A divisão do mundo

www.brasil247.com - Presidente dos EUA, Joe Biden
Presidente dos EUA, Joe Biden (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein/File Photo)


O senhor Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, com a anuência de líderes europeus e ocidentais, esses últimos mais por uma fragilidade óssea e um senso duvidoso de oportunidade do que por qualquer grandeza de espírito, resolveram dividir o mundo de um modo muito conveniente para eles ocidentais – nós latino-americanos, para tristeza de alguns, estamos fora --, a saber, o lado do mundo livre e das democracias: o Ocidente, e do outro lado, o mundo autocrático e das tiranias: a Rússia, a China, a Venezuela, Cuba e países da Eurásia.

É peculiar essa definição/distinção, é verdadeiramente curiosa essa democracia do mundo livre, ou como bem define uma banda manguebeat de Pernambuco: Mundo Livre S/A. O grande comércio de democracia que existe desse lado do Globo. Aliás, comércio de democracia e de liberdade, de corpos e de direitos, de subjetividades e de valores porque esse mundo livre de acordo a definição do Senhor Joe Biden de fato opera como um grande negócio onde esses ativos acima mencionados são especulados e precificados como em uma autêntica Bolsa de Valores.

Esse mundo livre e democrático, se nos recordamos bem, não teve o menor problema em desestabilizar regimes soberanos mundo a fora, tampouco de promover invasões e guerras donde bem entendessem, sequer de forjar situações que “justificassem” as campanhas militares que se empreendiam, claro, em nome da paz e dos direitos humanos de povos oprimidos por seus estados nacionais e líderes indigestos... mas, indigestos para quem? Essa questão cabe em muitas situações.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

É possível que povos asiáticos, africanos, latino-americanos e do Oriente Médio se ressintam dessa definição do Sr. Biden e tenham muitas dúvidas quanto a veracidade dela, mas, como não são ocidentais, a força de suas palavras tem valor relativo, menor, em resumo: não contam. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A cruzada libertária e democrática dos Estados Unidos e Europa ocidental evoca memórias fortes nos povos “autocráticos”. A China teria de lembrar e associar esse enunciado dos líderes ocidentais às Guerras do Ópio, travada na primeira metade do século XIX por ordens da conservadora e moralista rainha Vitória. Essa guerra fora travada pelo império inglês contra a China em razão de que o mercado chinês não se interessava pela manufatura inglesa tanto quanto o mercado inglês se interessava pelas sedas e porcelanas chinesas gerando um enorme déficit na balança comercial inglesa frente à China, até que a Inglaterra, da moralista rainha Vitória, encontrou um produto que teve grande penetração na China, o ópio. Este produto é extraído de substância ativa da papoula, vegetal em que a Inglaterra produzia na sua colônia ao lado da China, a Índia, e provocou uma grave crise sanitária na China forçando as autoridades sanitária e política desse país a tomar medidas duras contra o comércio do ópio no país.

A Inglaterra não gostou das sanções do governo imperial chinês, sentiu-se comercialmente prejudicada já que esse produto, o ópio, entrava no mercado chinês por intermédio de comerciantes ingleses e estadunidenses, sobretudo os primeiros. Em nome da liberdade comercial, valor caro ao mundo anglo-saxônico e o seu liberalismo econômico, a Inglaterra tendo as suas reclamações não atendidas pelo governo imperial, resolveu atacar militarmente a China. Tinha uma grande vantagem na armada e nas peças de artilharia de suas forças, pois era a grande potência industrial da época, e assim invadiu a China cobrando fortes reparações de guerra e comerciais dela, entre outras, que a China não sancionasse o produto inglês, o ópio. Interessante como as sanções possam ter conveniências tão distintas entre uma e outra época ou entre uma e outra circunstância para um mesmo Estado.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Foram duas Guerras do Ópio da Inglaterra contra a China e por razões semelhantes, a saber, como a China sofrera forte epidemia do ópio em sua população resolveu, mesmo depois do primeiro revés militar, sancionar novamente esse comércio e seus agentes dentro e fora da China. Resultado: a Inglaterra invadiu de novo a China e dessa última empreitada isolou Hong Kong da China e a tornou colônia da Inglaterra, além de assegurar a Portugal o controle de Macau, ilha ao lado de Hong Kong.

Vocês leitores e leitoras dirão: mas faz muito tempo isso... Eu diria: sim, é verdade, faz muito tempo; e até muita coisa mudou de lá pra cá no contexto da geopolítica. O império inglês já não existe como antes, aquele em que a rainha Vitória dizia que era o Império “onde o sol nunca se punha”, pois de onde você mirasse o globo terrestre haviam colônias inglesas. Agora restam as ilhas Malvinas, argentinas, e outras possessões menores, contudo, o orgulho e o espírito colonial e imperialista mudaram no Reino Unido? A fleuma hegemonista, dominante, apagou, adormeceu, naquele Reino?

Os Estados Unidos sucessores do imperialismo anglo-saxônico, por exemplo, em nome da liberdade e da defesa intransigente da democracia invadiu o Vietnã, que lutou bravamente contra o colonialismo francês e depois o inglês, e os venceu, inclusive aos Estados Unidos. Esse grande país, os EUA, também invadiu os vizinhos vietnamitas do Laos e do Camboja, e um pouco mais adiante, a Coreia; tudo, evidentemente, para combater os autocratas da outra parte da linha traçada hoje e antes por Washington, Londres, Paris, Roma, Bruxelas e Berlin.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Os africanos também têm muito do que se recordar quando provocados por esse traçado do mundo desenhado pelo Senhor Biden. O escravismo dos povos africanos pelos europeus e depois Senhores de terras americanos entre os séculos XV e XIX que enriqueceu as matrizes europeias e consolidou potências econômicas como Estados Unidos e Brasil deixando no coração da humanidade um legado incurável de racismo contra os povos negros.

