A dupla Lula e Alckmin, rumo à vitória nas urnas, resgata palavras como amor, solidariedade e cuidado

"Não é uma aliança do ponto de vista eleitoral. A dobradinha com Alckmin é sobretudo uma aliança social", escreve Denise Assis

www.brasil247.com - Lula e Alckmin em Itaquera
Lula e Alckmin em Itaquera (Foto: Ricardo Stuckert)


Por Denise Assis, para o 247

A última pesquisa Datafolha, antes da votação do domingo, 2 de outubro, deu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o favorito para vencer o pleito, com 50% dos votos válidos, contra 36% do seu opositor, o atual presidente Bolsonaro. Um quadro extremamente vantajoso, mas que ainda não permite cravar antes de domingo, ser Lula eleito no primeiro turno. Ao mesmo tempo, demonstra ser a sua vitória, iminente, na medida em que 91% dos eleitores afirmam que não mudarão os seus votos. 

No comando da campanha do Partido dos Trabalhadores (PT), reina o cuidado. Com a segurança de Lula, com uma possível interpretação de que comemoram antecipado e com a mobilização até o último minuto. Uma certeza, porém, tomou conta de todos: foi uma campanha atípica. Não estavam concorrendo contra um grupo de candidatos. Havia do outro lado não um ou mais a serem vencidos, mas um “sistema de poder autoritário, o neofascismo a ser derrotado”, como definiu muito bem, um importante quadro. 

 Atípica, porém extremamente bem estruturada, esta foi também uma campanha cerebral. Em tempos de pós-verdade, de fake News, de redes sociais e autoritarismo, não poderia ser diferente. Por isto a necessidade de se costurar uma aliança como nunca vista – nem na campanha das diretas – em sua amplitude e coesão. Vieram todas as Centrais Sindicais do país e mais o apoio de nove partidos, além dos movimentos sociais, até então dispersos.

A princípio, tanto os bolsonaristas o acusavam de não “pisar na rua”, quanto os militantes demonstravam estar intrigados com a ausência das caravanas pelo interior do país, ou grandes manifestações pelas praças, com a presença de Lula. O candidato Luiz Inácio Lula da Silva custou, de fato, a aparecer. Não por medo, como insinuaram os bolsominions, tampouco por falta de estratégia, como chegaram a temer os petistas.

Pelo contrário. Desde o dia 08 de novembro de 2019, em sua primeira aparição pública organizada pelo partido, no sindicato dos metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, após deixar a prisão e se apresentar como candidato -, ele declarou em um discurso histórico, estar com “muita vontade de lutar”. Não para se vingar dos 580 dias em que amargou a prisão ou destilar ressentimento, mas para guiar o país sem ingerência das Forças Armadas, (parte dela comprometida com o governo em curso, como explicitou naquela fala), e para unir o país em torno da reconstrução e da transformação. 

Para isto não bastava sair às ruas reunindo em torno de palcos, em comícios caros e trabalhosos, apenas os seus.

Desta vez a decisão do partido e do Lula foi iniciar a campanha por articulações. Todas feitas pela direção, nos diversos estados, mas sacramentadas e finalizadas por ele. 

Ao conglomerado de partidos reunidos em torno da sua candidatura, para a construção política e social da aliança, o ex-presidente deu o nome de: “Vamos Juntos, Brasil”. 

Um dos avanços apontados pela direção do PT, é ter conseguido reaglutinar o campo da esquerda e da centro-esquerda. Um feito que não se consegue há muitos anos. Foi mantida a parceria histórica com o PCdoB, recuperada a aliança de longos anos com o PSB - de onde saiu o vice, Geraldo Alckmin -, e conquistada a adesão de partidos criados para rivalizar com o PT, como o Psol e a Rede. 

Os que cobravam a ocupação das ruas viram sem entender muito bem a movimentação da direção: a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, o deputado Paulo Teixeira, o ex-ministro Aloizio Mercadante, todos cuidando de conversas e mais conversas. Estava muito claro para a executiva nacional a necessidade de se dialogar e construir uma aliança político-eleitoral, no país inteiro, mas também e fundamentalmente uma aliança social. Só assim seria possível enfrentar o sistema de poder que se estabeleceu com o governo Bolsonaro, minando as instituições por dentro, destruindo programas sociais e desmantelando a organização do Estado. Um trabalho de muita costura, que levou meses, sem resultado imediato, mesmo com aliados históricos. 

