa que a dívida do país é significativamente maior do que tudo o que ele produz em um ano.

Para uma visão em perspectiva, a dívida bruta total dos EUA equivale a mais de 16 anos de PIB brasileiro, considerando um produto aproximado de US$ 2,32 trilhões em 2025. O crescimento anual da dívida dos EUA é quase igual ao PIB total anual do Brasil. Esse aumento é alimentado não apenas por novos gastos, mas também pelo pagamento de juros, que se tornou uma das partes do orçamento federal que mais cresce devido às taxas de juros mais elevadas. O estoque atual da dívida e os gastos diários com juros implicam, como no caso do Brasil, a redução da capacidade do Estado de sustentar outras despesas, como infraestrutura, ciência e saúde.

A financeirização do orçamento afeta diretamente, inclusive, a estratégia imperialista dos EUA, majoritariamente assentada em sua capacidade de agressão militar em todas as partes do mundo. A aproximação ou ultrapassagem dos gastos com a dívida em relação aos gastos com a guerra mostra a magnitude do fenômeno da financeirização nas economias de todo o mundo. Os EUA são o país que promove e patrocina a guerra no mundo todo, seja por objetivos econômicos imediatos, seja em função de objetivos geopolíticos e militares. Apesar disso, nos últimos anos, a aceleração dos juros e os gastos com a dívida cresceram mais rapidamente do que os gastos militares.

O efeito da dívida pública sobre o governo norte-americano tem similaridades com o que acontece nos países atrasados, apesar do poderio político, econômico e militar do país. Gastos maiores com juros reduzem a margem para o exercício de despesas discricionárias, incluindo gastos com defesa e investimentos em geral, sem elevar impostos ou aumentar o déficit.

O governo brasileiro sofre duras críticas quando apresenta um déficit orçamentário primário (ou seja, desconsiderando os gastos com juros) de 0,50% do PIB, como ocorreu em 2025 (estimativa). No entanto, o déficit primário dos EUA no ano fiscal de 2025 foi de aproximadamente US$ 1,1 trilhão, 1,8% do PIB. Ou seja, 3,6 vezes o déficit do Brasil, considerando a relação com o PIB. Podemos imaginar o estardalhaço que a grande imprensa promoveria se o Brasil apresentasse um resultado primário em suas contas nessa magnitude.

Nos EUA, como acontece no Brasil, entra governo, sai governo e, independentemente da posição política, ninguém tem força para enfrentar o problema da dívida pública. Com a diferença de que, no caso dos EUA, como se trata do país mais imperialista do mundo e dono da máquina de imprimir dólares, ninguém cobra superávits primários nas contas públicas.

A dívida pública não é um problema específico dos EUA, mas um desafio sistêmico global, especialmente depois da pandemia ocorrida em 2020/21. A razão dívida pública global/PIB saiu de cerca de 84% em 2019 para algo em torno de 90% do PIB em 2022–2023, com projeção de se aproximar de 100% do PIB em pouco tempo. Entre os países do mundo, a maior dívida/PIB é a do Japão, acima de 230% (em janeiro de 2026), exigindo forte atuação do Banco do Japão para não sair de controle.

Há vários fatores para o aumento do endividamento dos países, como a mudança na estrutura demográfica, que pressiona previdência e saúde; choques de energia e alimentos etc. Mas é muito importante o ciclo de alta de juros, a partir de 2022, que elevou o serviço da dívida em todo o mundo. Em países onde o perfil da dívida é de curto e médio prazos, a deterioração da relação dívida/PIB ocorreu mais rapidamente. As chamadas lacunas de arrecadação (diferença entre impostos devidos e arrecadados), o aumento da economia informal e regimes tributários regressivos dificultam muito o ajuste pelo lado da receita.