O regime do Apartheid no século XX na África do Sul, por exemplo, teve o ostensivo apoio de Washington, e o grande líder da resistência sul-africana, Nelson Mandela, que ficou mais de vinte anos preso pelo regime de Pretória, neste período fora proibido pelo governo estadunidense de entrar em seu território pois classificado de terrorista. Como o mundo dá suas voltas, Nelson Mandela liberto foi o principal avalista do acordo que celebrou com o último presidente africâner (sul-africanos de origem holandesa e inglesa), Frederick De Klerk, e pôs fim ao regime do Apartheid, doravante já escancarado para o mundo a quem cabia de fato a promoção de um sistema político de terror. Mandela foi eleito presidente da África do Sul e patrocinou a pacificação daquele país. Nenhuma outra liderança branca de origem europeia teria condição de fazer pela paz e a inclusão dos negros no Estado de Direito como fez Mandela. Então, de terrorista, os Estados Unidos passaram a ver Mandela como um símbolo da paz. Mas Mandela que lutara incansavelmente contra o regime do Apartheid teria sido antes, de fato, um terrorista? Washington desde sempre não sabia disso?

As veias abertas da América Latina como bem escreveu o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano são outras memórias vivas de como o Ocidente constitui no mundo o lado da civilização e da dignidade humana, dos direitos e da paz. Foram séculos de exploração e saqueio, obra ainda não finda e absolutamente compreendida pelos latino-americanos cada vez que tentam constituir em cada um de seus países um governo soberano e de inclusão e desenvolvimento social. Um governo de respeito e preservação aos povos originários e seus territórios e tradições.

A Europa que vive um raquitismo impressionante de lideranças, e uma memória cada vez mais curta de sua própria História, de certo que tem por conveniência o esquecimento do que representou a sua empresa colonial e escravista nesse mundo em que o sol nunca se punha. Lembremos que, apesar de declinado, esse colonialismo europeu ainda não cessou totalmente; citei um pouco antes as Ilhas Malvinas (que se localizam no mar territorial da Argentina e a quinze mil quilômetros da Inglaterra, mas é ocupada por esta, e dela recebe o nome de Falklands), ademais, as Guianas francesas que pertencem à França, embora faça fronteira física com o Brasil na região amazônica. A Martinica nas Antilhas, sob o domínio da França, e também nessa região as Ilhas Virgens britânicas e as Ilhas Virgens estadunidenses. E não esqueçamos de Porto Rico, constituído como o “quinquagésimo primeiro estado dos Estados Unidos”, mas que não tem direito a representação no Congresso Nacional desse país. Na realidade Porto Rico não é um estado, mas um território não incorporado dos EUA, por isso sem direito a representação no Parlamento Central em Washington, nem seus naturais podem votar nas eleições do país controlador, portanto, território, é um eufemismo de colônia.

Do lado da Oceania e no Pacífico Sul tem-se o Havaí nas cercanias da Polinésia, bem distante do território dos Estados Unidos mas que também pertence a esse país. Apesar de não noticiado pela mídia dos EUA e do Ocidente há grupos separatistas no Havaí que lutam por sua independência. Acima da América do Norte tem-se o Alaska, antigo território russo, contudo vendido em 1867 pelo czar Alexandre II, da última dinastia do império russo, os Románov, aos Estados Unidos, um negócio muito polêmico na época. Alegou-se à ocasião que fizeram isso temendo que a Inglaterra, que dominava o Canadá, estendesse o seu domínio ao Alaska, tomando-o da Rússia. Bem, diferente da situação de Porto Rico, Havaí e Alaska foram incorporados como estados na matriz, os EUA.

Esse desenho do mundo, essa Tordesilhas tardia, dá uma medida do quanto procede a linha traçada pelo senhor Biden conforme o seu discurso da luta do Bem contra o Mal. E nós latino-americanos com as memórias que temos da escravidão, do massacre dos povos originários, do saqueio de nossos minérios forjando riquezas nas Cortes europeias e os regimes de exceção que funcionaram como prepostos das classes dominantes endógenas e potências hegemônicas como os Estados Unidos, Inglaterra, França, podemos, sim, compreender as significações disso.

Ora, se é verdade que o mundo se divide entre o lado livre e democrático e o lado autocrata e ditatorial que tal a parte libertária do mundo reconhecer e reparar, ressarcir, os danos materiais e morais, as mortes que causou por seus processos colonialistas e imperialistas nos países, continentes e povos que tiveram o dissabor de sentir no lombo o chicote da purgação libertária e o abc da gramática da democracia e civilização ocidental?

A Inglaterra que não suportou o sancionamento do governo imperial chinês em face a invasão do ópio em seu território pelos comerciantes ingleses – com graves custos sanitários para a população local -- não tem qualquer drama de consciência em propor sancionamento, mais: cancelamento de países que não rezam por suas receitas libertárias e modelo de democracia. A União Europeia (UE) com o legado de sua empresa colonial eugenista também não! E os Estados Unidos que ungidos pelos pais peregrinos que os colonizaram a ser o farol do mundo livre e cristão não observam qualquer pudor em ser os xerifes do mundo, a régua moral da humanidade, na eterna batalha dos cara pálidas contra os peles vermelhas em sua versão globalizada.

Seria então de pensar que a democracia, a liberdade e os direitos que se nos propagandeiam massivamente o Ocidente com os seus poderosos alto-falantes seja uma utopia hollywoodiana ou a tragédia não escrita por William Shakespeare? That´s the question.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email