A Dureza dos Corações e o Paradoxo do Amor Conjugal na Sociedade da Tolerância Seletiva
A modernidade deslocou o casamento do campo da aliança social, da estabilidade simbólica e da responsabilidade ética para o campo da realização subjetiva
A contradição que se observa no comportamento humano contemporâneo — a capacidade de sustentar relações humanas antagônicas no trabalho, na vida pública e até no âmbito filial, contrastando com a ruptura célere da relação conjugal — não é um acidente psicológico nem simples fragilidade moral individual. Trata-se de um fenômeno estrutural, produzido na interseção entre cultura, organização social, economia do desejo e expectativas simbólicas depositadas no amor.
Do ponto de vista antropológico e sociológico, o sujeito moderno foi educado para suportar o outro sempre que a relação esteja mediada por necessidade objetiva ou por estruturas externas de regulação. No trabalho, tolera-se o antagonismo porque ele se submete à lógica da sobrevivência material, da hierarquia e do cálculo racional de perdas e ganhos. Na vida pública, convive-se com o adversário porque há normas, instituições e dispositivos de mediação do conflito. Na relação filial, mesmo atravessada por tensões profundas, persiste um interdito moral poderoso: trata-se de um vínculo que não se escolhe e, portanto, deve ser administrado, não descartado.
Em todas essas esferas, o outro é percebido como inevitável. A convivência, ainda que desconfortável, é racionalizada. Desenvolvem-se estratégias de tolerância, correção gradual, distanciamento regulado ou acomodação metódica. A paciência, aqui, não é apenas virtude moral; é instrumento funcional. Suporta-se o incômodo porque romper custa mais — socialmente, simbolicamente ou materialmente — do que permanecer.
É justamente essa racionalidade que desaparece na relação conjugal.
A modernidade deslocou o casamento do campo da aliança social, da estabilidade simbólica e da responsabilidade ética para o campo da realização subjetiva. O cônjuge deixou de ser companheiro de destino para tornar-se depositário de expectativas amplificadas: felicidade, reconhecimento, satisfação emocional, estabilidade psíquica, realização erótica e, não raramente, confirmação narcísica da própria identidade. O casamento passou a ser vivido como promessa de plenitude.
Aqui se instala o paradoxo central: o sujeito suporta o outro onde não espera ser plenamente feliz, mas não o suporta onde exige felicidade total.
A filosofia já havia advertido sobre esse risco. Desde Aristóteles, sabe-se que as formas mais elevadas de amizade — aquelas fundadas na virtude e no reconhecimento do outro como outro — exigem tempo, imperfeição e tolerância. No entanto, a cultura contemporânea substituiu essa ética por uma lógica de desempenho afetivo. O cônjuge passa a ser avaliado não como alguém em processo, mas como um projeto que deve “funcionar”. Quando falha, a solução não é o cuidado, mas a substituição.
Sob a perspectiva religiosa, especialmente nas tradições que estruturaram o imaginário ocidental, o casamento nunca foi concebido como garantia de felicidade contínua, mas como espaço privilegiado de transformação ética. Amar significava sustentar o outro não apesar de sua imperfeição, mas justamente nela. A ideia de “dureza dos corações” - Evangelhos de Mateus (19:8) e Marcos (10:5) - não dizia respeito à ausência de sentimento, mas à recusa em assumir responsabilidade pelo outro quando o vínculo deixa de ser confortável.
A secularização dissolveu essa dimensão sem substituí-la por uma ética equivalente. O resultado é um casamento esvaziado de transcendência e saturado de expectativas narcísicas.
É na psicanálise que essa contradição se revela com maior nitidez. Freud já indicava que o amor nasce da idealização: ama-se, inicialmente, uma imagem. Lacan radicaliza essa compreensão ao mostrar que o amor é uma tentativa de fazer existir uma relação que, estruturalmente, não se escreve. Ou seja, isso significa que não existe uma fórmula perfeita, natural ou garantida que una duas pessoas de modo completo. Não há encaixe definitivo entre dois sujeitos. Cada pessoa é marcada por faltas, desejos inconclusos, contradições internas e limites que nunca desaparecem. A relação amorosa nasce, portanto, não da completude, mas da tentativa de lidar com essa incompletude. No início, o cônjuge ocupa o lugar do objeto ideal; com o tempo, retorna ao lugar do sujeito faltante, atravessado por limites, sintomas e adversidades.
É nesse ponto que o amor é convocado a se transformar — ou a se dissolver.
A adversidade do cônjuge — uma crise psíquica, uma falha moral, um sofrimento prolongado, uma estagnação existencial — não é apenas um problema relacional; ela desorganiza a fantasia que sustentava o vínculo. O sujeito é então confrontado com uma escolha inconsciente: atravessar o luto da idealização e assumir o amor como trabalho psíquico, ou endurecer o coração e abandonar o vínculo.
A dureza dos corações manifesta-se exatamente aqui. Não como crueldade explícita, mas como recusa da empatia prolongada. Enquanto nas demais relações se aceita acompanhar processos lentos de correção — planos de melhoria, ajustes graduais, paciência metódica —, na relação conjugal exige-se resultado imediato. Onde no trabalho se admite acompanhamento, no casamento exige-se desempenho. Onde fora se tolera o tempo, dentro se exige prontidão.
Isso ocorre porque, diferentemente das demais relações, o cônjuge ocupa o lugar de espelho íntimo. Sua falha não é externa; ela ameaça o narcisismo central do sujeito. Ajudar o parceiro a atravessar sua adversidade exige suspender a fantasia de completude, reconhecer a própria vulnerabilidade e aceitar que o amor não elimina a falta, apenas a compartilha.
Por isso, muitas rupturas conjugais são menos rejeição do outro e mais fuga de si. Divorcia-se não apenas do cônjuge imperfeito, mas da experiência de limite que ele encarna.
A sociedade contemporânea legitima essa fuga ao oferecer uma narrativa moralmente confortável: a de que ninguém deve permanecer onde “não é feliz”. Essa máxima, aparentemente libertadora, converte-se em dispositivo de endurecimento ético. Ela transforma a impaciência em virtude e a desistência em autocuidado, obscurecendo o fato de que toda relação profunda exige atravessar zonas de frustração.
Assim, preservam-se relações antagônicas onde o eu não está em jogo e rompe-se aquela em que o eu é radicalmente exposto. Exercita-se paciência onde há distância simbólica e abandona-se o vínculo onde a proximidade exige empatia perseverante.
Em última instância, essa contradição revela uma inversão profunda: reserva-se a racionalidade, a metodologia e a tolerância para relações instrumentais, enquanto se entrega a relação mais íntima ao império do afeto volátil. O casamento torna-se o único laço social em que a imperfeição não é administrada, mas descartada.
Enquanto o vínculo conjugal for concebido como espaço de satisfação plena, e não como encontro entre dois seres estruturalmente incompletos, ele continuará sendo o primeiro a ruir — não por excesso de conflito, mas por excesso de expectativa; não por falta de amor, mas por dureza diante do trabalho que o amor, inevitavelmente, exige.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