Os efeitos do aumento da dívida sobre a economia mundial são nefastos. As dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal das economias elevam os spreads (diferença de rendimento entre um título de dívida e uma taxa de referência considerada mais segura) soberanos e corporativos, produzindo um contágio regional. A dívida elevada dificulta as políticas públicas de uma forma geral, inclusive a capacidade do governo de realizar ações anticíclicas, o que reduz a capacidade de estabilização econômica e investimento público.

Em dezembro de 2025, o governo dos Estados Unidos detinha 39,5% da dívida pública mundial total, o que equivale a US$ 38,4 trilhões de um total mundial estimado em US$ 97,1 trilhões. Ao mesmo tempo em que uma dívida – considerada impagável por alguns – é um sério problema para os EUA, a concentração de boa parte da dívida no país reforça o poder dos EUA. Os títulos do Tesouro norte-americano são o principal ativo, mais ou menos seguro, do sistema financeiro e referência da tendência global de juros. Isso provoca uma forte demanda por esses títulos, o que fornece uma garantia para o financiamento da dívida.

Ao mesmo tempo, a ainda predominância do dólar como instrumento de reservas e transações financeiras internacionais, e o monopólio da emissão dessa moeda, inclusive sem lastro, fornecem aos EUA um poder inigualável no mundo. Por isso, não deixa de ser surpreendente, por exemplo, que a economia russa continue crescendo acima da média global, mesmo sendo o país mais sancionado da história do mundo, com cerca de 16 mil a 20 mil medidas (as estatísticas sobre o tema variam bastante). Em 2025, aliás, a Rússia ascendeu ao 10º lugar entre as principais economias do mundo, ultrapassando o Brasil.

A maior parte dos pagamentos internacionais é realizada com o dólar e com base em infraestrutura sediada nos EUA, como, por exemplo, os bancos correspondentes. Obviamente, os negócios realizados com dólar se submetem às leis e à regulação financeira norte-americanas. Como quase toda grande instituição no mundo necessita do dólar e de bancos americanos, o governo dos EUA impõe sanções que retiram esse acesso de indivíduos, empresas e países. Os EUA inclusive impõem sanções secundárias, ou seja, se um banco de outro país negociar com um ente sancionado, está sujeito a perder o acesso ao dólar, o que leva as instituições a não negociarem com empresas ou países sancionados. Os EUA são o único país do mundo que tem esse poder, o qual usa com muita frequência, sem se fazer de rogado: atualmente mantém milhares de sanções ativas contra pessoas físicas, empresas e países.

Parece também sintomático que o país que tem a maior dívida pública do mundo em termos absolutos esteja tomando ações para uma conflagração de grande envergadura em nível internacional, que tende a alterar dramaticamente a configuração geopolítica mundial. Os sinais são muitos e observados em todos os quadrantes: guerra na Ucrânia, golpes de Estado no mundo todo, provocações à China utilizando Taiwan, organização de “revoluções coloridas” e tentativas de desestabilização de países, em vários pontos do planeta (com atenção especial para a América Latina). Não se trata do governo de Donald Trump, que inclusive atrapalha um pouco a estratégia do chamado “Estado profundo” norte-americano, em função de suas bases políticas, que são contra a guerra.

A China é o “inimigo a ser derrotado”. Não apenas no sentido militar tradicional, mas como um “competidor estratégico definitivo”. Os EUA avaliam que a China é o único país no mundo com capacidade econômica, tecnológica, militar e diplomática de não apenas desafiar, mas de substituir a ordem internacional liderada pelos EUA desde 1945. O ritmo de desenvolvimento apresentado pela China em todas as áreas amedronta os EUA, que se acostumaram a ser a única superpotência nos últimos quase 40 anos.

A China também é a grande rival na guerra tecnológica, a qual disputa em igualdade de condições, por exemplo, nas áreas de semicondutores e inteligência artificial. Mas o gigante asiático tem um “defeito” adicional: além de ter gastos muito menores com juros de sua dívida em relação aos EUA, esta representa apenas 78% do PIB e está sob controle.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.