Houve divergências internas e até quem pensasse que as alianças nos estados não eram prioritárias, ou que a aliança social já estava dada, pela proximidade que sempre existiu com o MST, a CUT e outros movimentos. Havia, no entanto, um empenho no sentido de trazer todas as Centrais Sindicais. E esta foi a primeira vez que todas vieram. Em nenhuma eleição o Lula teve o apoio do conjunto absoluto das Centrais Sindicais nacionais no primeiro turno. Da mesma forma, os movimentos sociais. Não só o MST, como o MPA, que é um movimento dos pequenos agricultores, Contag e os demais. Há quem vá dizer que esses já estavam. Meia verdade. É preciso conversar olhando “olho no olho”, como Lula gosta de falar e chamar para perto, fazê-los se sentir dentro.

O desânimo que às vezes tomou conta de uma parte dos movimentos no período em que Lula estava preso logo se dissipou, quando ele foi liberto e demonstrou a possibilidade de liderar a construção dessa aliança e ele ser o candidato. 

A partir do discurso feito em no sindicato de São Bernardo o barulho veio. Um discurso histórico, claro, equilibrado, mas firme. 

Primeiro, a direção se dedicou às conversas nos 27 estados. Em um ou outro as coisas não saíram tão bem como todos gostariam, mas era importante insistir. “Para você ter uma aliança nacional, se você não tiver uma certa racionalidade nos estados, as contradições regionais contaminam a aliança nacional”, esclareceu uma fonte. 

Foi o caso de Pernambuco. O PT não hesitou, mesmo levando em conta a relação pessoal com Marília Arraes, em trazer o PSB. Era muito importante. Mas não sangraram a base. A esquerda marcha rumo à vitória em Pernambuco.

Com todas as dificuldades, Marília está apoiando o Lula, do mesmo modo que Danilo Cabral (PSB). Ninguém na esquerda em Pernambuco está fora da aliança. 

No Rio, apesar de toda complicação – e aí não estamos falando de senador, onde houve um racha que pode significar uma derrota da esquerda para o Romário –, mas em Marcelo Freixo (PSB) segue apoiando Lula, bem como o Rodrigo Neves (PDT), ex-prefeito de Niterói, e na reta final, o Eduardo Paes (PSD). 

Foram meses construindo isto. E longe de ser: vai, conversa e está pronto. O sistema eleitoral brasileiro estimula os partidos a disputarem, a lançar candidatos e tendo dois turnos, não há como proibir ninguém de fazê-lo.

No caso de São Paulo, por exemplo, havia o Boulos... Muitos apostavam no Boulos. Tem sido a lógica do Psol, ter candidatura própria. Aos poucos foi ficando claro, e os partidos da esquerda ao centro foram percebendo que esta era uma eleição, de fato, atípica. Não eram tempos normais. Uma vitória de Bolsonaro significaria uma consolidação de um regime autoritário. Ninguém sabe exatamente qual ou de que modelo. Talvez um misto de aspectos democráticos com um regime fechado e autoritário. Boa coisa não viria.

Diante disso, restou ao PT se dedicar à constituição dessa aliança política, eleitoral e sobretudo social. É nesse contexto que a candidatura do vice, Geraldo Alckmin, está tendo, sim, uma importância eleitoral, principalmente em São Paulo. Porém, ela não está sendo fundamental, por exemplo, para o Lula ter a votação que está tendo no Nordeste, ou no interior de Minas. Não é uma aliança do ponto de vista eleitoral. A dobradinha com Alckmin é sobretudo uma aliança social.

Esse aspecto ficou claro no lançamento da chapa, quando em um discurso escrito – e é preciso destacar o escrito para frisar que foi consignado -, Lula resgatou palavras como que estavam fora do vocabulário nacional, e do contexto atual, como solidariedade e amor. O discurso começa falando que governar é cuidar de pessoas, o que acabou caindo no gosto de um povo embrutecido por um governo que está distante de um verbo trazido pelo ex-presidente: cuidar. Para um povo anestesiado, ferido, machucado, depois de dois anos de pandemia e sofrimento soou como música. O discurso da esquerda costuma ser muito racional e era preciso tocar o coração das pessoas, regatar sentimentos, injetar ânimo. Havia muita gente deprimida em consequência do isolamento necessário, mas que sem dúvida significou o fim de alguns negócios para os pequenos empresários. 

E naquele dia Geraldo Alckmin, trouxe também em sua fala o mesmo tom. Afinados, essa dupla, a partir de domingo, ou no final de outubro, sai das urnas vitoriosa, principalmente com o mérito de trazer de volta à política amor, solidariedade e cuidado.

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